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Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir daqui

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04.Nov.18

O sangue

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– Nunca soube o que era o medo…

O doutor Alvarez registou a primeira frase da consulta no bloco de notas. «Já lá iremos» pensou para si mesmo, fingindo ignorar a declaração do paciente. As suas consultas de psicologia não obedeciam exatamente ao padrão da protocolada abordagem cientifica, sobretudo depois de ter sentido necessidade de se complementar com uma segunda formação, em psiquiatria, quando concluiu que conseguir explicar qualquer tipo de acontecimento nefasto lhe pareceu pouco; tinha que fazer alguma coisa para o evitar.

O paciente olhou para as mãos e esfregou os dedos uns nos outros como se os estivesse a lavar sob uma torneira imaginária.

– Por que razão abandonou a tauromaquia? – tergiversou o analista.

– Por causa da idade… – respondeu Paulo Marques e acrescentou em tom de desculpa: – Hoje em dia um toiro médio pesa entre 500 a 600 quilos! – Depois pareceu aperceber-se de que estava a ser observado e cerrou os punhos.

– Podia ter permanecido como cabo – adiantou o médico com pouca convicção. – Não é que eu perceba muito disso...

«Na verdade, era o que o grupo esperava de mim» admitiu o paciente em silêncio. E suspeitava mesmo que o jantar da sua aposentação tivesse servido mais como pressão emocional nesse sentido do que de despedida solene. Foi lá que a conheceu, nesse jantar, e pouco depois, tudo o que pensava estar a deixar para trás voltou a persegui-lo da pior maneira.

– Sim. Podia, mas não quis! – respondeu com uma firmeza algo exagerada.

– E por que é que não quis?

O antigo forcado respirou fundo, sacudiu os ombros, preparou-se para falar, mas não foi capaz.

– Por favor – insistiu o doutor Alvarez. – Por que razão não quis permanecer ligado à tauromaquia?

– Não sei… – defendeu-se o outro, como se procurasse evitar qualquer tipo de comprometimento e fugiu com os olhos em redor.

O consultório do doutor Alvarez situava-se no primeiro andar de um edifício de habitação (na avenida que desce do Parque do Montijo para a baixa) e estava decorado como se fosse isso mesmo, um andar onde viviam pessoas comuns. À entrada, um hall servia de minúscula sala de espera, com uma pequena secretária, um telefone, um computador e uma rapariga sem bata ou qualquer tipo de indumentária que a identificasse como rececionista. Havia duas portas, uma que os doentes encontraram sempre fechada e outra que abria para aquela divisão onde se encontrava agora e à qual não faltava sequer a televisão para parecer uma sala de estar de uma família comum.

Paulo Marques observou os sofás, o pequeno aparelho de música, a enorme estante (razoavelmente preenchida por romances clássicos) e interrogou-se se o psiquiatra alguma vez ali dormira enquanto decorrera o seu divórcio, depois de ter encontrado a mulher deitada com um paciente. Tal como a sala do consultório, o doutor Alvarez parecia-lhe um homem simples e igual a tantos outros, isso mesmo impelia-o a ser mais honesto, se não consigo mesmo, pelo menos para com ele:

– Por causa do sangue. Foi por causa do sangue e não pelos 500 ou 600 quilos dos toiros... – confessou. – O cheiro do sangue quando os abraçava sobre a sua respiração ofegante, húmida... – Olharam-se nos olhos por um longo momento e só depois Paulo Marques prosseguiu: – Os toiros nunca me odiaram e eu não odiei os toiros. Limitámo-nos a ficar frente a frente e a cumprirmos o nosso papel, umas vezes melhor, outras pior. Sempre que nos encontrávamos dentro de uma arena, não nos evitávamos, era isso que as pessoas esperavam de nós – desculpou-se.

– Tinha medo? – volveu o médico.

– Dos toiros? Não mais do que o razoável. O medo maior era deles; que me lembre nunca perdi a coragem na arena.

O doutor Alvarez rabiscou no bloco de notas antes de voltar a perguntar:

– E o sangue? – recuou. – Quando é que o cheiro do sangue o começou a perturbar?

– Desde sempre – respondeu o ex. forcado. – Mas foi piorando! – pareceu lembrar-se.

– Alguma vez sentiu pena dos toiros?

