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Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir daqui

Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir daqui

04.Nov.18

O sangue

j.campião
 – Nunca soube o que era o medo…O doutor Alvarez registou a primeira frase da consulta no bloco de notas. «Já lá iremos» pensou para si mesmo, fingindo ignorar a declaração do paciente. As suas consultas de psicologia não obedeciam exatamente ao padrão da protocolada abordagem cientifica, sobretudo depois de ter sentido necessidade de se complementar com uma segunda formação, em psiquiatria, quando concluiu que conseguir explicar qualquer tipo de acontecimento nefasto lhe (...)
02.Out.18

O doente do Quarto 12, cama 3 - V

j.campião
A mão do polícia aperta-me o braço garantindo que não me afastarei. Os dedos pressionam-me os músculos e magoam-me, mas não me queixo, nem afasto os olhos da enorme poça de sangue que nos parece perseguir. Obriga-me a recuar um passo, de modo a manter-me colada a si, mas com os pés em chão seco.Que horas serão? Interrogo-me com os olhos feridos pela intensa luz do sol. A manhã parece-me muito distante, como se a tivesse começado há muitos dias e não hoje, depois de tomar (...)
22.Ago.18

Cortinados novos! (Quarto 12, cama 3 - IV)

j.campião
 Às 10 e 30 já tinha colado o papel na parede da cabeceira da minha cama. Satisfeita, abri a mala, retirei a carteira e fui para a cozinha. Fiz um chá, mas depois não me apeteceu bebê-lo. Em vez disso, espremi o sumo de uma toranja, descasquei os dois figos verdes mais maduros que tinha e sentei-me à mesa. Apontei o telecomando à televisão (colocada na parede e ladeada por duas pequenas colunas de som, verticais). Repeti para mim mesma, uma vez mais, que os programas das manhãs (...)
12.Ago.18

Margarida (Quarto 12, cama 3 - III)

j.campião
Voltei de Angola uma pessoa diferente. Mais do que ter ido procurar (inutilmente) os meus pais, fui encontrar-me comigo própria. Já não me incomoda o sentimento de perseguição da morte quando saio para a rua ou sempre que me olho no espelho, mas não prescindirei da plenitude que por vezes me preenche, como na manhã em eu que me deitei sobre a cama a olhar para o teto e a interrogar-me: Quem se seguirá? Até onde poderei ir? Porque razão não temo ser apanhada? Lembro-me dessa (...)
29.Jul.18

Regresso a África (Quarto 12, cama 3 - II)

j.campião
 Depois da enormidade do meu ato fui acometida por uma inquietação, durante a qual me repeti vezes sem conta: «Matei um homem! Eu matei um homem!!».O homicídio trouxe-me toda uma emergência de sentimentos contraditórios, de estados de espírito confusos, de dolorosas impressões físicas para as quais eu não estava preparada, nem delas havia sequer suspeitado quando executei o crime. Deixei de escrever, deixei de trabalhar e, por fim, deixei de conseguir conviver comigo mesma, tal (...)
15.Jul.18

Quarto 12, cama 3 - I

j.campião
A última vez que decidi retomar as pesquisas para o “Sob o sol de Estremoz” (texto que que teimo em não dar por concluído) estacionei em frente de um pequeno acampamento de ciganos e deparei-me com uma criança em cuecas, à beira da estrada, com um prato repleto de batatas cozidas equilibrado numa das mãos e um garfo na outra. Olhámo-nos por um instante. O garfo no ar, o prato com as batatas secas... e os olhos da criança fixados em mim. Não guardo muitos pormenores desse (...)
06.Mai.18

A primeira Bíblia

j.campião
  No fim de cada semana de trabalho ter uma boa máquina de café em casa já não me impede de sair e tomar o pequeno-almoço fora, por isso, atravessei o parque, desci a avenida e cruzei-me com os crentes à saída da missa. Gosto de os observar, mas nem foi o caso, foi antes o acaso, que me fez cruzar com Sérgio Pontini, a quem já ouvi chamar "o maior mentiroso do Montijo". ― Bom dia! ― Bom dia ― estaquei à sua frente. ― Já tomaste café? ― convidei-o, mais a pensar em (...)
08.Mar.18

Uma criança no Afeganistão (A celebração de Markino - parte IV)

j.campião
Há qualquer coisa de acordo tácito no modo como Adélia e eu esperamos que João Maria se afaste e saia pela porta da pastelaria, para aproveitar a trégua da chuva e passear com a menina ao colo. ― O que é que se passou com o teu irmão e os serviços secretos norte-americanos? ― pergunta-me Adélia muito depressa, num tom cautelosamente baixo. Olho-a com surpresa. ― Já me contou que vocês, na verdade, não são irmãos de sangue… ― ouço-a, sorrio e faço a minha cara de parva. ― Contou-me como se conheceram, como se ajudaram, como resistiram no orfanato; mas não me conta por que raio foi interrogado pela
18.Fev.18

O medo e as ondas da Nazaré (A celebração de Markino - parte III)

j.campião
Sigo as coordenadas do GPS e estaciono no local que Adélia me indicou. O mar sopra-me na cara um vento frio e húmido, agitando-me as tranças; puxo a gola do casaco e rodo ligeiramente sobre os calcanhares até vislumbrar o seu vulto, sentado e embrulhado numa manta. Resignada, dou graças por ter calçado botas e caminho sobre a areia. ― Senta-te! ― murmura-me quando chego perto. Passo por detrás de uma prancha, desdobro a manta que me espera no outro lado e obedeço-lhe. Embora (...)
21.Jan.18

A minha amiga Khudzi (4)

j.campião
Morreu a minha amiga Khudzi. Cai uma cacimba grossa quando passo a porta do cemitério, como se estivesse com pressa, e procuro a sua campa. Há um pequeno grupo de pessoas lá ao fundo, em semicírculo; percebo que é onde a vão enterrar. Aproximo-me. Para minha surpresa vejo um padre à cabeceira da campa. Não sei quem ele é (não sou devota) mas sei que não é o da nossa igreja, por isso, concluo que deve ter vindo em substituição. Depois do que Khudzi fez não me espanta que não (...)