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Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir daqui

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18.Dez.18

Natasha, a paciente

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A proximidade do Natal deixa-me sempre triste, e depois do meu divórcio tornou-se ainda pior. Este ano não me tem sido fácil ignorar as mulheres bonitas, apesar de ainda não ter estabelecido o que raio é para mim uma mulher bonita. De qualquer modo, para mim, Natasha é uma mulher francamente bonita e numa outra altura do ano conseguiria olhar para ela e ficar-me por aí.

Quando a vi pela primeira vez não consegui concentrar-me clinicamente nas suas expressões, nos seus gestos, nas suas palavras. Ela falava, eu apanhava a primeira frase, mas depois perdia-me nos olhos, no pescoço, no volume dos seus seios; como se o tamanho das mamas me dissesse mais do que a sua angústia.

Há mulheres que conseguem governar tudo, menos o mundo em que vivem, exatamente ao contrário de nós, homens. Natasha pode ser bem o exemplo desse curioso fenómeno feminino.

Quando há uma semana apareceu no consultório e pediu à rececionista para falar comigo, hesitei, mas acedi a deixá-la entrar. Ainda antes de se sentar disse-me, emocionada, mas sem qualquer sinal de histeria:

– Necessito de uma consulta para a minha filha!

Ao fim de muitos anos a lidar com doentes, creio que foi a ausência de histeria na sua voz que primeiro me atraiu, pese embora o desespero. Sorri estupidamente e só depois me dei conta de que o fazia por causa do fascínio que ela me causava. Compus, então, uma expressão neutra e garanti-lhe que a atenderia.

– Quando?

Trazia o cabelo solto, com o risco sobre o olho direito, fazendo sobressair todo esse lado do seu rosto. Os lábios escurecidos com batom, e nas unhas um verniz da mesma cor. Há mulheres assim, que nos momentos mais difíceis se agarram a tudo o que têm; a si mesmas, à sua beleza. E não o fazem por vaidade, muitas vezes é puro instinto de sobrevivência. Consciente ou inconscientemente, ela tinha vindo convencer-me da sua urgência recorrendo a todos os argumentos, incluindo os físicos, e eu perdi-me a calcular as minhas possibilidades e a admitir, pueril, que poderia tratar da sua filha e tomar um café consigo.

– Quando quiser.

– E se a conseguir trazer hoje?

– Traga-a hoje.

Percebi pela sua expressão que não lhe iria ser fácil.

– Que idade tem ela?

– Dezassete anos.

– Ahhh.

Ela respirou fundo e encheu os olhos de água. Desejei que não chorasse à minha frente e arruinasse a minha fantasia, por isso, fiz-lhe sinal para que se sentasse e esperei que se recompusesse. Ela fê-lo com a cabeça baixa e os olhos escondidos.

– Que se passa com ela?

Natasha levantou a mão e abriu os dedos (não tinha aliança!).

Habitualmente prefiro fazer a primeira abordagem a sós com o paciente, pelo que decidi não insistir com ela, todavia acabou por me responder:

– Está grávida!

Acenei com a cabeça em sinal de compreensão.

– Temos a interrupção da gravidez marcada para amanhã...

«Temos?» lembro-me de ter pensado. Queria dizer que não estava zangada com a filha.

– Como se chama?

Levantou a cabeça e olhou-me com uma expressão de súplica:

– Natasha.

– A Natasha estuda?

Olhou-me com perplexidade.

– A Natasha sou eu!

– Ahhh!

– Ela chama-se Olga. Sim, estuda.

Natacha chegou a Portugal como estudante, mas acabou por permanecer como uma emigrante russa que nunca perderá o sotaque materno. A filha, que nasceu em Portugal, tem menos acentuação do que a maioria dos montijenses meus conterrâneos. Vieram hoje e, ao contrário do que lhe tinha autorizado, marcou previamente a consulta.

Entraram ambas, a mãe à frente. Procurei-lhes imediatamente os traços comuns e constatei que tinham os mesmos olhos, a mesma boca e, sobretudo, o mesmo penteado. Não havia, portanto, qualquer contrariedade física entre ambas. Natasha trazia os lábios nus, as unhas também, e eu voltei a acreditar que, embora ela não sentisse já qualquer necessidade de me seduzir, ainda havia entre nós a possibilidade de um café antes do Natal, e mantive estupidamente os olhos nela e ignorei a filha:

– Habitualmente prefiro fazer a primeira abordagem a sós com o paciente...

– Ela não quer fazer a consulta.

Observei então a rapariga. Esta apertou os lábios iguais ao da mãe e baixou os olhos. Esperei que voltasse a erguê-los.

– É verdade.

A voz da rapariga denotava algum cansaço, talvez causado pelos atritos mal resolvidas, mas, também um esforçado controlo no tom, como se quisesse evitar (pelo menos à minha frente) qualquer hostilidade, apesar da determinação com que susteve o meu olhar. Percebi, por isso, que o não queria era ofender a mãe. Agradeci-lhe em silêncio.