– Sempre – Disse, e justificou: – Mas a vida é como é.

– E pena de si? – insistiu o médico.

– De mim? Por quê de mim? Só dos toiros! – Escolheu as palavras e depois prosseguiu: – Era-me difícil não sentir a sua tristeza quando os agarrava, os cheirava e sentia a respiração tensa sob o absurdo de submeter a sua assombrosa força muscular à pressão frágil dos meus braços; um absurdo que só o medo irracional deles pode explicar…

Calou-se, pareceu interrogar-se sobre si mesmo e, de repente, prosseguiu à pressa, como quem foge para a frente:

– A partir de certa altura comecei a promover maior contacto físico com os toiros e a deixar-me ficar em cima deles, a demorar-me mais em cada pega, a segurá-los, a acariciar-lhes o pescoço e a sentir-lhes as veias e as artérias palpitarem sob as minhas mãos, enquanto se sacudiam com repetidos derrotes.

– Portanto, nunca antes soube o que era o medo – recuperou o doutor Alvarez.

– Antes de quê?

– De se tornar forcado – explicitou o médico.

– Estou a falar de outro medo, não do medo racional e razoável de qualquer pessoa.

Olharam-se de novo.

– Era-me agoniante, quando os apertava, cheirar-lhes o sangue e esse medo, ao mesmo tempo que sentia, entre as pernas, a sua respiração ansiosa…

– Mantém algum relacionamento amoroso? – lembrou-se o doutor Alvarez.

– O que é que pretende saber? – Paulo Marques parecia incomodado com a falta de oportunidade da pergunta, talvez porque, precisamente, a sua memória acabasse de lhe evocar Aurora.

– Pretendo saber se o medo o impede de se relacionar afetivamente ou se as mulheres o conseguem compensar dele.

Paulo Marques procurou os olhos do médico com perplexidade. Conheciam-se há alguns anos, não como amigos, nem como médico e paciente, mas como forcado e aficionado. Depois subiu o olhar, contrariado, e encontrou algures na parede um novo ponto de introspeção:

– Conheço, de há pouco tempo, uma mulher negra sensível inteligente... – enumerou demasiado rápido e deteve-se ainda mais depressa.

O doutor Alvarez escrevinhou qualquer coisa mais e perguntou:

– Ama-la?

– Não sei… – respondeu Paulo Marques, como paciente, e ficou a ponderar sobre a veracidade da sua resposta, como psicólogo – Que sabemos nós sobre o amor? – Olhou para o médico e admitiu que seria melhor não emendar a resposta.

 «Ele tem razão» considerou secretamente o doutor Alvarez e lembrou-se do seu casamento, da ex. mulher, do ex. paciente e da sua depressão após o divorcio. «Que raio sabemos nós sobre o amor? O pior é que quando verificamos que nada sabemos sobre o amor, começamos a colocar tudo em causa, desde a psicologia, com a qual eu fui capaz de explicar a traição “daquela cabra”, até ao sentido da minha vida, que só com a ajuda dos antidepressivos voltei a recuperar. A tardia formação em psiquiatria não foi mais do que um despertar, uma consequência do meu divórcio ou, o meu modo de o solucionar?».

– …Por favor – disse. – Não se sinta embaraçado, já resolvi o meu problema. Vamos tentar resolver o seu.

Paulo Marques anuiu com um gesto da cabeça.

– Voltemos, então – propôs o médico. – Sente que, de algum modo, pode estar a apaixonar-se por essa mulher?

– É-me cada vez mais difícil afastá-la do pensamento, se é isso que quer saber – respondeu Paulo Marques e calou-se.

– Por favor, fale-me dela.

– Que quer que lhe diga?

– O que lhe vier à cabeça – estabeleceu o doutor Alvarez.

– Não sei se está preparado – ironizou o antigo forcado.

«A ironia» considerou o médico, escrevinhando algo no bloco «tanto pode ser um sinal de inteligência quanto de sobrevivência».

– Estou preparado para quase tudo – garantiu com um sorriso pouco expressivo.

– Ela pede-me que a abrace – prosseguiu o paciente.

– E você, o que faz?

– Abraço-a, claro!

– Isso incomoda-o?

Paulo Marques sacudiu a cabeça lenta e afirmativamente.

