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Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir daqui

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17.Nov.18

Puta que o pariu!

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Pediu para desmarcar todas as consultas dessa tarde, menos uma. Questionou a rececionista, instruiu-a e, não satisfeito, pediu para verificar as marcações:

15:00 Sr. João Borges Cortez – desmarcado

16:00 Sra. Helena Maria Andrade – desmarcada

17:00 Sr. Fernando Castro Rosa - visita de cortesia

18:00 Sra. Paula Correia Mosca - desmarcado

Saiu do gabinete e passou pela receção para devolver a agenda. Sorriu para a rapariga, auscultou a porta de entrada e só depois de verificar que se encontravam completamente sós, tirou do bolso uma chave e abriu a outra porta, que delimitava a minúscula sala de espera, mas nunca doente algum tinha visto escancarada. Entrou e fechou-se; ligou a luz. Tratava-se de uma divisão mais apropriada a servir de arrecadação do que de arquivo, no entanto servia ambas as funções e já havia servido mais uma, a de dormitório, coisa que só quem se desse ao trabalho de tentar abrir as portas do falso armário, que mais não era do que a face inferior de um divã, quando desarmado, poderia descobrir. Ficou ali a olhar, primeiro para o divã, depois para o velho arquivo (já digitalizado, mas, por um qualquer sentimentalismo absurdo, ainda não destruído) ao lado os produtos de limpeza e, de novo, o divã. Já ali chorara. Já ali dormira, naquele divã que nada tinha de psiquiátrico, ou, pensando melhor, talvez tivesse mais de psiquiátrico do que qualquer um dos sofás da sua sala de consultas.

Percorreu as paredes em redor, o teto, o chão. Absorveu os cheiros dos detergentes e sentiu uma raiva fininha percorrer-lhe a espinha, acelerar-lhe o coração, mas a satisfazer-lhe o propósito. Era mesmo do que necessitava, aquela raiva. Desligou a luz e saiu. Anunciou para a rececionista com um sorriso esforçado:

– Hoje fecharemos mais cedo.

A rapariga devolveu-lhe o gesto, observou-lhe o cuidado com que fechava a porta à chave e seguiu-lhe os passos até desaparecer dentro do gabinete.

Lá dentro, o psiquiatra consultou o relógio com alguma ansiedade antes de espreitar pela janela. Chovia.

«Chove» pensou, «"Chove mansamente e sem parar, chove sem vontade, mas com uma infinita impaciência, como toda a vida, chove sobre a terra que é da mesma cor que o céu, entre verde suave e cinzento suave, e a linha do monte já há muito se apagou"». Nunca se havia escrito melhor abertura para um romance, estabeleceu mentalmente.

Quando identificou o Jaguar verde a descer a avenida, puxou as cortinas num gesto sobressaltado e manteve-se oculto. Um clássico saído de um sonho que lhe nasceu em criança e só o pode realizar há quatro anos, em segunda mão. Sorriu com amargura enquanto perseguia o carro até este dobrar o seu ângulo de visão, depois afastou-se da janela. Imobilizou-se atarantado no meio sala e foi sentar-se atrás da secretária, mas levantou-se quase no mesmo instante, para apertar o lábio superior entre o indicador e o polegar. Queria fazer qualquer coisa, mas não sabia o quê. Dali a pouco a rececionista iria anunciá-lo e ele entrar-lhe-ia pelo gabinete; não queria esperá-lo sentado à secretária, sentiu necessidade de encenar uma imagem, compor uma fotografia qualquer.

Procurou criteriosamente pela estante, indeciso, até se deparar com "Mazurka para dois mortos". Sorriu de satisfação. Bendito fosse Camilo José Cela! Procurou o início do romance e leu com avidez, como se o fizesse para restabelecer o próprio ritmo cardíaco:

"Chove mansamente e sem parar, chove sem vontade, mas com uma infinita impaciência..." e não foi capaz de parar de ler.

