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Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir daqui

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08.Mar.18

Uma criança no Afeganistão (A celebração de Markino - parte IV)

Há qualquer coisa de acordo tácito no modo como Adélia e eu esperamos que João Maria se afaste e saia pela porta da pastelaria, para aproveitar a trégua da chuva e passear com a menina ao colo.

― O que é que se passou com o teu irmão e os serviços secretos norte-americanos? ― pergunta-me Adélia muito depressa, num tom cautelosamente baixo.

Olho-a com surpresa.

― Já me contou que vocês, na verdade, não são irmãos de sangue… ― ouço-a, sorrio e faço a minha cara de parva.

― Contou-me como se conheceram, como se ajudaram, como resistiram no orfanato; mas não me conta por que raio foi interrogado pela CIA!

Não estou certa de saber mais do que ela sobre o que se passou no Afeganistão. Ao pouco que João Maria me disse e quase nada do que somei de dois dos seus companheiros de pelotão, decidi eu acrescentar o resto e construir uma sequência lógica dos dias que lá viveu, consciente de poder estar a fantasiar demais ou (quem sabe?) ainda assim ficar aquém da realidade. Não me contento com meias palavras, com meias conversas, prefiro inventar uma versão dos factos em falta do que tropeçar na lacuna dos mesmos, por alguma razão tornei-me escritora.

Ela quer saber o que o João lhe omite (tal como a mim) da sua frustrante experiência militar; porém, se lhe relato a minha construção dos acontecimentos, temo que a tome pela verdade. Não queria ser eu a mostrar-lhe o passeio dele pelo mercado, nem que assumisse de um modo absoluto que pernoitou num armazém abandonado e quase sem teto, enquanto perseguia Abdul, o terrorista. Também não sei, com segurança, se o oficial americano lhe mostrou o ecrã do portátil e o obrigou a decidir qual das duas crianças deveria morrer, mas essas são as verdades que possuo, criadas a partir de um relato tão incompleto quanto insatisfatório.

 ― Sei que foi interrogado duas vezes…

― Sim, mas por quê? ― teima ela.

― Receio que ele não me tenha contado mais do que a ti ― aviso-a. ― Juntei algumas coisas que soube pelos seus camaradas, mas não garanto sequer a veracidade desses relatos. O que me resta é uma composição muito suspeita do que sucedeu.

― Conta-me!

― Acredito que o que aconteceu no Afeganistão tenha na verdade começado no Ruanda, quando a aldeia em que vivia foi atacada por uma milícia rebelde e a sua mãe violada e assassinada, enquanto o levavam para a selva, para aí o instruírem a manusear armas e a atacar outras aldeias para voltarem a violar mulheres, raptar crianças e o mais que essas milícias faziam... e ainda fazem ― calo-me e olho-a. Parece-me estupefacta.

― Continuo? ― pergunto-lhe.

Ela diz-me que sim.

― Quando mais tarde as forças governamentais dizimaram a milícia que o raptara, um médico missionário português (que depois o viria adotar) arrastou-o dos escombros, contra a vontade dos soldados governamentais, e conseguiu salvá-lo. Ainda viveram aqui no Montijo, mas não por muito tempo, o João acabou por ir parar ao orfanato onde nos conhecemos.

Tento avaliar o impacto das minhas palavras rudes nos seus olhos.

― Continua, por favor, ele vai chegar a qualquer momento! ― impõe-me Adélia.

― Seguimos juntos desde então, como irmãos de facto, mas sempre conscientes de que havia qualquer coisa que lhe faltava, algo que deixara no Ruanda e que a morte precoce do pai adotivo não o deixou reaver ― detenho-me. Interrogo-me em silêncio e admito-lhe que também eu não o consegui. Depois respiro fundo e advirto-a com seriedade:

― Talvez um dia ele te conte tudo exatamente como se passou e constates que o que te vou descrever agora é apenas uma das minhas muitas ficções…

Adélia olha para a porta da pastelaria antes de voltar a ordenar-me:

― Dá-me a tua ficção, será melhor do que a minha!

Faço-lhe a vontade:

― Depois de terminarmos os estudos fui surpreendida pela decisão dele se voluntariar para o serviço militar e a seguir para uma missão no Afeganistão. A minha imaginação diz-me que numa das suas folgas, pouco depois de lá chegar, enquanto passeava entre as tendas dos vendedores, deteve-se a olhar para uma criança. Não faço ideia do que é que lhe chamou a atenção, se deu mais uma volta pelo mercado ou se, simplesmente, ficou a observá-la à distância, vendo-a olhar repetidamente para o automóvel mal estacionado... Isso ou algo mais no seu comportamento terá alertado o meu irmão para a proximidade de um pelotão americano de reconhecimento. Correu e alarmou os militares. Não foi baleado por pouco, mas conseguiu afastar os soldados da área da explosão.