«Temos mesmo que a enfrentar!» desculpou-se o doutor Alvarez contra a dificuldade do paciente.

– Que mais sente quando está com ela? – perguntou.

– Bem-estar e… prazer. Um prazer imenso!

– Definiria essa mulher como uma pessoa alegre ou triste?

– Não estou a perceber onde quer chegar – observou com secura.

O médico não reagiu.

– Creio que tem um lado triste, pressinto-lho, embora nunca o tivesse presenciado. O que desconheço dela assusta-me, se quer que lhe diga – completou Paulo Marques. – Embora nunca conheçamos “tudo” de uma pessoa, pois não?

«Não» respondeu o médico sem abrir a boca. «E ainda bem, há coisas que prefiro não saber!».

– Perturba-o abraçar qualquer outra pessoa ou é só ela?

– Não é nada disso! – reagiu o paciente com irritação. – Você não está a entender!

– Perturba-o abraçá-la? – insistiu o doutor Alvarez.

Paulo Marques amuou e decidiu não responder.

– Está bem, esqueça – volveu o médico sem qualquer honestidade: – Diga-me, antes, porque razão ela não o faz esquecer o sangue, a respiração ofegante, as veias do pescoço, o medo e tristeza de todos os toiros que você abraçou ao longo da carreira.

Paulo Marques olhou os olhos do doutor Alvarez com uma expressão de temor, como se de repente se encontrassem numa arena e não se pudessem evitar; mas não era dele que receava.

– Ela pede-me – murmurou. – Tentou prosseguir, mas acabou por voltar a lavar imaginariamente os dedos.

– Ela pede-lhe... – persistiu o doutor Alvarez com delicadeza.

– …que a agarre do mesmo modo e com a mesma força com que me agarrava aos toiros! – soltou Paulo Marques.

– Ah – fez o psiquiatra. – Ela pede-lhe isso – e pareceu meditar sobre a questão.

– E nunca se queixa, como se, por mais que a aperte, por mais força que faça (e ao contrário dos toiros) não a consiga domar nem lhe sinta qualquer tipo de medo.

– Talvez isso signifique que necessita da força dos seus braços, da segurança das suas mãos, da pressão dos seus dedos – propôs o psiquiatra.

– Podia ser, e foi o que acreditei, até ao momento em que a vi nas fotografias, que depois circularam nas redes sociais…

– Que fotografias? – perguntou o médico.

– As de quando foi atacada pelo agente da judiciária, junto ao rio.

O doutor Alvarez fez um esgar de surpresa:

– Está a referir-se à Aurora?

– Estou.

– Aurora, a escritora? A do blog “Aqui no Montijo”?

O ex. forcado concedeu em silêncio e depois devolveu:

– Conhece-la?

– Já nos cruzámos – admitiu o doutor Alvarez.

– ...coberta de sangue – insistiu Paulo Marques, referindo-se às fotografias. – O rosto, o peito, as pernas… E eu tive-a nos braços, apertei-a, cheirei-a, tateei-lhe as veias e senti a sua respiração ansiosa entre as minhas pernas… e isso amedronta-me.

O doutor Alvarez estava habituado aos longos silêncios dos seus pacientes, mas desta vez, a sua formação psiquiátrica não se conteve:

– Sabe onde ela está?

– Em viagem – recompôs-se o antigo forcado.

– E encontra-se bem? – perguntou o médico, procurando esconder a preocupação.

– É o que me garante pelo telefone.

– Que mais lhe diz ela?

– Que sentiu necessidade de se afastar de mim, do Montijo…

Ao fim de um novo vazio entre ambos, em que cada um parecia querer forçar o outro a falar, o ex. forcado cedeu à pressão do médico: – Diz que vai voltar, que tem saudades da minha força, dos meus braços, das minhas mãos, dos meus dedos...

– Isso não parece o deixá-lo muito à vontade… – observou o médico. E a verdade é que a si também não.

– Nunca soube o que era ter medo dos toiros – voltou Paulo Marques a garantir, como se isso fosse um dado importante. – Tivessem eles 500 ou 600 quilos, mas vê-la a olhar para a câmara, coberta com todo aquele sangue…

O doutor Alvarez piscou os olhos lentamente, também ele tinha visto aquele olhar, nas mesmas fotografias.

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