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Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir daqui

Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir daqui

22.Jun.19

A última pega

j.campião
Paulo Marques Debruçou-se sobre a cerca e espreitou os touros pela lente da objetiva, detendo-se na escolha do enquadramento. Afastou a câmara e ergueu os olhos para o céu azul salpicado grosseiramente por nuvens de vários tamanhos e tons. Tinham adormecido juntos, agarrados um ao outro. Uma noite fantástica, sem dúvida a melhor que alguma vez havia passado com qualquer mulher! Pendurou a câmara ao pescoço e trepou a cerca, sem pressa. Um vento, demasiado frio para a temperatura (...)
19.Mai.19

Amontoado de casas

j.campião
Se continuasse crente em Deus, poderia dizer que tive uma epifania mesmo à saída do Estabelecimento Prisional do Montijo, mas como entrei católico e saí ateu, direi apenas que tive a clara perceção de que a minha vida não voltaria a ser a mesma. Os primeiros passos em liberdade foram curtos e titubeantes. Não sabia para onde ir, mas não tinha dúvidas de que não queria voltar para casa. Depois de seis meses e treze dias de prisão, por ter arrancado uma orelha a um proxeneta (...)
29.Jul.18

Regresso a África (Quarto 12, cama 3 - II)

j.campião
  Depois da enormidade do meu ato fui acometida por uma inquietação, durante a qual me repeti vezes sem conta: «Matei um homem! Eu matei um homem!!». O homicídio trouxe-me toda uma emergência de sentimentos contraditórios, de estados de espírito confusos, de dolorosas impressões físicas para as quais eu não estava preparada, nem delas havia sequer suspeitado quando executei o crime. Deixei de escrever, deixei de trabalhar e, por fim, deixei de conseguir conviver comigo mesma, (...)
20.Nov.17

A raposa do Ártico

j.campião
«Apetece-me um café na Mimosa.» Despi o roupão e atirei-o para cima do sofá. Coloquei um cachecol, vesti o casaco e abotoei-me até ao queixo. Caminhei até à pastelaria, onde me desabotoei com a mesma prontidão, desenrolei o cachecol, sentei-me e pedi dois cafés. A memória é um estranho processo de retenção, consigo recordar minuciosamente os dois acontecimentos mais dramáticos da minha vida, mas sobretudo os pormenores que não presenciei. Memorizei-os pelos olhos de (...)
22.Out.17

Leiopelma Pakeka (O meu preço - parte II)

j.campião
Quando me disseram que Cátia tinha-se separado do marido e deixado o país, não sei por quê, calculei de imediato que tivesse ido para Espanha. Garantiram-me que não, que tinha partido para a Nova Zelândia. Sempre soube que Nova Zelândia está nos antípodas de Portugal, mas nunca me tinha apercebido do quanto estava igualmente longe do meu imaginário, contudo e desde então, passou a fazer parte do meu dia-a-dia, ou melhor, das minhas angústias quotidianas. Foi por isso que numa (...)
13.Out.17

Vida selvagem

j.campião
Perseguir crocodilos no Nilo às duas da manhã é uma operação muito perigosa, e ainda mais a bordo de um pequeno bote apetrechado com um holofote suspenso de uma haste, à altura de um metro e oitenta, pensava Tomás. Ele mal sabia nadar, lembrou-se a propósito, enquanto se esforçava por manter-se atento aos mais pequenos movimentos da água, aos mais suaves balanços do barco. Não necessitava de olhar para o relógio para a imaginar no quarto, deitada sobre a cama, lendo uma (...)
06.Out.17

A celebração de Markino (parte I)

j.campião
Pequeníssimas pérolas de suor luziam sobre a pele fina e macia de Diara. Nos seus olhos Markino via o reflexo da lua e todo o imenso céu africano salpicado de estrelas. Eram mágicos aqueles momentos em que conseguia permanecer unido a uma mulher até escutar o riso da retirada das hienas, os derradeiros lamentos dos predadores famintos e a inquieta agitação dos sobreviventes. Para retardar o orgasmo imaginava a deambulação daqueles animais, procurando-se uns aos outros, numa (...)