Interrogo-me se ela acredita nesta hipótese tanto quanto eu. Parece-me que sim.

― Isso custou-lhe o primeiro interrogatório dos serviços secretos americanos, com a habitual conivência do exército português. O João Maria tem uma memória visual muito apurada, por isso, calculo que quando lhe mostraram as fotografias, tenha identificado sem dificuldade Abdul, um dos terroristas mais procurados pelos Estados Unidos. Devem ter rejubilado de tanta satisfação que decidiram requerê-lo ao exército português, para o usarem numa missão de captura ao homem que havia identificado e mais uns quantos que, estando documentados, não constavam ainda nos cadernos de fotografias da CIA e só ele os podia reconhecer do mercado.

Paro para avaliar o meu discurso, mas Adélia reprova-me com um olhar. Retomo o fio à meada:

― Depois de várias incursões pela região, os serviços de informação americanos admitiram que Abdul podia estar escondido num velho edifício de uma cidade vizinha e deslocaram-se para lá com uma equipa especial e o João Maria.

Hesito. Reorganizo a minha plausível memória e prossigo:

― Entraram de noite, segundo o que apurei, e esconderam-se num pequeno armazém com o teto tão esburacado que dava para contar as estrelas no céu. Pela manhã, o oficial mostrou o ecrã de um portátil ao meu irmão e fê-lo observar, através da transmissão de um drone, a parede de um edifício onde uma se via uma criança debruçada numa das janelas (provavelmente absorta) a olhar sem entusiamo para os destroços da rua. Depois passou a outro edifício, em cuja parede eram igualmente visíveis as marcas das balas. Nele, João reconheceu o rapaz do mercado. Se pensou dissimular, a determinação do oficial americano desaconselhou-o. Àquela hora já tinham preparado o ataque e a dúvida consistia apenas em determinar qual dos dois edifícios abrigaria Abdul. Na pior das hipóteses reduziriam ambos as cinzas, até porque, admitira-lhe o oficial, não estavam certos de que os dois não albergassem terroristas: «Soubemos que o miúdo do mercado era filho de um antigo mártir, amigo de infância de Abdul, e que este o mantém agora à sua guarda, nunca se separando dele; por isso, se não o conseguires identificar, teremos que eliminar os dois».

― Foi um erro obrigarem-no a apontar para o rapaz: «O da jubba castanha» ― acrescento. ― O oficial murmurou a identificação para o comunicador e manteve-se em silêncio, a seguir, à espera da chegada do Rockwell B-1, o caça bombardeiro. Num impulso, João fugiu pela porta do armazém e precipitou-se para a rua. Uma vez mais, não foi baleado por pouco, desta porque os americanos não quiseram denunciar a sua presença antes do ataque aéreo e limitaram-se a seguí-lo pela câmara do drone, à procura do edifício onde estava o rapaz da jubba castanha. Assim que o encontrou levantou os braços na sua direção. Não sei o que se passou a seguir, talvez nem ele o saiba, mas pouco depois o edifício desmoronou-se.

Olho para Adélia e apercebo-me de que está triste, então, componho-lhe uma boa imagem do João, para que o possa recordar com o mesmo respeito que guardo para mim, e descrevo-o parado no meio da estrada, como um herói rodeado de destroços e o ar a saturar-se de pó até se tornar irrespirável. Só depois relato a queda do segundo edifício, a saída das tropas americanas e as escaramuças enquanto varrem as imediações e vasculham os cadáveres na tentativa de identificarem Abdul. Volto ao João e revelo-lho confuso, mas de certo modo pacificado consigo mesmo, à espera de voltar a ser preso e interrogado pelos serviços secretos americanos, agora por ter permitido a fuga de Abdul, o terrorista, e o rapaz do mercado.

― Isto é mais do que aquilo que sei ― confesso-lhe.

― Obrigado ― agradece-me ela sem convicção. ― Por que é que ele se recusa a falar-nos disto?

― Talvez receie que lhe perguntemos a razão de ter querido salvar a criança no Afeganistão.

Adélia volta os olhos para a porta a tempo de ver João Maria a sorrir-lhe do lado de fora e depois torna muito depressa para mim:

― Por quê?

E de repente tudo me parece fazer sentido:

― Porra! ― suspiro com surpresa. ― Para resgatar a que deixou no Ruanda...

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