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Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir daqui

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29.Jul.18

Regresso a África (Quarto 12, cama 3 - II)

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Depois da enormidade do meu ato fui acometida por uma inquietação, durante a qual me repeti vezes sem conta: «Matei um homem! Eu matei um homem!!».

O homicídio trouxe-me toda uma emergência de sentimentos contraditórios, de estados de espírito confusos, de dolorosas impressões físicas para as quais eu não estava preparada, nem delas havia sequer suspeitado quando executei o crime. Deixei de escrever, deixei de trabalhar e, por fim, deixei de conseguir conviver comigo mesma, tal a torrente de emoções que me levavam do arrependimento profundo à satisfação absoluta; do repúdio por mim mesma ao respeito sincero; tudo num só dia, numa só hora, num só instante.

Interroguei-me vezes sem conta sobre a razão que me levara a matar o pedófilo, que, provavelmente, não constituía o perigo de há muitos anos atrás, quando o meu irmão o impediu de violentar-me. Atormentava-me a ideia de aquele não ter sido um ato isolado. Aos poucos deparei-me com uma imensa e, até então, insuspeitada raiva pelo facto dos meus pais me haverem abandonado no mesmo orfanato onde ele já abusava de outras crianças...

Revolvi a minha infância e o abandono dos meus pais. Admiti, com alguma surpresa, nunca ter ultrapassado a minha falsa orfandade e, talvez por isso, quando a coexistência comigo mesmo se tornou insuportável, decidi fugir de casa e ir à procura dos meus progenitores. Reuni os poucos dados que deles possuía e viajei para Angola.

É verdade o que dizem e constatei-o logo à saída do avião: África tem um cheiro único e as pessoas são mais simpáticas, mais próximas.

Descobri que a aldeia onde nasci e os meus pais viveram já não existe. Talvez por causa da guerra, talvez por causa da fome, a verdade é que os seus habitantes se dispersaram, muitos deles por Maputo. Senti-me de novo abandonada.

Não gostei da viagem. Não gostei de Maputo. Não gostei de ninguém. E quando percebi que nunca iria encontrar os meus pais na selva daquela capital tratei de fugir dela para a savana.

Por vezes lembrava-me do pedófilo tombando sobre a mesa coberta pelo seu próprio sangue, mas era como se a distância física do acontecimento me afastasse também do sentimento de culpa, secundarizando-o a uma raiva ameaçadora, como um largo carreiro de formigas kissonde (que pude observar de perto!!!) a percorrer-me o corpo, correndo, mordendo, devorando... correndo, mordendo, devorando... desejando uma oportunidade para retaliar. Ainda mais inquieta e incapaz de me suportar, deixei-me levar discretamente no meio de um grupo de turistas para um safari.

A savana angolana é amarela, poeirenta e tostada pelo fogo que emana do sol, a espaços salpicada por tufos de pequenas vegetações e árvores dispersas. É percorrida por leões, zebras, elefantes, búfalos, leopardos, onças, girafas e uma panóplia de outras maravilhas selvagens, entre as quais os majestosos palancas negros (estes estritamente dentro da reserva natural)! Gostei de todos os animais e, embora estivesse a adorar a selva, mantinha um enorme desejo de vingança que, com muito esforço, dissimulava por entre os turistas com os seus óculos de sol Ray Ban, as suas roupas caqui, ridículos chapéus de caçadores e, claro está, iPhones de última geração. Estive capaz de matar um!

No fim do safari reparei que um pequeno grupo de seis pessoas conspiravam entre si. Observei os homens e identifiquei a adoção teatral da postura de macho Alfa, mimetizada por uma versão parecida das duas mulheres do grupo. Aproximei-me e tentei entabular conversa. Em menos de duas horas estava convidada para uma caçada ao gorila na floresta do Maiombe, em pleno enclave de Cabinda. O gorila é o meu animal preferido!

Este grupo era formado por dois australianos (muito diferentes entre si) um casal de americanos e dois espanhóis que comiam juntos, dormiam juntos e falavam quase e apenas um com o outro, mas faziam questão de repetir que se tratavam apenas de amigos.

