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Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir daqui

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02.Out.18

O doente do Quarto 12, cama 3 - V

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A mão do polícia aperta-me o braço garantindo que não me afastarei. Os dedos pressionam-me os músculos e magoam-me, mas não me queixo, nem afasto os olhos da enorme poça de sangue que nos parece perseguir. Obriga-me a recuar um passo, de modo a manter-me colada a si, mas com os pés em chão seco.

Que horas serão? Interrogo-me com os olhos feridos pela intensa luz do sol. A manhã parece-me muito distante, como se a tivesse começado há muitos dias e não hoje, depois de tomar banho e ter feito um capuccino com todo o rigor estético, momento em que liguei o portátil e vi a mensagem. Aproximei os olhos muito devagar e constatei a razão do meu receio: vinha do mesmo remetente que me enviara a pasta de imagens que guardei no disco rígido, o doente do quarto 12, cama 3.

Tinha sido ouvida por duas vezes, ambas na qualidade de testemunha, devido à proximidade física e temporal com as mortes do pedófilo (na pastelaria Mimosa) e do fadista (ainda que este tenha acabado por desfalecer na autoestrada, a caminho do Hospital do Barreiro, como eu lhe sugerira). Durante os interrogatórios não me cruzei com o doente do Hospital do Montijo, mas o meu sexto sentido dizia-me que não seria alheio às minhas convocatórias.

Observo, agora, o seu corpo inanimado. A ausência do lenço que pouco antes lhe tapava o pescoço e escondia a prótese põe à vista um grotesco buraco por onde escorre um fio de sangue.

― Descansa em paz ― murmuro sem que, na confusão (cada vez mais ruidosa das pessoas) que cresce à nossa volta, o polícia consiga decifrar as minhas palavras. Puxa-me de novo. Quando a ambulância chega, o seu colega grita para que as pessoas se afastem.

Há algum tempo que venho a perder peso e a tornar-me temperamental, o que, associado ao facto de ter cortado o cabelo muito curto, sempre que me olho nos espelhos de casa, nos reflexos das montras das ruas ou na silhueta das minhas sombras sobre os passeios, provoca-me uma sensação de presença estranha, como se estivesse a ser perseguida por mim mesma.

Relembro o piropo do homem e sorrio. Depois aconchego-me dramaticamente ao polícia, que está a irritar-me pela força exagerada com que me aperta o braço! Sinto-me fraquejar.

― Já a tiro daqui! ― ouço-o.

Não me larga desde que falou ao telefone, calculo que, com o mesmo agente que me interrogou na judiciária de Lisboa. De ambos os interrogatórios saí em liberdade e sem qualquer noção de animosidade ou, sequer, desconfiança por parte do agente. No entanto, consciente de ter sido referenciada em dois homicídios e temendo que, por qualquer capricho da competência angolana, pudesse ser relacionada com o desaparecimento do caçador furtivo australiano na floresta do Maiombe.

Quando percebi que as duas linhas da mensagem não eram mais do que uma proposta de encontro, baixei o ecrã e reabri a primeira mensagem, no telemóvel, ainda não muito consciente do que estava a preparar, em seguida voltei a abrir a segunda mensagem e, intencionalmente, não a fechei. Finalmente, despejei o capuccino no lava-loiça e preparei-me para o encontro, disposta a tudo.

Nos últimos dias andava a sentir um crescente desconforto que contrariava a habituação à minha nova imagem e insistia na sensação de presença estranha, o que me despertou para a possibilidade de poder estar a ser vigiada. Depressa cheguei à paranoia e comecei a desconfiar de tudo e de todos. Na última semana adquiri uma maior agilidade física e gestos impetuosos (muito úteis para as aulas de Krav Maga) mas voltei a perder peso. Até então nunca havia reparado no meu pescoço longo e fino, em perfeita harmonia com a silhueta.

