Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir daqui

Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir daqui

01.Jan.18

O segredo do latte macchiato (A celebração de Markino - parte II)

O segredo de um bom latte macchiato está na consistência que damos ao café e ao leite; claro que ambos têm que ser de boa qualidade. Aqui o café é bom, mas não posso beber um latte macchiato, não me atrevo a sugerir que me vaporizem o leite e lhe misturem o café segundo as minhas indicações, por isso limito-me a pedir:

― Meia-de-leite, se faz favor.

― Mais alguma coisa?

― Não. Estou à espera de duas pessoas...

Espero o meu irmão e a minha amiga Adélia, mas receio que se detestem ou, o que não seria melhor, ignorem-se. De qualquer modo, necessito que ela esteja presente quando o voltar a encontrar.

Olho para a porta da pastelaria e, para minha surpresa, vejo-os cruzarem-se. Ela traz a bebé no colo e ele dá-lhe passagem, naturalmente. Olham-se.

Adélia é branca, tem uma filha mestiça e nós somos pretos, mas não é por isso que a quero presente neste reencontro com o meu irmão. É por mim e, sobretudo, por ele. Já lhe dei tudo o que podia e se calhar mais do que devia; certamente mais do que uma irmã de sangue estaria disposta.

Regressou doente, alheio a tudo, com o olhar mais fixo e calmo do que quando apertou os testículos do pedófilo que nos perseguia em crianças.

Na sua primeira visita à minha casa, semanas depois de regressar do Afeganistão, entrou calado e cheio de medo. Nunca o vi com tanto medo, ele que quando se assusta aparenta uma calma terrível. Sentou-se na cozinha e eu ofereci-lhe um latte macchiato. Andava a telefonar-lhe todos os dias e estava preocupada com ele, não sabia o que fazer e, por isso, não evitei as lágrimas que me inundaram os olhos. Estupidamente, expliquei-lhe como era importante fazer primeiro um bom café, depois funguei e respirei fundo. Em seguida mostrei-lhe o ponto exato da vaporização do leite e deixei que as lágrimas me escorressem pela cara, para quê esconder-lhas? Coloquei o copo sobre a mesa, debaixo dos seus os olhos e, sem mais nada para dar-lhe, sentei-me no seu colo, a tremer. Ele só me tem a mim.

Nunca vi Adélia tremer. Adélia é forte. Surfou até adoecer; talvez já tenha voltado a surfar.

Um dia, quando uma das minhas funcionárias faltou, coube-me substituí-la no seu serviço, no hospital, e fiquei a conhecer Adélia. Limpei-lhe o quarto e observei-a sob o balão da quimioterapia, pendurado no suporte, gotejando lentamente para a veia do seu braço.

Cedi à minha curiosidade de escritora e voltei lá, por ela, fascinada pela sua persistência, pelo seu equilíbrio emocional, pela sua resistência à adversidade dos vómitos, da queda do cabelo e do declínio da condição física; mas só chegámos à fala no dia em que a ouvi anunciar, ao empalidecido namorado, que estava grávida de um filho que não era dele. Assim, à minha frente, como se se dirigisse também a mim. Há algo no modo como nasceu a nossa amizade que me faz lembrar o dia em que conheci o meu irmão.

Ainda não faço ideia do que foi a sua vida antes de o conhecer. Sei que nasceu num campo de refugiados e que mãe lhe garantiu que o progenitor era alto e chamava-se Markino, também ele refugiado. Contou-lhe que foi concebido numa madrugada de céu estrelado e vozes de animais ao longe, e isso, talvez à falta de melhor, parece orgulhar o meu irmão. A acreditar na sua certidão de nascimento, a mãe chamava-se Diara.

Um dia anunciou-me que ia fazer uma missão no Afeganistão:

― Porra, logo no Afeganistão! ― lamentei. ― Quando metes uma coisa na cabeça…!