Um dos australianos, que me pediu o dinheiro para participar na caçada ao gorila, era o organizador da expedição clandestina e quem mantinha contacto com um suposto guia que nos haveria de levar ao interior da floresta do Maiombe. Alto, possuía uns bicípites de culturista, uma desenvoltura de autoconfiança, ténis com sola especial para caminhada e meias que subiam quase até ao joelho. Usava uns calções da mesma cor e camisa de mangas arregaçadas quase até aos sovacos, já se sabe porquê. Tentou cortejar-me. Consenti-lhe algum avanço, paguei a minha parte, jantei com todos, sorri para todos, bebi com todos.

No fim do jantar, o angariador, que se chamava Noah, pediu-nos o passaporte e guardou-os para nos arranjar o salvo conduto apropriado, antes de me acompanhar até à porta do hotel.

Quando me deitei, sozinha, na cama do meu quarto, achei-me anormalmente calma, quase apaziguada, apesar da insistente imagem dos bicípites do meu pretendente e da minha ansiedade ante a perspetiva de entrar numa floresta selvagem e enfrentar um bando de gorilas!

Na manhã seguinte tomei banho, enchi uma pequena mochila e desci para me encontrar Noah, à minha espera no átrio. Entregou-me o passaporte. Tomámos o pequeno-almoço e saímos ao encontro dos outros. Reparei que o compatriota de Noah nos recebeu com algum azedume.

O voo foi tranquilo, mas toda a viagem exigente e por isso mesmo cansativa. Noah conduziu-nos a um grande jeep, onde nos apresentou o guia angolano e distribuiu uma espingarda e por cada um e uma pequena tenda para cada dois. Perguntou-me discretamente se sabia disparar. Sorri-lhe.

― O suficiente para apontar com firmeza e pressionar o gatilho lentamente ― respondi para sua satisfação. ― O problema de todas as armas é serem demasiado fáceis de usar.

Perguntou-me se alguma vez tinha dormido no mato.

A floresta de Maiombe tem uma envolvência fantástica, um cheiro intenso e milhares de sons que resultam numa algaraviada de muitos animais e insetos. A atmosfera é húmida e quente; o piso irregular e pejado de incontáveis obstáculos que nos fadigam, nos picam, nos arranham, mas que, ainda assim, vale a pena ultrapassar. Achei que, naquela selva, tudo valia a pena menos as pessoas que me acompanhavam. A americana encharcava-se em perfume e o australiano magrinho parecia ainda mais enfezado sempre que se colocava junto de Noah, como se procurasse evitar que este me escolhesse como sua companhia preferida.

Para minha surpresa deixámos o jeep perto de um posto da polícia florestal, onde o chefe observou minuciosamente o salvo conduto de Noah, as nossas espingardas e uma caixa de dardos de atordoamento, que não percebi de onde tinha vindo. No fim fingiu-se convencido de que eramos cientistas.

Durante a caminhada Noah distribuiu algumas munições e ordenou-nos que não disparássemos se não fosse mesmo necessário. A condição era matar um gorila ou dois, mais do que isso seria prejudicial para a expedição e colocaria a polícia na nossa peugada. Se fossemos apressados e abatêssemos o primeiro gorila que encontrássemos tanto pior, se abatêssemos dois terminaria de imediato a expedição, mesmo que fossem os únicos dois gorilas que encontrássemos.

O guia batia o terreno e ia e vinha à nossa frente. A meio da tarde mandou-nos parar e preparar a pernoita. Noah proibiu a americana de colocar mais perfume e o seu compatriota australiano sorriu inadvertidamente, recebendo de volta um olhar fulminante. Depois olhou provocadoramente para mim, dissipando-me qualquer dúvida sobre a sua paixão por Noah. Coloquei-me em alerta.

Calculei cada passo, assim como cada gesto de cada um dos meus companheiros, sobretudo do musculado Noah.

O australiano magrinho dormiu na mesma tenda do guia e eu dormi com Noah. O casal de americanos e os espanhóis fizeram questão de nos incomodar enquanto faziam sexo durante aquela noite fria. Não imaginava que as noites podiam ser tão frias na selva, nem que os ruídos noturnos dos animais selvagens fossem tão estimulantes!

