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Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir daqui

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O melhor da vida é... fugir daqui

15.Jul.18

Quarto 12, cama 3 - I

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A última vez que decidi retomar as pesquisas para o “Sob o sol de Estremoz” (texto que que teimo em não dar por concluído) estacionei em frente de um pequeno acampamento de ciganos e deparei-me com uma criança em cuecas, à beira da estrada, com um prato repleto de batatas cozidas equilibrado numa das mãos e um garfo na outra. Olhámo-nos por um instante. O garfo no ar, o prato com as batatas secas... e os olhos da criança fixados em mim. Não guardo muitos pormenores desse acampamento, nem do prato com as batatas cozidas, sequer do garfo espetado no ar (vazio) mas lembro-me perfeitamente da vulnerabilidade plantada no fundo dos olhos da criança, do seu olhar inferiorizado, que parecia questionar-me sobre se tencionava fazer-lhe mal.

Até esse instante e desde que me tornara adulta, vivia esquecida da minha infância, do abandono dos meus pais e das peripécias do orfanato por onde passei, e levava a pacatez de uma existência banal, apesar de que, para o meu temperamento de escritora, uma existência simples se transforme por vezes numa rotina insuportável, o que poderá ter-me levado a recusar qualquer profissão na área académica e criar uma empresa de prestação de serviços se limpeza. À primeira vista pode parecer um absurdo e... bem… talvez seja, mas quando os meus dias estagnam ao ponto de não conseguir corrigir um texto ou escrevinhar no blog, sempre posso substituir uma das empregadas da empresa e ir limpar a casa de alguém ou comparecer num serviço do hospital a quem também prestamos assistência. Em ambos os lados há pessoas cujas vidas consigo espreitar e cuja dor ou alegria me desperta a atenção, os sentidos, as emoções, e faz esquecer a minha fútil existência.

Guardo para mim o segredo de nem sempre resistir a roubar aqui e ali qualquer coisa de insignificante, seja uma esferográfica de plástico, uma colher de sobremesa ou uma pequena seringa, que trago para casa e fico a observar e a acariciar até a inspiração me libertar o espírito e me fazer escrever. Numa destas ocasiões, deparei-me, no hospital do Montijo, com o doente do quarto 12, cama 3.

Depois de terminar a limpeza do quarto, onde, naquela manhã, haviam mais dois doentes, cruzámos o olhar. Baixei o meu, enquanto ele manteve o seu, firme, com uma arrogância que só tolerei por saber que estava condenado a uma morte precoce. Quando levantei os olhos viu-o rodar ligeiramente a mão e fletir a ponta dos dedos contra na palma. Aproximei-me. Tentou chegar ao telemóvel sobre a mesa de cabeceira. Dei-lho e preparei-me para sair, pensando que era só isso que queria, mas deteve-me com um sinal. Ligou o ecrã e pesquisou algumas pastas. Finalmente virou o telemóvel para mim e mostrou-me uma imagem. Com algum espanto, vi-me sentada a uma mesa. Percebi que a foto tinha sido recortada e ajustada de modo a enquadrar apenas a minha figura e parcialmente uma outra, mais ao fundo, quase junto à porta das traseiras da Mimosa, que me olhava.

Pareceu-me reconhecer alguma coisa de familiar na fotografia, mas não me detive. Para além dos ajustes de enquadramento, a imagem havia sido trabalhada no brilho e no contraste, segundo, devo dizê-lo, uma estética profissional; porque não é fácil, garanto-vos, num ambiente de luz reduzida, obter-se uma fotografia tão boa de uma mulher africana.

Olhei-o com um misto de espanto, receio e indignação por ter ousado fotografar-me alguns dias antes (constatei-o pelo colar novo que usava na foto) enquanto tomava o pequeno almoço na pastelaria e veio-me à lembrança a expressão da criança cigana à berma da estrada, mas não percebi exatamente porquê.

O homem voltou a recolher o telemóvel e digitou algumas palavras numa página de texto:

«Necessito de lhe enviar o resto».

Havia mais?! Por que raio alguém que eu desconhecia, e por sinal doente ao ponto de já não conseguir falar, guardava fotografias minhas no seu telemóvel?

«Dê-me o seu mail» digitou.

Olhei-o e por um momento hesitei. Talvez devesse mandá-lo à merda, voltar-lhe as costas e sair, mas uma curiosidade, um direito próprio ou lá o que quer que fosse, fez-me ficar e tentar esclarecer o que é que queria de mim. Atabalhoadamente, recebi o telemóvel da sua mão, digitei o meu mail, devolvi o aparelho e fiquei parada, ostensivamente à espera, amedrontada como se segurasse um prato com batatas cozidas numa das mãos e um garfo na outra. Nesse instante uma equipa constituída por um médico e duas enfermeiras entraram no quarto e fizeram-me sair:

-- Então agente Marques? -- ouvi.

