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Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir daqui

Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir daqui

06.Mai.18

A primeira Bíblia

j.campião
  No fim de cada semana de trabalho ter uma boa máquina de café em casa já não me impede de sair e tomar o pequeno-almoço fora, por isso, atravessei o parque, desci a avenida e cruzei-me com os crentes à saída da missa. Gosto de os observar, mas nem foi o caso, foi antes o acaso, que me fez cruzar com Sérgio Pontini, a quem já ouvi chamar "o maior mentiroso do Montijo". ― Bom dia! ― Bom dia ― estaquei à sua frente. ― Já tomaste café? ― convidei-o, mais a pensar em (...)
08.Mar.18

Uma criança no Afeganistão (A celebração de Markino - parte IV)

j.campião
Há qualquer coisa de acordo tácito no modo como Adélia e eu esperamos que João Maria se afaste e saia pela porta da pastelaria, para aproveitar a trégua da chuva e passear com a menina ao colo. ― O que é que se passou com o teu irmão e os serviços secretos norte-americanos? ― pergunta-me Adélia muito depressa, num tom cautelosamente baixo. Olho-a com surpresa. ― Já me contou que vocês, na verdade, não são irmãos de sangue… ― ouço-a, sorrio e faço a minha cara de parva. ― Contou-me como se conheceram, como se ajudaram, como resistiram no orfanato; mas não me conta por que raio foi interrogado pela
18.Fev.18

O medo e as ondas da Nazaré (A celebração de Markino - parte III)

j.campião
Sigo as coordenadas do GPS e estaciono no local que Adélia me indicou. O mar sopra-me na cara um vento frio e húmido, agitando-me as tranças; puxo a gola do casaco e rodo ligeiramente sobre os calcanhares até vislumbrar o seu vulto, sentado e embrulhado numa manta. Resignada, dou graças por ter calçado botas e caminho sobre a areia. ― Senta-te! ― murmura-me quando chego perto. Passo por detrás de uma prancha, desdobro a manta que me espera no outro lado e obedeço-lhe. Embora (...)
21.Jan.18

A minha amiga Khudzi (4)

j.campião
Morreu a minha amiga Khudzi. Cai uma cacimba grossa quando passo a porta do cemitério, como se estivesse com pressa, e procuro a sua campa. Há um pequeno grupo de pessoas lá ao fundo, em semicírculo; percebo que é onde a vão enterrar. Aproximo-me. Para minha surpresa vejo um padre à cabeceira da campa. Não sei quem ele é (não sou devota) mas sei que não é o da nossa igreja, por isso, concluo que deve ter vindo em substituição. Depois do que Khudzi fez não me espanta que não (...)
01.Jan.18

O segredo do latte macchiato (A celebração de Markino - parte II)

j.campião
O segredo de um bom latte macchiato está na consistência que damos ao café e ao leite; claro que ambos têm que ser de boa qualidade. Aqui o café é bom, mas não posso beber um latte macchiato, não me atrevo a sugerir que me vaporizem o leite e lhe misturem o café segundo as minhas indicações, por isso limito-me a pedir: ― Meia-de-leite, se faz favor. ― Mais alguma coisa? ― Não. Estou à espera de duas pessoas... Espero o meu irmão e a minha amiga Adélia, mas receio que (...)
17.Dez.17

Viagem ao Arizona (O meu preço - parte III)

j.campião
Sinto-me estupidamente calmo depois de ter dormido mal e acordado demasiado cedo, sem ânimo para sair de casa. Decidi tomar o pequeno almoço na sala e ficar a olhar pela janela as pessoas a cruzarem-se na rua, sob a azáfama do Natal, segurando os chapéus de chuva. Rememoro a voz de João Domingos, as suas mãos esfaceladas: ― Quando lá cheguei dei por mim à procura dos Navajos, dos Apaches e dos Índios Pueblo. Tinha feito a viagem imaginando-os a caçar, a lutar, a matar, a morrer.
25.Nov.17

Parar o tempo numa esplanada egípcia

j.campião
Tinha os olhos fechados e a estranha sensação de que tudo se imobilizava à sua volta. Percebeu, sem saber porquê, que devia ter escolhido Paris, mas já era tarde, não podia voltar atrás, não era possível viver o mesmo tempo duas vezes, lamentou consciente da inutilidade do queixume. Se nunca antes o pretendera fazer, por ser infrutífero, seria escusado exigi-lo agora. Parar o tempo sim, já o ambicionara algumas vezes e o fracasso de todas elas nunca o impedira de tentar outra e (...)
20.Nov.17

A raposa do Ártico

j.campião
«Apetece-me um café na Mimosa.»Despi o roupão e atirei-o para cima do sofá. Coloquei um cachecol, vesti o casaco e abotoei-me até ao queixo. Caminhei até à pastelaria, onde me desabotoei com a mesma prontidão, desenrolei o cachecol, sentei-me e pedi dois cafés. A memória é um estranho processo de retenção, consigo recordar minuciosamente os dois acontecimentos mais dramáticos da minha vida, mas sobretudo os pormenores que não presenciei. Memorizei-os pelos olhos de Raquel, (...)
08.Nov.17

Um execrável alarve! (O efeito das borboletas - parte III)

j.campião
Os personagens dos meus quatro primeiros romances eram todos muito bons e foi isso que lhes reduziu os enredos a merda!Na realidade talvez não fossem assim tão maus, mas é como agora me esforço por classificá-los, depois de iniciar a terapia e procurar desenvolver uma imperturbável agudeza de espírito e capacidade crítica, desprovidas de misericórdia.Foi-me necessário escrever mais de mil e quinhentas páginas para perceber que não era capaz de compor, convincentemente, um (...)
29.Out.17

A batata da verdade (O efeito das borboletas - parte II)

j.campião
Aos sábados, no outono, gosto das manhãs cinzentas. Sempre que amanhece assim, levanto-me e espreito pela janela do quarto o manto esfarrapado da neblina sobre as copas das árvores, no parque, e vem-me à memória, sei lá de onde, um irrequieto aroma de café com croissant. Então, lavo-me à pressa e, mais do que me pentear com os dedos, sacudo o cabelo ainda húmido, coloco a trela na cadela e saímos para a rua, satisfeitos. Nestas manhãs deixo-a escolher o caminho, mesmo que me (...)