Não me foi fácil resistir à proximidade nem às tentativas de Noah que, por isso mesmo, acordou de mau humor.

Bebemos café e comemos bolachas enquanto rompia o sol. Depois percorremos o rasto que o guia nos apontou como sendo de um bando de gorilas, que ele identificara na tarde anterior, e caminhámos em silêncio um bom par de horas, atentos às marcas dos animais na vegetação e aos seus excrementos. Quando o som da floresta se alterou o guia fez-nos sinal e todos nos protegemos com as espingardas. Noah impôs silêncio.

A presença dos gorilas excitou-me os sentidos e decidi começar a provocar Noah com insinuações e gestos. Também fiz questão de que toda a gente reparasse nisso até o som de um tambor peitoral nos deter. Todo o grupo se preparou para o encontro, mas eu já tinha feito sinal a Noah, que me separou do resto do grupo, exatamente como era nosso desejo e afastamo-nos sob um olhar de ódio do seu compatriota.

A alguma distância do grupo, Noah agarrou-me e forçou-me com contra uma árvore. Largamos as armas. Dei a entender que a mochila me magoava as costas, enquanto ele me percorria apressadamente com as mãos. Libertei-me da mochila; abri-a e revolvi-a. Noah arrancou-me a camisola e eu abracei-o com força, trémula de desejo, mas, subitamente paralisei. Quando ele se apercebeu-se da presença do animal, voltou-se e procurou a sua espingarda.

Um gorila macho observava-nos a uma distância de poucos passos. Noah empunhou lentamente a espingarda e ordenou-me que recuasse. Limitei-me a agachar atrás das suas pernas. Ele apontou ao peito do animal e eu observei-lhe as coxas musculadas e os gémeos petrificados. Sorri à minha capacidade de improviso. Espreitei o gorila e apontei o bisturi ao tendão de Aquiles direito, deferindo um golpe largo, atingindo também o esquerdo. Quase de imediato Noah caiu sobre si mesmo apesar dos fortes músculos. Na queda largou a espingarda e gemeu.

Estimulado pelos movimentos bruscos de Noah o gorila avançou. O australiano olhou-me incrédulo, agarrado aos tornozelos, depois agarrou as minhas pernas, magoando-me com os dedos ensanguentados. Deslizei as costas pela árvore e esperneei tentando libertar-me. O gorila abriu os braços, grunhiu e avançou para Noah, que de debateu nas suas mãos. Gritou. Tanto pior. Eu gritei também. Pior ainda. Alguém disparou. Olhei uma última vez para o gorila, que esmagava as costas de Noah, e não tive dúvidas: aquele era o meu animal preferido!

Levantei-me e saí a correr, completamente histérica.

Ao som de outro disparo lancei-me para o chão. Estava instalado o pânico. Mais um tiro e a seguir toda a gente a disparar quase ao mesmo tempo, contrariando a voz do guia. Quando se acalmaram gritei:

― Tirem-me daqui!

O guia, seguido do australiano homossexual, foram os primeiros a encontrar-me e perguntaram por Noah.

― O gorila levou-o ― choraminguei. ― Tirem-me já daqui! ― voltei a gritar na direção do guia.

O australiano enfezado demonstrou vontade de procurar Noah, mas não convenceu o guia.

― Tire-me daqui ou ponho toda a gente a testemunhar contra si quando chegar ao hotel! ― aproveitei para o ameaçar.

Atrás deles, a americana, com um olhar alucinado, tomou o meu partido. E de repente toda a gente estava comigo, contra o australiano magrinho.

Caminhamos apressadamente na direção do jeep. A americana abriu a sua mochila e deu-me uma T-shirt empestada de Carolina Herrera 212 para cobrir as mamas. Quando avistamos o posto, saudamos toda a gente com um falso sorriso e saímos sem mais conversa.

No regresso a Maputo toda a gente me perguntou várias vezes o que se tinha passado e eu mantive sempre a mesma versão, omitindo apenas na questão do bisturi e ansiando por um pouco de silêncio, porque se não sabia exatamente o que o futuro guardava, estava já consciente de que o homicídio na pastelaria Mimosa não tinha sido um ato isolado.