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Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir daqui

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02.Dez.18

"Pedro, o sapateiro"

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Susteve o olhar do paciente sem pestanejar e questionou-se sobre o que é que ele estaria à espera.

– Sinto-me com cara de parvo... – ouviu-o declarar.

– Por quê?

– Porque, na realidade – disse o homem sentado no lugar reservado aos pacientes. – Não estou doente. Nem sequer me sinto mal. Talvez nunca me tenha sentido tão bem em toda a vida.

– Se é assim – volveu o psiquiatra. – Por que razão marcou esta consulta.

– Por curiosidade. Embora hajam dias em que tenho a sensação de que toda a gente enlouqueceu à minha volta e sou a única pessoa sã – disse com um sorriso.

Alvarez também sorriu.

– Não é uma ideia agradável – confessou o homem.

– Você... – interrompeu o médico.

– Sou o dono de “Pedro, o sapateiro” – anunciou-se o paciente e baixou a cabeça com alguma timidez. – Penso que nunca consertei os seus sapatos, apenas os da sua mulher – e calou-se para se corrigir de imediato: – da sua ex-mulher.

Um pequeno silêncio varreu ruidosamente consultório. Estava sempre a acontecer, pensou Alvarez. E ia continuar até que ele voltasse a envolver-se com outra mulher e as pessoas decidissem esquercer a primeira. De repente pareceu-lhe que o homem estava à espera da sua reação, por isso decidiu encará-lo de um modo impenetrável, afinal, o médico, ali, era ele.

– Ela também estragava muitas malas... – declarou Pedro.

– Eu sei – confessou o psiquiatra, arrependendo-se em seguida: – Portanto – prosseguiu, como quem pensa em voz alta: – Veio por curiosidade.

– Sim. Sempre me interroguei sobre o que seria um consultório de doenças mentais, ou como decorreria uma consulta psiquiátrica.

– E que o que é lhe parece?

– Para já, parece-me que a sala é parecida com a minha – disse o paciente e olhou em volta para o confirmar.

Alvarez voltou a sorrir.

– Quer que lhe faça uma consulta?

– Já agora. Que tipo de perguntas costuma fazer?

– Faço as que os doentes me sugerem. Por exemplo, no seu caso, posso perguntar-lhe se me quer dizer alguma coisa mais.

– Quero. Há imenso tempo que lhe quero dizer algo…

– Diga-o.

– Vai achar estranho – avisou o paciente.

– Mesmo tendo em conta de que sou psiquiatra e também me formei em psicologia?

– Às vezes… – titubeou o paciente. – Às vezes via a sua mulher com o Rosa, o Castro Rosa. Precisamente na esplanada da Mimosa, enquanto provavelmente você estaria aqui a dar consultas. Sei que é uma estupidez dizer-lhe isto, sobretudo agora, que já não adianta nada, mas sempre senti que o devia ter feito na altura, compreende?

«Porra!» vociferou Alvarez sem o demonstrar. «Isto vai continuar por todo o sempre. Tenho mesmo que arranjar uma mulher!» Observou o homem à sua frente e concluiu que não era por maldade (bastava olhar para ele) era porque tinha que ser, porque as pessoas eram assim.

– Tenho um rádio com quase 100 anos pendurado do teto da oficina – disse o dono de “Pedro, o sapateiro”. – Não é muito velho, se tivermos em conta que a oficina vai fazer três séculos de existência.

– Eu sei – disse Alvarez. – É o estabelecimento mais antigo do Montijo.

– Provavelmente – concordou o paciente. – Pendurei o rádio porque, tal como o resto, fazia parte da  herança familiar. Durante muitos anos habituei-me a ouvir os noticiários, entre anúncios idiotas e músicas de entretém, até ao dia em que me apercebi, ao olhar para a esplanada da Mimosa, que a sua mulher o ia trair com o Rosa.

Era naqueles momentos que Alvarez mais desejava ter um gato, para o sentir no colo, passar-lhe a mão sobre o pelo e conseguir suportar os doentes. Haviam momentos, sobretudo desde o seu conturbado divórcio, em que um animal lhe fazia mais falta do que todas as mulheres do mundo!

– Nunca gostei do Castro Rosa – acrescentou o dono da oficina, como se viesse a propósito. – E naquele instante soava uma música particularmente estúpida de que não me lembro. Percebi o que se passava entre eles e, para não ter que sair e dar duas bofetadas no Rosa, desviei os olhos da porta, subi a um banco e mudei a sintonia do rádio. Nunca o tinha feito desde que o pendurara – sorriu. – É engraçado como a nossa vida pode mudar tão facilmente quanto a sintonia de um rádio!

Alvarez sentiu-se aliviado com o novo rumo da conversa. Afastou o gato imaginário do colo e escrevinhou no seu bloco, enquanto o sapateiro lhe observava os gestos com viva curiosidade.

– Nunca tinha ouvido música clássica! – declarou como se quisesse aproveitar a oportunidade para deixar registado. – Conhecia algumas melodias mais emblemáticas, mas nunca sequer as tinha ouvido com grande atenção. Pois bem, estava a tocar Liszt e decidi ouvi-lo até ao fim. Foi uma revelação, uma epifania, esse instante. «Khatia Buniatishvili» informou depois o locutor com uma voz sonolenta, mas perfeitamente colocada. Então, tudo mudou para mim e nada ficou como antes. Para mim e para o Rosa, que se embrulhou nessa tarde com a sua mulher... pelo menos foi o que me disseram.