Já tinha devorado algumas páginas quando a rececionista bateu na porta, abriu-a, e anunciou:

– Chegou o Fernando Castro Rosa.

«Foda-se, parece mais novo!» constatou em silêncio, esquecendo o livro na mão.

O outro aproximou-se e cumprimentou-o como se se tratasse de um velho amigo.

Alvarez apontou-lhe delicadamente o sofá e marcou a página do livro dobrando o canto superior. Depois atirou-o com uma falsa displicência sobre a secretária.

Castro Rosa trazia vestido um casaco, o que provava que não tinha vindo a pé, muito embora, se estivesse mantendo a medicação, permanecesse inibido de conduzir; ela tinha vindo com ele! Acomodou-se informalmente sobre a secretária, mas evitou cruzar os braços para não parecer ostensivo.

– Pensei que não me quisesse receber – disse o Castro Rosa, abrindo o casaco e aconchegando-se ao velho sofá.

– Há coisas mais importantes na vida do que as nossas questões pessoais – disse o médico.

– Obrigado – agradeceu o recém-chegado e baixou o olhar. – Insisti para que me recebesse porque me sinto verdadeiramente mal.

«Ver-da-dei-ra-men-te» ecoou na cabeça do psiquiatra, como um advérbio desnecessário.

– Sente-se? – volveu.

Castro Rosa levantou a cabeça e observou-o com alguma desconfiança: – Sinto – estabeleceu.

– Perdoe-me – murmurou o doutor Alvarez. – Era espectável que tivesse melhorado, porque é isso que o amor traz às pessoas, felicidade. Se bem se recorda, sugeri-lhe algumas vezes que se apaixonasse...

– Mas não pela sua mulher... – observou o paciente.

– Sim, de facto – concordou Alvarez, esforçando-se por não acusar a observação do outro.

– De facto... – mimetizou Castro Rosa. – Diz isso sem rancor?

– Não importa aqui o rancor, importa a verdade dos factos – impôs o médico. «Ou como simplesmente diria Cela: "La puta verdad"» completou para si. – Há coisas mais importantes na vida do que as nossas questões pessoais – repetiu mais para si do que para o paciente, e este pareceu concordar. Pelo que, aproveitou para ir um pouco mais longe e inquirir: – Quer dizer que a vossa relação não está a correr bem?

Castro Rosa encolheu os ombros antes de responder:

– Com o tempo tudo se transforma em merda...

– Parece uma frase bíblica – observou o médico. – Mas não é. Biblicamente, o mais aproximado seria: "com o tempo tudo se transforma em pó". A sua frase deve ser de um cronista brasileiro ou coisa que o valha. «E eu não acredito nela!» acrescentou em segredo.

Castro Rosa ignorou, ou fingiu ignorar, o reparo.

– Preciso da sua ajuda – disse.

– Pensa que o posso ajudar a resolver a sua relação conjugal?

– Você parece-me algo rancoroso, apesar de o negar – atirou Castro Rosa. – Não sei se já conseguiu ultrapassar o facto de a sua ex. mulher viver agora comigo, de dormirmos juntos... de fazermos amor!

«E irem transformando tudo isso em merda...» pensou o médico.

– Venho por causa da minha depressão...

Alvarez deu meia volta à secretária e foi espreitar pela janela, mas não viu o Jaguar.

– Continua a chover – observou. – Você parou de tomar a medicação?

– Não.

– Sabe que não deve conduzir?

Castro Rosa olhou para o médico com um misto de raiva e desilusão.

– Claro que sei!

– É pena – volveu Alvarez afastando-se da janela. – O Jaguar é um belo automóvel e ela vai acabar por escavacá-lo pelos estacionamentos de todos os hipermercados.

– Isto não está a ser uma consulta como as outras – observou Castro Rosa.

– Por que razão me procurou? Por que razão não outro médico? Sabe que eu teria colaborado com qualquer colega.

– Porque você conhece-me melhor do que qualquer outro.

– Pois. Pois conheço – admitiu o doutor Alvarez.

