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Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir daqui

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22.Ago.18

Cortinados novos! (Quarto 12, cama 3 - IV)

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 Às 10 e 30 já tinha colado o papel na parede da cabeceira da minha cama. Satisfeita, abri a mala, retirei a carteira e fui para a cozinha. Fiz um chá, mas depois não me apeteceu bebê-lo. Em vez disso, espremi o sumo de uma toranja, descasquei os dois figos verdes mais maduros que tinha e sentei-me à mesa. Apontei o telecomando à televisão (colocada na parede e ladeada por duas pequenas colunas de som, verticais). Repeti para mim mesma, uma vez mais, que os programas das manhãs eram todos uma merda e resolvi-me a mudar os cortinados do quarto!

Espreitei para a rua com enfado, depois levantei o ecrã do portátil e abri o google. As notícias da manhã também eram uma merda, pensei. Acedi ao blog. Optei por um novo post sem fazer a menor ideia do que iria escrever, em seguida deparei-me com a página em branco sem qualquer drama e decidi que necessitava de música. Segurei o telecomando e naveguei pelo youtube. O que é que seria mais adequado, Prokofiev para escrever ou Stravinsky para criar? Fazia sentido que fosse Stravinsky, já que não tinha qualquer ideia trabalhada, mas acabei por digitar "Romeo and Juliet, Prokofief" na barra de pesquisa (nem sempre opto pelo que me faz mais sentido). Aos primeiros acordes, comecei a dedilhar no teclado: "Às 10 e 30 já tinha colado o papel na parede da cabeceira da minha cama. Fiz um chá, mas depois não me apeteceu bebê-lo. Em vez disso, espremi..."

Bebi um longo gole do sumo exótico da toranja e apreciei o seu sabor amargo, no fim. Mordi um figo de mel e esmaguei-o contra o palato, com a língua, era muito doce. O tema Montagues and Capulets começou a soar no tempo perfeito; aumentei o som e respirei profundamente. 

Ouvi todo o primeiro andamento da segunda suite com um prazer quase íntimo, no fim espreguicei-me e senti o queixume dos músculos, resultado da primeira aula de Krav Maga (ontem) e dos agradáveis hematomas adquiridos na noite em que o fadista me deu luta.

― Magoaste-te? ― perguntara-me o meu irmão na praia da Nazaré, com a filha ao colo, enquanto observávamos a Adélia cortando as ondas, há uns dias. Apontei a minha Canon ao oceano e disparei três vezes, captando o salto de Adélia sobre a crista de uma grande onda.

― Ando a praticar Krav Maga ― menti-lhe.

Ele riu-se e eu, no regresso, inscrevi-me para as aulas, mas não estava preparada para tanto exercício. O fadista tinha-me puxado furiosamente o cabelo, por isso já havia decidido aprender uma arte marcial que me ajudasse a defender dos outros.

― Hás de ensinar-me uns truques... ― atirou o meu irmão com ironia, sem muita fé nas minhas faculdades físicas.

― Deixa-me pegar nela ― pedi-lhe e ofereci-lhe a câmara em troca.

Ele aceitou.

A menina tem os olhos claros da mãe, o cabelo encaracolado do pai e a tez cor de bronze, da mistura de ambos.

― Vocês andam... juntos? ― perguntei-lhe olhando, fascinada, para a beleza da criança.

― Não vivemos juntos – admitiu-me.

― Isso eu sei, mas dormem juntos... quero dizer, às vezes?

― Às vezes, sim.

― Ama-la?

― Amo a minha filha e estou disposto a tudo por ela. O que sinto por Adélia é diferente.

Esperei um pouco antes de voltar à carga:

― Estarias disposto a quê, por Adélia? ― perguntei, talvez com pouco tato, mas com muita curiosidade.

― Tenho uma natureza protetora ― confessou-se-me.

Nunca o tinha ouvido falar tão abertamente de si próprio.

― Necessito de proteger sempre alguém.

― Já me protegeste uma vez ― agradeci-lhe. 

Ele sorriu-me. Apontou-me a câmara e disparou.

― Voltaria a fazê-lo ― disse.

― E Adélia?

― Adélia também é minha protegida!

― Sim, mas ama-la? ― insisti.

Ele aproximou-se de mim, espreitou a menina e beijou-lhe a cabecita com os seus lábios cheios, de africano.

― Claro que amo.

― E se ela não fosse a mãe da tua filha?

― Nunca o saberemos, pois não? ― devolveu-me.

Abanei-lhe a cabeça, concordante.

― Não a deixes apanhar sol – ordenou-me antes de se afastar na direção da água, para fotografar Adélia mais perto.

― Por favor ― gritei-lhe. ― Não me molhes a máquina!

Quando a suite chegou ao fim. Já sem figos e sem sumo, guardei o texto como rascunho, desliguei a televisão e voltei a espreitar pela janela.  Vi um homem parado sobre o passeio da frente, a observar-me. De repente o coração saltou-me no peito! Era nem mais nem menos do que o doente do "Quarto 12, cama 3" e não me parecia em melhor estado do que no hospital. Tinha agora um lenço à volta do pescoço, apesar do calor que já se fazia sentir, e por baixo, seguramente (calculei) uma prótese com um orifício, através do qual conseguia respirar. Ter-me-ia descoberto?

Senti medo e, consequentemente, um enorme desejo de o matar, o que resultava numa excitação intensa e confusa, desmesurada, psicossomática; tão incontrolável quanto um desejo sexual. Levantei estupidamente a mão, trémula, e acenei-lhe. Ele respondeu-me com um pequeno gesto da cabeça e afastou-se.