Sentou-se e ficámos à espera que a filha cedesse. Quando esta o fez, observei-a demoradamente.

– Só haverá consulta se concordares em fazê-la.

A rapariga sorriu sem vontade.

– Não sinto necessidade de qualquer consulta.

Levantou a mão esquerda (exatamente como a mãe me havia feito uma semana antes) e abriu os dedos, depois cerrou-os num punho e marcou o ritmo das palavras com o movimento da mão fechada, o que indiciava que a sua decisão estava há muito tomada:

– Sei onde errei. Paguei pelo meu erro, mas que quero seguir em frente!

A mãe observava-lhe os gestos determinados com uma expressão de angústia, às tantas procurou-me como se pedisse a minha intervenção. Temi que discutissem, mas, uma vez mais, Natasha voltou a modelar a voz à sua vontade; e a sua vontade era superior à emoção que sentia. Percebi que estava habituada a conter-se.

– Tu nunca irás esquecer o facto de teres engravidado, e irás sempre interrogar-te sobre o teu filho que não nasceu. O meu receio é que isso te marque mais do que supões e te persiga até ao fim da vida.

A rapariga encarou-a. Hesitou em ripostar, mas decidiu conter-se, à imagem da mãe, não da sua, apercebi-me. E Natacha suspirou desesperada:

– Não sei onde foi que errei!

– Porra! Não foste tu que erraste, mãe. Fui eu! Eu!

Claro que Olga não tinha o mesmo controlo, e a pressão emocional libertava-lhe o seu verdadeiro temperamento:

– Eu nunca faria o mesmo que tu!

Não posso dizer que tenha gritado a última frase, porque não fora bem um grito, mas antes um elevar da voz, uma garantia de que dissesse a mãe o que dissesse, ela responderia sempre mais alto e mais determinada. Havia de facto uma luta estabelecida entre ambas, mas ao mesmo tempo também um acordo tácito de que enquanto lutassem procurariam não se magoar. Então, Olga decidiu apelar para mim:

– A minha mãe passou pelo mesmo há dezassete anos, pouco depois chegar a Portugal, mas decidiu prosseguir com a gravidez. Não faço ideia de quem é o meu pai, porque voltou para a Rússia.

A revelação da rapariga não agrediu Natasha, que me olhou algo envergonhada e sorriu com tristeza, enquanto repetia sob as palavras da filha:

– Não me arrependo de te ter tido!

Natasha procurou a mão da filha, mas esta recolheu-a à altura do peito e escondeu-a dentro da outra mão. Olharam-se.

– Não te condeno por teres abortado.

Garantiu. E depois olhou-me:

– Não estou contra ela, ela ainda é… vai ser sempre, a minha menina!

Os olhos de Natasha voltavam a encher-se de lágrimas e, desta vez, foi-me percetível de que iriam transbordar.

– Está a estudar, é muito boa aluna...

Eu observava sua transformação e condoía-me pela dor, pela sua necessidade de socorro. Porém, era também como se, de repente, visse o nosso café esfriar simbolicamente sobre uma mesa vazia da pastelaria Mimosa.

– Ela nunca conseguiria fazer a faculdade e cuidar de uma criança ao mesmo tempo. Eu trabalho! Eu trabalho para nós desde os dezanove anos, quando engravidei e abandonei os estudos. É verdade que não me arrependo, nunca me arrependi da minha decisão, mas não quero que ela corra o risco de ficar traumatizada com a que tomou, porque sei que nenhuma das nossas decisões era fácil, não podiam ser, eu tentei tomar outra, mas não consegui, há dezassete anos!

As lágrimas caíam-lhe diretamente dos olhos para o colo, mas não a detinham. Soluçava:

– Nessa altura, interroguei-me vezes sem conta como seria a pessoa que tinha dentro de mim, e hoje interrogo-me sobre como teria sido a minha vida se...

Levantei a mão, obrigando a calar-se e deixei-a recuperar. Não queria que a filha a ouvisse. Voltei-me para Olga e anunciei-lhe:

– Vou prosseguir a consulta com a sua mãe.

– Obrigado.

A rapariga agradeceu-me e levantou-se. Pareceu-me aliviada. Depois debruçou-se sobre Natasha e depositou-lhe um beijo na cabeça. Duas enormes lágrimas rolaram pelo rosto da mãe.

Como foi que eu não vira o que se passava aquando do nosso primeiro encontro, interroguei-me enquanto esperávamos que Olga nos deixasse. Não conseguia imaginar o que passava pela cabeça de Natasha, mas pela minha corria já o enorme lamento de perder definitivamente o nosso café e não voltar a olhá-la como uma mulher bonita, mas tão só como uma das minhas pacientes.

É assim, por mais que não queira, a proximidade do Natal deixa-me sempre triste.