Após algumas manobras (evidentemente mal sucedidas) os médicos do INEM declaram o óbito no local e tapam o corpo inerte com um lençol de polietileno tereftalato. A pressão dos dedos do polícia no meu tríceps, se bem que compreensível, é-me cada vez menos suportável. Olha para o chão e faz uma careta porque estamos de novo com os pés dentro da poça de sangue. Sinto uma tontura e volto a aconchegar-me a si, que se defende; já lhe sujei a camisa de sangue. Incomodado, o polícia empurra-me, observa-me a camisola e as calças (ambas ensopadas em sangue) e creio que tenta imaginar o que se passou momentos antes, entre mim e o homem agora coberto com o lençol de plástico e alumínio. Olho em redor e sinto que a atmosfera esfriou, apesar da excitação das pessoas e do sol impiedoso sobre as nossas cabeças.

Esperneara. O homem esperneara no momento de morrer, como se me quisesse provar que não há qualquer dignidade na morte, nem mesmo quando se morre com um buraco na garganta e um bisturi espetado na artéria aorta.

Quando cheguei à Mimosa já ele lá estava, sentado à mesa onde o pedófilo morrera, indiciando a sua intenção. Sorriu-me. Depois colocou o indicador sobre o lenço que trazia ao pescoço, tapou o buraco e justificou-se com uma voz metálica: ― Esperei por si.

Pedimos um croissant para cada um, o meu com doce de ovo, o dele com queijo e fiambre. Para mim um abatanado pingado, para ele um galão direto.

― Já ninguém pede galões… ― lamentou.

Concordei, mas... ― É sobre isso que me quer falar?

Respondeu-me negativamente e retirou com cuidado uma pequena dentada ao croissant. Respeitei a sua dificuldade em engolir e respirar ao mesmo tempo e abstive-me de o forçar ao diálogo, pelo que, comemos em silêncio. No fim pousou os olhos nos meus, colocou o indicador sobre o lenço e murmurou tentando dissimular a timidez:

― Fica-lhe bem o cabelo curto.

Estupidamente, não lhe agradeci a cortesia, agora lamento-o.

― Está mais magra?

― Perdi quase cinco quilos..

Ele sacudiu a cabeça, em concordância, e decidiu-se a revelar a razão do nosso encontro:

― Sinto-me responsável.

Avaliei-o e concluí que estava a ser sincero.

― O meu intuito era alertá-la para o facto de estar a ser perseguida por um homem… perigoso. ― Olhou-me. ― Questionei-me várias vezes sobre a razão de você ser uma mulher adulta e ao mesmo tempo merecer a atenção de um pedófilo; só o compreendi quando me informaram da morte dele: você foi acolhida num orfanato em criança.

 ― O mesmo orfanato em que ele molestava outras crianças! – completei sem necessidade.

― Também a molestou?

Não lhe respondi.

― Sim… isso agora não importa. Ele morreu e provavelmente teve o que merecia. Mas você não ficou por aí e é por isso que me sinto responsável, por a ter feito despertar o seu lado mau. Um lado que todos temos escondido e que só alguns ousam revelar.

Acariciei o meu cabelo curto, hábito que vinha a adquirir e parecia apaziguar-me os nervos. Gostava de sentir os caracóis duros e ao mesmo tempo sedosos; gostava de percorrer a forma da cabeça; a carícia dos dedos lembrava-me as mãos fibrosas da minha mãe. O engraçado é que não sei se apenas as imagino ou se as recordo verdadeiramente... Subitamente apercebi-me de que ele tentava decifrar o meu gesto e detive-me.

 ― Porque razão prosseguiu? ― interrogou-me. ― Porque matou um homem que, ao que pude investigar, apenas cantava mal, tomava viagra e apaixonava-se por mulheres jovens?

 Uma vez mais não lhe respondi.

― Podemos caminhar um pouco? – propôs-me. – Sempre desejei morrer perto do mar.

― Não o quero matar – disse-lhe.

― Porque não, pensa que não o mereço?

Encolhi os ombros com indiferença.

― Afinal, eu sou o responsável pelos seus…

― Vamos! – interrompi-o e pus-me de pé.

― Deixe-me pagar… ― pediu-me.

Estendi-lhe a mão e vi-o abrir a carteira para tirar uma nota de 20 euros.

― Mais!

Hesitou sem perceber e tirou mais uma nota de 10.

― Mais! – insisti.

― É assim tão caro este pequeno-almoço?