Procurou os olhos do médico antes de prosseguir:

– Repare, não sou contra o facto do Rosa se ter envolvido com ela, sou contra o facto de ele o ter feito sem qualquer descrição, sem qualquer respeito por ninguém. Especialmente por si.

A expressão impassível do doutor Alvarez escondeu-lhe a frustração de não ter ainda encontrado uma nova mulher que pusesse fim àquele falatório da traição da sua ex. Se o divórcio não lhe havia sido fácil, por causa do rol de acusações absurdas de que ela se lembrou de fazer, o após divórcio não se lhe mostrava menos difícil. Temia que as pessoas o interiorizassem como vítima e que isso pudesse diminuir a sua reputação profissional. Mais do que as estúpidas acusações da mulher, temia perder os doentes que lhe restavam.

– Eu mesmo – continuou o dono de “Pedro, o sapateiro” – sempre tive os meus devaneios (alguns de que não me orgulho nada!) mas nunca faltei ao respeito com quem quer que fosse! Sempre soube ser discreto.

Calou-se e olhou o médico à procura de aprovação, porém, Alvarez manteve-se imperturbável.

– Mas já ultrapassei tudo isso – continuou. – Já não cedo à tentação com a mesma facilidade; não compensa. Na verdade, nunca compensou – sorriu com tristeza. – Hoje fico-me pela fantasia, e nas minhas fantasias não procuro sequer as clientes nem as mulheres da vizinhança, por mais atrativas que sejam. Fantasio com atrizes, atletas olímpicas ou mesmo pianistas (tenho o meu rádio sintonizado na "Antena 2") – concluiu antes de encolher os ombros.

– E o seu casamento? – quis saber Alvarez.

– Tornou-se mais estável – garantiu o homem. – Não sei se alguma vez a minha mulher me traiu (se o fez agradeço-lhe a discrição!). A fidelidade no matrimónio é uma lotaria (e recusarmos os poucos prémios que nos saem é um exercício de verdadeira castração) de qualquer modo, os meus prémios sempre se revelaram fraudulentos. Talvez por isso, até há pouco, a minha fantasia mais recorrente fosse a Khatia Buniatishvili, a lindíssima pianista georgiana que ouvi naquele dia. Gosto dos seus olhos, da sua boca, da sua expressão facial e do modo como revela todo o corpo enquanto toca. Claro que agora também ouço Liszt.

– Já não fantasia com as mulheres que o rodeiam, prefere as mais inacessíveis?

– Sim e talvez isso tenha salvo o meu casamento. Se já não vou “comer” nenhuma outra para além da minha, então posso escolhê-las com mais critério e não apenas pelo formato do cu ou pelo tamanho das mamas. Hoje, posso dizê-lo, prefiro as mulheres talentosas!

O doutor Alvarez registou algo no bloco enquanto murmurava: – Trocou todas as outras mulheres pela Khatia Buni…

– Buniatishvili – completou o paciente. – Não!

– Não? – volveu Alvarez.

– Não. Porque recentemente ela veio a Portugal e eu, que já conhecia todos os seus vídeos do Youtube, decidi ir vê-la e ouvi-la. Foi inesquecível! Ela é linda, é expressiva, é uma mulher talentosa! E… tocou Liszt. A sala estava cheia, mas foi como se o tivesse feito apenas para mim. Creio que ninguém conhece melhor aquela música do que eu, pelo menos a sua interpretação daquela música. Aquele pode bem ter sido o momento mais erótico da a minha vida! – Alvarez voltou a escrevinhar no bloco, em silêncio. – Secundarizou todas as traições que cometi. Se a tivesse ouvido antes talvez nunca chegasse a trair ninguém – acrescentou muito depressa, para que constasse na observação do médico.

– Mas, disse-me, já não fantasia com essa pianista? – volveu Alvarez.

– Não. Depois de me encontrar com ela isso deixou de fazer sentido. Um pouco como todas as ligações que tive antes da minha mulher.

– E voltou a fantasiar sobre as mulheres que o rodeiam?

– Nãããão. Hoje, para mim, as mulheres são como a boa música, depois de identificarmos o verdadeiro talento tudo o resto nos parece fraude. Permaneço fiel à minha – disse o dono de “Pedro, o sapateiro”, e respirou fundo. Parecia aliviado.

– Creio que vou ficar por aqui – anunciou.

– Como quiser – anuiu o doutor Alvarez.

– Quando acha que devo voltar?

– Quando sentir necessidade – respondeu o psiquiatra. – Tal como me disse, você nem sequer está doente.

O homem levantou-se e estendeu a mão, satisfeito. Depois, paraceu lembar-se de qualquer coisa e sugeriu:

– Devia experimentar ouvir Hilary Hahn, sobretudo no concerto para dois violinos de Bach.

Alvarez compôs um sorriso de simpática negação até o homem sair, após o que sublinhou com a esferográfica o nome de Khatia Buniatishvili no seu bloco de consultas e decidiu começar por ouvi-la, agora que se encontrava livre do sapateiro.

Nota: neste texto, os únicos personagens verdadeiros são os artistas mencionados, todos os outros são mentira e pura ficção, bem como as suas palavras. "Pedro, o sapateiro" é uma adorável e prestigiada oficina montinjense, de sapatos e não só, fundada no século XVIII e tem mesmo um belíssimo rádio pendurado no teto. Não conheço o seu dono e espero que ele não me leve a mal tê-lo "ficcionado".