Às 17 e 30, já em casa, depois de fazer um latte macchiato, sentei-me na mesa da cozinha e enfrentei a minha banal existência, alguma solidão e a necessidade de inventar as mais absurdas justificações para fazer parte da galeria de imagens do telemóvel de um homem que estava a morrer no hospital, que era provavelmente um agente policial e se chamava Marques.

De repente voltei a sentir a ausência dos meus pais, a vida no orfanato e o funcionário pedófilo, de quem o meu irmão me salvara. Incomodada, levantei-me e levei o copo para a sala, onde liguei o portátil e naveguei pelo blog, embora não quisesse escrever qualquer post, sequer voltar a constatar, com tristeza, que o meu texto mais visitado continuava a ser “A mulher das mamas grandes”. Bebi o latte e bocejei.

Às 18 horas, ao sinal sonoro de nova mensagem abri o meu correio particular. Não reconheci o remetente, mas já sabia de quem se tratava. Cliquei num link que me levou ao portal de descargas de uma nuvem. Saquei o ficheiro. A descompressão do mesmo revelou-me uma pasta com imensas fotografias, organizadas segundo uma ordem cronológica. As mais recentes eram apenas minhas, mas à medida que ia recuando no tempo encontrei outras pessoas, segundo um padrão que não identifiquei antes que a evidência do homem que aparecia atrás de mim na fotografia da Mimosa se revelasse. O mesmo homem reaparecia em quase todas as outras! Primeiro fiquei apreensiva ao constatar que era ele e não eu, o alvo da atenção (ou investigação) do doente do quarto 12, cama 3. Depois de alertada, tornou-se-me possível reconhecer a familiaridade que lhe reconhecera na expressão dessa imagem como sendo a do pedófilo, que me importunara até ao momento em que o meu irmão o ameaçou, precisamente, com um garfo vazio. De repente, e de um modo absolutamente intuitivo, recuperei o olhar da criança cigana, recalcado do meu próprio olhar, quando o encarei temerosamente no infantário e o interroguei silenciosamente se me queria fazer mal.

Decidi que não iria voltar a recorrer ao meu irmão, que tinha regressado de uma missão, mal sucedida, no Afeganistão, e estava a restabelecer-se com a descoberta do filho recém-nascido.

«A Mimosa tem duas entradas» pensei. «E este homem vai continuar a perseguir-me». Corri à janela, espreitei, mas não o vi.

A partir daí redobrei a minha atenção. Encontrei-o algumas vezes, outras não tenho tanta certeza, e fui-me habituando à sua presença até ao dia quem que o voltei a ver na Mimosa.

Normalmente entro pela porta principal e sento-me numa mesa do fundo, mas hoje não. Não depois de o ver baixar repentinamente o rosto. Sentei-me logo à entrada, respirei fundo e pedi um abatanado com um croissant. Pousei a mala, fingi vasculhar o telemóvel e disparei algumas vezes o botão da fotografia na sua direção. Ampliei a imagem, recortei-a e olhei-o nos olhos como fizera em menina. Era ele! Alguns anos mais velho, mas era ele!

Segurei o croissant e mastiguei-o devagar. Coloquei a mala sobre a mesa, tirei o bisturi que roubara do hospital, pousei o croissant, levantei-me e percorri a sala com passo pequeno, mas desenvolto. Encostei a anca à mesa do pedófilo e esperei que levantasse a cabeça para lhe desferir um pequeno golpe na jugular e prosseguir, no mesmo passo, para a porta das traseiras. Atirei o bisturi para dentro do contentor do lixo, contornei o edifício à pressa e voltei a entrar pela porta da frente, para me sentar na mesma mesa, onde a mala permanecia aberta, à minha espera, convenci-da de que, mesmo que alguém me tivesse visto sair ou entrar, iria esquecer-me a seguir. Peguei na chávena com uma calma teatral e ouvi o primeiro grito. Não me perturbei: bebi o café e olhei em frente.

O meu perseguidor apertava inutilmente o pescoço com ambas as mãos, deixando escorrer por entre os dedos desesperados um grosso fio de sangue, que já inundava o tampo da sua mesa.

Quando me apercebi de que haviam duas pessoas de pé e outras três a correrem para a porta principal, levantei-me e olhei-o nos olhos. Foi um momento fantástico! Não senti medo nem raiva (já não era a menina de outrora) mas uma euforia gelada a percorrer-me o corpo, e só um tremendo autocontrolo me impediu de sair dali a correr e ir contar tudo ao meu irmão.

Agora estou mais calma, e decida a (pelo menos) voltar ao blog.