― Quero comprar uma lembrança com o seu dinheiro.

Olhou-me com perplexidade e colocou todo o dinheiro que trazia na palma minha mão.

― Posso saber o que será?

― Uma jarra… para a encher de flores ― disse-lhe. Pareceu gostar da ideia.

 

Sinto-me nauseada. O meu polícia apercebe-se disso mesmo e faz sinal para o médico do INEM.

― Não! ― murmuro-lhe, mas o médico aproxima-se, observa-me, baixa os olhos até aos meus pés e parece suspeitar de que possa estar ferida.

― Não! ― volto a murmurar com mais dificuldade.

― É melhor deitarmo-la… ― propõe o médico, mas detém-se, subitamente, com a chegada de um automóvel civil com um sinalizador de luz colado ao tejadilho.

O condutor do carro olha-me com reconhecimento antes de sair e baixar-se junto do corpo. Depois levanta a ponta do lençol, tira do bolso um par de luvas azuis e calça-as para vasculhar os bolsos do seu ex-colega. Segura na mão duas carteiras. Uma é a do fadista. Abre-a, observa e surpreende-se com os cartões que o identificam. Depois guarda tudo num saco de plástico com fecho de correr, observa o bisturi espetado abaixo do tórax, aproxima os olhos, afasta-se e volta-se finalmente para mim, para as minhas pernas cobertas de sangue, para a poça que envolvem os meus pés e molham de novo os sapatos do polícia.

Recordo com dificuldade a últimas palavras do homem que conheci deitado no quarto 12, cama 3, do Hospital do Montijo, enquanto passeávamos ao longo do rio, por entre os habituais maníacos da manutenção física que percorrem o velho cais de embarque: ― Trouxe o bisturi?

Para sua deceção insisti em não responder.

― Gostava de morrer aqui ― disse-me e estacou.

― Não o queria matar ― lamentei-me.

― Mas não tem alternativa ― garantiu-me como se já tivesse pensado em tudo. ― Faria o suficiente para a colocar atrás das grades e depois morreria estupidamente numa cama de um hospital qualquer. ― Olhou-lhe suplicante. ― Acho que nenhum de nós merece isso.

Tirei o bisturi da mala.

― Vou necessitar da sua ajuda ― avisei-o.

Ele disponibilizou-se com um gesto, então puxei-lhe o lenço do pescoço, com delicadeza. Limpei com ele cabo do bisturi e passei-lho. Ele agarrou-o, depois segurei-lhe as mãos e sacudi-as em direção à minha coxa, surpreendendo-o. Empurrou-me, revoltado. Percebi que não queria magoar-me, mas também eu já tinha pensado em tudo. Gritei bem alto e precipitei-me contra si. Voltei a agarrar-lhe as mãos e dirigi-as contra o seu peito, sem qualquer resistência. Caímos no chão, rebolámos. Quando me levantei e voltei a gritar já ele olhava para o céu e partia satisfeito. Voltei a gritar até que um dos atletas matinais se aproximasse de nós para assistir ao seu estertor.

― Chame a polícia! ― roguei-lhe. E ele, estupidamente, tirou o telemóvel da capa transparente amarrada ao braço e telefonou para a polícia, quando deveria ter chamado uma ambulância.

À minha volta tudo se esfuma numa nuvem negra que me afasta do burburinho. Caio desamparada antes de perder a consciência e largo o telemóvel no preciso momento em que o agente, que veio interrogar-me, me segura. Quando começar a investigar vai ler a mensagem ainda aberta; vai perceber que o seu ex-colega ma enviou; depois registará que ele me fotografou demasiadas vezes, enquanto vigiava o pedófilo e perceberá que me tornei alvo de um e de outro. Lembrar-se-á da carteira do fadista (que eu coloquei no casaco do seu ex-colega) e concluirá que fui uma vítima infantil do pedófilo, antes de me tornar obsessão dos dois homens, em adulta. Sim, talvez isso me permita comprar uma boa jarra para encher de flores, se conseguir resistir com tão pouco sangue. A incisão na artéria femoral (que fiz abaixo da minha virilha esquerda) parece ter parado de drenar, porque, de repente, tudo o resto também parou.

FIM