– Mas se isso o incomoda tanto, por que aceitou a minha marcação? – volveu Castro Rosa.

– Porque você insistiu, apesar do nosso conflito pessoal!

– Há coisas mais importantes na vida do que as nossas questões pessoais... – imitou-o o paciente.

Alvarez sentou-se finalmente à secretária, escondendo o repúdio que sentia.

Olharam-se em silêncio, dir-se-ia, no sentido de estabelecerem tréguas.

– Persegue-me o medo de morrer – prosseguiu Castro Rosa.

– Medo de morrer?

– Sim. E receio não acabar bem. Receio, de um modo absurdo, reconheço, adoecer e arrastar-me até não puder mais, talvez, como todas as paixões da minha vida.

O psiquiatra tentou visualizar a imagem que o paciente lhe acabava de descrever, mas não conseguiu. E a culpa não era sua, pensou. A culpa era de Castro Rosa, por ser tão mau mentiroso!

– Nestes anos todos, em que o andámos a tratar do seu síndrome depressivo arrastado – disse. – Não me lembro de o ouvir expressar qualquer receio da morte. – Mostrou-se pensativo. – Por quê agora?

– Porque sinto que o fim do meu relacionamento com a sua ex. mulher está a deixar-me ainda mais doente – respondeu Castro Rosa, o que, para o doutor Alvarez era mais um erro.

Olhou para o seu antigo paciente e percebeu que o tinha apanhado, então, fechou os olhos e visualizou claramente o divã, depois o velho arquivo e, por fim, os produtos de limpeza da sala de arrecadação e arquivo que usara como quarto durante a sua separação. Respirou fundo e saboreou a raiva e a confirmação do que previamente antecipara e para o qual se havia preparado. Não tinha dúvida de que estava perante uma fraude cujo intuito seria extorquir-lhe qualquer coisa. Que coisa seria? Abriu os olhos e percorreu a sala, ignorando a presença do outro. Que quereria ela desta vez, a grande cabra? Já lhe tinha dado a casa, já lhe tinha dado o Jaguar... Por que é que vinha agora ameaçar tirar-lhe a carteira profissional? Que queria ela em troca? Coçou o pescoço, voltou a encarar Castro Rosa e decidiu não se arriscar mais:

– Não o posso ajudar – declarou. – Talvez devesse procurar a ajuda de um conselheiro matrimonial.

Castro Rosa sorriu sem vontade. Levantou-se a abotoou o casaco.

– Foi a pior consulta que alguma vez me fez! – declarou.

«Quererá o consultório?» interrogou-se o doutor Alvarez. Sentiria mais dificuldade em perder a arrecadação onde dormira algumas noites, do que perder a sala de consultas onde trabalhava há vários anos.

Castro Rosa saiu e bateu com a porta.

Ela devia estar estacionada junto do Mercado Municipal, ou talvez andasse por ali às voltas, calculou.

Olhou o telefone e esperou que tocasse.

– Sim! – atendeu.

– O senhor Castro Rosa insiste em pagar a consulta – disse a voz da rececionista.

– Diga-lhe que não recebo dinheiro por visitas de cortesia – respondeu a baixou o telefone.

Ela sabia que se recebesse, fosse o que fosse, de um doente com um conflito tão marcadamente pessoal quando o que tinha com Castro Rosa, arriscar-se-ia a ser expulso pela ordem dos médicos e a deixar de exercer, pelo menos temporariamente. Voltou a olhar para o telefone e esperou até o ouvir tocar.

– O senhor Castro Rosa insiste em pagar.

– Faça como combinámos: arrume as suas coisas, vá para casa e diga ao seu namorado que no mês que vem terá um aumento de salário.

– Mas ó doutor... – titubeou a rapariga.

– Respire fundo – ordenou o doutor Alvarez.

A rapariga respirou contra o microfone.

– Agora diga-lhe que o estou a mandar para a puta que o pariu – disse com toda a calma do mundo e ficou a ouvi-la repeti-lo, só depois voltou a abrir o livro na página marcada.