Olhei instintivamente para a carteira e repeti para mim mesma que colecionar troféus era a coisa mais estúpida que eu podia ter começado a fazer. Abri-a e passei os olhos pelo dinheiro, depois observei os cartões bancários, um bilhete de lotaria e a carta de condução. Fechei a carteira, raspei um pequeno rasto de sangue seco no calfe e voltei a recordá-lo, de pé, encostado ao carro, à minha espera, conforme lhe tinha pedido no bar.

Lembro-me de que, de algum modo, vê-lo à minha espera deixou-me excitada. Afinal, por sua causa, eu tinha passado mais de uma hora a ignorar as tentativas de um outro homem (esse sim) que me interessava. Nessa altura ainda não sabia que jogava na lotaria, mas pela sua expressão, percebi que estava convencido de que lhe ia sair um bom prémio. Aproximei-me com um sorriso nos lábios, a mala segura na mão esquerda, sobre a anca, e a mão direita escondida atrás das costas.

― Moras perto? ― perguntou-me ele.

Ignorei-o.

― Não tentes ir ao hospital do Montijo, é inútil nestes casos ― murmurei-lhe junto ao ouvido.

O seu corpo enrijeceu.

― O tempo é um bem precioso ― garanti-lhe. ― No teu caso optaria pelo hospital do Barreiro ― confessei-lhe com honestidade e afastei-me um pouco para o poder olhar de frente.

 ― Que raio de conversa é essa? ― perguntou-me. E foi a última coisa que me perguntou, porque eu retirei a mão de trás das costas e como um pugilista desajeitado que falha o derradeiro golpe, desferi um gancho que lhe passou por baixo do queixo. Ele encolheu-se demasiado tarde, mas ainda assim, convencido de que se havia esquivado a tempo. Mostrei-lhe o punho e abri a mão desvendando-lhe o cabo do bisturi e na sua ponta a lâmina das grandes incisões. Vi-o levar a mão ao pescoço. Num repentismo felino, larguei a mala e enfiei-lhe a mão esquerda por dentro do casaco, na direção da carteira. Ele agarrou-me a mão, mas começou a sangrar por entre os dedos da outra, sobre o peito.

― Não percas tempo... ― pedi-lhe com toda a honestidade, mas ele hesitou, largou-me o braço e, para meu espanto, puxou-me furiosamente o cabelo.

― Porra! ― soltei numa voz rouca. 

Lembrei-me do bisturi na mão direita, mas não quis impedi-lo de conduzir. Optei por o empurrar contra o carro, mas ele não me soltou. Rodei dolorosamente a cabeça e percebi que se ele tirasse a mão do pescoço iria sujar-me de sangue e se o fizesse eu não o poderia esconder dos olhos de quem me olhasse depois. Tirar-lhe a carteira havia sido uma estupidez!

― Estás a perder tempo! ― lembrei-o.

Finalmente ele libertou-me e eu afastei-me compondo a carapinha. Depois fiquei a vê-lo entrar no carro, fazer marcha atrás, galgar o passeio que delimitava o estacionamento e sair em zig-zagues. Abri a minha mala e escondi nela a sua carteira e o meu bisturi.

Voltei-me para trás e vi a Margarida agarrada ao rabejador do grupo de forcados. Não fui capaz de me esconder. Atravessei a estrada, descrevendo um arco largo, para os surpreender pelas costas.

― Caramba que me assustaste! ― soltou a Margarida e olhou-me com demora. Por um instante receei que se tivesse apercebido do meu cabelo desalinhado, mas em vez disso perguntou-me: ― Não disseste que ias para casa?

Percebi que ela já tinha bebido demais (talvez para ganhar coragem) e desejei sinceramente que não dormisse em vão com o rapaz e que se lembrasse de tudo amanhã... ou talvez não.

― Apetece-me um latte macchiato... ― Sim. Era verdade.

Margarida soltou uma gargalhada e desequilibrou-se, mas o seu rabejador agarrou-a a tempo.

― Paulo! ― chamou ela na direção do ex-forcado que vinha a sair do bar.

Ele aproximou-se de nós e olhou para mim. Eu olhei para as suas mãos fibrosas e interroguei-me como tinha sido capaz de lhe resistir durante uma hora.

― Ela quer um latte macchiato! ― informou-o Margarida.

― Não sei fazer. Acho até que nunca bebi ― respondeu o ex-forcado.

― Oh, ela sabe ― garantiu Margarida, como se finalmente tivesse encontrado coragem para ir para a cama com o rabejador.

― Moras perto? ― perguntou-me Paulo. 

Olhei-o surpreendida pela sua pergunta, exatamente igual à do fadista.

Caminhámos juntos, sozinhos e em silêncio, até chegarmos à porta da minha casa.

― Em que pensas? ― inquiriu-me o ex-forcado, talvez para sondar a minha disponibilidade.

― Penso nas tuas mãos ― respondi honestamente. A honestidade faz-me sempre sentir bem. ― Penso que são fortes, penso que te seguraram muitas vezes, que te salvaram outras tantas, quando te agarravas com toda a força à garupa dos toiros...

Parámos. Ele esboçou uma espécie de sorriso sério.

― Quero que me agarres assim! ― disse-lhe. Aquela estava a ser uma das noites mais honestas da minha vida.

Subitamente ele tornou-se ainda mais sério. Eu baixei a cabeça, abri a porta da rua e comecei a subir os degraus das escadas, um a um, um a um, até ele se decidir, e de repente desatei a correr à sua frente!

 

Abro de novo a carteira e decido limpá-la cuidadosamente antes de me desembaraçar dela. Sim, não posso dar-me ao luxo de começar a colecionar troféus (conto as notas) em vez disso, vou usar todo o seu dinheiro na compra dos cortinados novos para quarto!