Perdeu a mãe no Ruanda, durante um ataque terrorista que dizimou toda a aldeia onde viviam (depois de deixarem o campo) e foi levado como prisioneiro. Devia ser muito jovem, já que quando o conheci era ainda criança. Viveu dois anos com os terroristas, até participar com eles num ataque a uma outra aldeia e serem dizimados por forças governamentais. Foi depois encontrado inconsciente, por um médico missionário da cruz vermelha, que o tratou, contra a vontade dos militares. Não sei o que o médico viu nele. Um branco, nascido de uma família do norte de Portugal, mas que viajava frequentemente para África em missões de humanidade. Depois de subornar os serviços locais, o missionário adotou-o e trouxe-o para Lisboa, bem como a infeção pulmonar atípica de que morreu pouco depois.

Mal falava português quando o pai adotivo o deixou, por isso não estranho que, da sua nova família (com a qual não tem qualquer contacto) ninguém quisesse ficar com custódia da sua educação, para mais, ele sempre foi uma criança maior do que a própria idade. Acabou nos serviços sociais.

Eu tive mais sorte. Vim de Angola com os meus pais, antes de me deixarem na instituição e emigrarem temporariamente para os Estados Unidos. Creio que a minha mãe era uma mulher bonita, do meu pai não me lembro, mas isso também já não importa; o segredo de uma mente equilibrada está na consistência que damos aos nossos instintos e os meus são de boa qualidade. Sobrevivi, portanto. E com alguma sorte sobrevivi intacta, apesar de um dos funcionários da instituição ter uma especial predileção por mim, insistindo em me esfregar as coxas, as nádegas e (naquela altura) as minhas incipientes mamas, até ao dia em que um miúdo alto e magro, com fama de introvertido e violento, me viu fugir e se tornou meu amigo. Não sei onde aprendeu aqueles conhecimentos anatómicos (talvez nos dois anos que passou com os seus algozes nas florestas do Ruanda) mas poucos dias depois, o meu novo amigo enfiou a mão na braguilha do doentio funcionário e torceu-lhe os testículos até o fazer ajoelhar-se, depois encostou-lhe os dentes do garfo da sobremesa à veia jugular, com uma calma que até a mim me assustou e murmurou-lhe, num português lento e difícil, para não voltar a importunar-me. Foi nesse instante que nos tornámos irmãos.

Ensinei-o a falar corretamente português e ajudei-o a estudar até se formar. Se não contribuiu muito para a minha Licenciatura em Estudos Portugueses, a verdade é que a sua constante presença na minha vida e, também, tudo o que me ocultou sobre a sua, permitiu-me desenvolver a imaginação de modo a tornar-me escritora. Nunca trabalhámos no âmbito da nossa formação, já que depois do curso, ele voluntariou-se para cumprir o serviço militar e eu, que já dirigia a minha empresa de prestação de serviços de limpeza, publicara um romance (guardo outros três na estante, todos escritos sob o pseudónimo de j.campião. Sim o meu alter ego é masculino!). Se pudesse ter escolhido, teria nascido homem, como o meu irmão, mas nunca me voluntariaria para qualquer serviço militar, e nunca, mas nunca, faria uma comissão numa zona de guerra, mesmo que tivesse sido tocado pelo demónio nas florestas do Ruanda.

Sendo estes os traços gerais da nossa biografia, compreendo que se recuse a contar-me mais pormenores da sua, mas como irmã, não posso deixar de me preocupar se o recebo com o olhar alucinado de quem partiu para exorcizar um demónio e regressa possuído por dois.

― Que raio é que foste fazer ao Afeganistão?! ― gemi-lhe na cama.

Não lhe conheço namorada, nunca lhe sobreviveram mais do que duas ou três semanas, por isso temi que depois de termos dormido, desesperadamente juntos, nunca mais me quisesse ver. E, na verdade, não o vejo desde então. Acho que me foge, não sei porquê, ainda o sinto como irmão, apenas como irmão!

Tenho ficado à sua espera, vagueando pela casa, perto da minha máquina de café, um capricho que custou demasiado dinheiro, mas que me permite fazer um latte macchiato perfeito; talvez a única coisa perfeita que conheço nesta vida. Telefonou-me hoje, depois de eu saber que Adélia estava no Montijo e lhe ter pedido para vir mostrar-me a menina.

Vejo-os agora a olharem-se como se já se tivessem encontrado antes... oh, a miúda está enorme… e eles ainda ali parados!

5 comentários

Comentar post