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Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir daqui

Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir daqui

22.Jun.19

A última pega

j.campião
Paulo Marques Debruçou-se sobre a cerca e espreitou os touros pela lente da objetiva, detendo-se na escolha do enquadramento. Afastou a câmara e ergueu os olhos para o céu azul salpicado grosseiramente por nuvens de vários tamanhos e tons. Tinham adormecido juntos, agarrados um ao outro. Uma noite fantástica, sem dúvida a melhor que alguma vez havia passado com qualquer mulher! Pendurou a câmara ao pescoço e trepou a cerca, sem pressa. Um vento, demasiado frio para a temperatura (...)
19.Mai.19

Amontoado de casas

j.campião
Se continuasse crente em Deus, poderia dizer que tive uma epifania mesmo à saída do Estabelecimento Prisional do Montijo, mas como entrei católico e saí ateu, direi apenas que tive a clara perceção de que a minha vida não voltaria a ser a mesma. Os primeiros passos em liberdade foram curtos e titubeantes. Não sabia para onde ir, mas não tinha dúvidas de que não queria voltar para casa. Depois de seis meses e treze dias de prisão, por ter arrancado uma orelha a um proxeneta (...)
10.Mar.19

A preto e branco

j.campião
Ela tinha vindo visitar-me. Sentámo-nos frente a frente. Sorriu. Um sorriso estúpido, sem razão, que me fez sentir falta da câmara. – Como está o teu braço? – perguntou-me. Alguns meses atrás, um conhecido abordara-me à mesa da Mimosa: – Queres comprar uma Canon AE-1? – Por quanto? – perguntei. Mas por que raio compraria uma câmara analógica se tinha “esquecida” numa gaveta, outra, digital, que não usava? Comprei. Comprei a Canon AE-1 na sua versão prateada. (...)
18.Dez.18

Natasha, a paciente

j.campião
A proximidade do Natal deixa-me sempre triste, e depois do meu divórcio tornou-se ainda pior. Este ano não me tem sido fácil ignorar as mulheres bonitas, apesar de ainda não ter estabelecido o que raio é para mim uma mulher bonita. De qualquer modo, para mim, Natasha é uma mulher francamente bonita e numa outra altura do ano conseguiria olhar para ela e ficar-me por aí. Quando a vi pela primeira vez não consegui concentrar-me clinicamente nas suas expressões, nos seus gestos, nas (...)
02.Dez.18

"Pedro, o sapateiro"

j.campião
Susteve o olhar do paciente sem pestanejar e questionou-se sobre o que é que ele estaria à espera. – Sinto-me com cara de parvo... – ouviu-o declarar. – Por quê? – Porque, na realidade – disse o homem sentado no lugar reservado aos pacientes. – Não estou doente. Nem sequer me sinto mal. Talvez nunca me tenha sentido tão bem em toda a vida. – Se é assim – volveu o psiquiatra. – Por que razão marcou esta consulta. – Por curiosidade. Embora hajam dias em que tenho (...)
17.Nov.18

Puta que o pariu!

j.campião
Pediu para desmarcar todas as consultas dessa tarde, menos uma. Questionou a rececionista, instruiu-a e, não satisfeito, pediu para verificar as marcações: 15:00 Sr. João Borges Cortez – desmarcado 16:00 Sra. Helena Maria Andrade – desmarcada 17:00 Sr. Fernando Castro Rosa - visita de cortesia 18:00 Sra. Paula Correia Mosca - desmarcado Saiu do gabinete e passou pela receção para devolver a agenda. Sorriu para a rapariga, auscultou a porta de entrada e só depois de verificar (...)
04.Nov.18

O sangue

j.campião
  – Nunca soube o que era o medo… O doutor Alvarez registou a primeira frase da consulta no bloco de notas. «Já lá iremos» pensou para si mesmo, fingindo ignorar a declaração do paciente. As suas consultas de psicologia não obedeciam exatamente ao padrão da protocolada abordagem cientifica, sobretudo depois de ter sentido necessidade de se complementar com uma segunda formação, em psiquiatria, quando concluiu que conseguir explicar qualquer tipo de acontecimento nefasto lhe (...)
02.Out.18

O doente do Quarto 12, cama 3 - V

j.campião
A mão do polícia aperta-me o braço garantindo que não me afastarei. Os dedos pressionam-me os músculos e magoam-me, mas não me queixo, nem afasto os olhos da enorme poça de sangue que nos parece perseguir. Obriga-me a recuar um passo, de modo a manter-me colada a si, mas com os pés em chão seco. Que horas serão? Interrogo-me com os olhos feridos pela intensa luz do sol. A manhã parece-me muito distante, como se a tivesse começado há muitos dias e não hoje, depois de tomar (...)
22.Ago.18

Cortinados novos! (Quarto 12, cama 3 - IV)

j.campião
 Às 10 e 30 já tinha colado o papel na parede da cabeceira da minha cama. Satisfeita, abri a mala, retirei a carteira e fui para a cozinha. Fiz um chá, mas depois não me apeteceu bebê-lo. Em vez disso, espremi o sumo de uma toranja, descasquei os dois figos verdes mais maduros que tinha e sentei-me à mesa. Apontei o telecomando à televisão (colocada na parede e ladeada por duas pequenas colunas de som, verticais). Repeti para mim mesma, uma vez mais, que os programas das manhãs (...)