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Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir daqui

Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir daqui

19.Mai.19

Amontoado de casas

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Se continuasse crente em Deus, poderia dizer que tive uma epifania mesmo à saída do Estabelecimento Prisional do Montijo, mas como entrei católico e saí ateu, direi apenas que tive a clara perceção de que a minha vida não voltaria a ser a mesma.

Os primeiros passos em liberdade foram curtos e titubeantes. Não sabia para onde ir, mas não tinha dúvidas de que não queria voltar para casa. Depois de seis meses e treze dias de prisão, por ter arrancado uma orelha a um proxeneta (acreditava eu até essa altura que em defesa de uma prostituta) a única coisa que me ocorreu foi refugiar-me numa casa de putas, o que não deixava de ser irónico. Foi o que fiz.

Não sou muito me embebedar e a verdade é que quase não bebi durante os sete dias que depois passei no prostíbulo, saindo apenas para comer, caminhar e meditar seriamente sobre a minha existência. Sete dias, tantos quantos Deus gastara para fazer o mundo, se bem que reencaminhar a minha vida, no seu mundo, parecia-me agora ser um empreendimento bem mais complexo do que o de o construir. Foram sete dias inteiros. Foram sete prostitutas igualmente inteiras e algumas falsas amizades quase tão fortes quanto as que havia conseguido nos seis meses e treze dias da prisão. Depois, sim, fui para casa, esfreguei-me demoradamente sob o chuveiro, coloquei uma garrafa de vinho branco no congelador e dirigi-me, à pressa, para o Mercado Municipal, à procura de peixe fresco. Curiosamente, não sabia exatamente o que tinha decidido, mas não duvidava de que havia decidido qualquer coisa. Certo, estava de que não havia sido por nenhuma prostituta que tinha arrancado a orelha ao proxeneta.

Na pálida aparência das coisas tudo permanecia igual, se bem que a realidade não fosse já a mesma. É verdade que voltei a abrir a porta da loja de tintas que herdara do meu pai; é verdade que voltei a tirar a câmara fotográfica da gaveta e a fotografar a torto e a direito; também é verdade que, pela primeira vez desde a minha aposentação, voltei a encarar os touros, não como forcado, mas como confidente, como igual, como fotógrafo e amigo. Nos dias mais violentos (e não há violência maior do que a que escondo sob a pálida aparência das minhas coisas) só os touros me apaziguam. Então, agarro na câmara, conduzo em direção à lezíria, estaciono numa berma qualquer, salto sobre as estacas e invado a propriedade alheia para me aproximar dos touros. Os touros são a única coisa que nunca mudou na minha vida. Tudo o resto: casas, carros e... mulheres, foi um chegar e partir, um experimentar e mudar, um desejar e perder... Se bem que, mulheres, só perdi, verdadeiramente, uma... mas diante!

Passo, hoje, pela baixa em passo arrastado e constato que há cada vez mais estrangeiros no Montijo.

Seguro numa das mãos a câmara fotográfica, decidido a beber um café antes de correr com urgência para a lezíria. A papelaria está aberta e os jornais do dia pendurados na porta de vidro, à entrada. Olho-os com uma curiosidade que se desfaz no primeiro vislumbre das notícias sobre as eleições que se aproximam. Sei que não voltarei a votar, talvez por isso empurro os olhos para a frente, até parar numa revista francesa que me chama a atenção. Tem duas fotografias, a de um homem com um sorriso insípido e a de um amontoado de casas finas e algumas pessoas a caminhar entre elas. É essa que me prende a atenção. É o enquadramento da fotografia? São as pessoas a caminharem? É o irreprimível desejo de me encontrar, subitamente, longe da baixa do Montijo? Ou é simplesmente a violência que me cresce dentro do peito a exigir que beba a merda do café e saia dali a correr em direção aos touros, antes que volte a fazer um disparate?

Dissimulo a raiva que me consome, compro a revista francesa e desfolho-a de imediato. Saio para a rua, saúdo uma amiga que passa apressada por mim, para abrir a loja porque já passa das nove. Afinal, a fotografia do homem com um sorriso insípido diz respeito à sua morte. Foi assassinado. Era rico e foi assassinado, traduzo sem grande interesse no meu francês de conhecimento escolar. A excelente imagem do amontoado de casas diz respeito ao Principado do Mónaco e as pessoas da fotografia não devem ser mais do que outros homens ricos com sorrisos insípidos e mulheres igualmente ricas com sorrisos igualmente insípidos. Arrependo-me de ter comprado a revista, mas continuo a ler para não dar o dinheiro por perdido. Encosto-me à parede, na rua, oferecendo o rosto ao sol e protegendo os olhos nas páginas da revista. O homem foi degolado e deixado a sangrar sobre a sua cama. Apesar das obras de arte penduradas nas paredes da sua casa, bem como os objetos valiosos sobre a secretária, nada lhe foi roubado, à exceção de um pequeno isqueiro de ouro com a imagem da casa real monegasca gravada. Três semanas passadas e a polícia francesa continua seguindo variadas pistas que se revelam infrutíferas. Sinto a impaciência crescer dentro de mim, a clamar pela lezíria, pelo espaço aberto de uma incomensurável arena, por isso desisto do artigo e procuro simplesmente as fotografias. Fixo-me num novo amontoado de casas. Surpreende-me aquela ordem arquitetónica, aquele colorido dos telhados sobre as paredes limpas, as ruas bem desenhadas; o céu repleto de nuvens cinzentas. É tudo muito bonito, mas o que eu necessito mesmo é da proximidade dos touros selvagens!

Dobro a revista e encaminho-me para a Mimosa. Peço um café ao balão e procuro uma mesa vazia. Não há. O coração comprime-se-me no peito. Sorrio desolado e caminho titubeante, como nunca o fiz numa praça de touros.

– Posso sentar-me? – pergunto com a voz embargada.

– Não – responde-me Aurora.

Pouso o café na mesa, depois a revista; coloco a câmara sobre o amontoado de casas e puxo a cadeira, sentando-me à sua frente. Ao lado das suas mãos inquietas há uma chávena vazia e um pires com migalhas de bolo. Está a brincar com qualquer coisa entre os dedos como se me ignorasse, mas depois detém-se e olha-me com reprovação. Parece-me mais bonita do que antes.

– Estiveste preso... – murmurou-me.

– Quase seis meses.

Percebi pela expressão dos seus olhos que lamentava o infortúnio.

– E tu, o que é que fizeste nesse tempo todo?

– Quase nada... – respondeu-me vagamente. Reconsiderou e corrigiu-se: – Por entre o quase nada que fiz viajei pela Europa. Regressei há poucas semanas.

Olhámo-nos com demora e guardámos para nós mesmos o resultado da nossa avaliação.

– Porque razão foste preso? – decidiu-se ela.

– Não sabes?

– Não sei se sei. Quero ouvi-lo por ti.

– Arranquei a orelha a um pederasta, pensando que o estava a fazer em defesa de uma prostituta, mas enganava-me – disse-lhe.

Ela sorriu-me.

– Parece-me uma ideia bonita, muito romântica, defender uma prostituta. Mas se não foi por ela...

– Foi por ti!

– Ah... por mim? – Murmurou, mas decidiu-se a evitar o rumo da conversa. – Que tens feito desde que saíste?

– Fiz um retiro nos primeiros sete dias de liberdade – confessei-lhe mas desisti de continuar naquele rumo. Volteo ao primeiro: – Amo-te – declarei, mas soou-me tão frágil que me arrependi até ao instante em que ela mostrou os seus dentes brancos. O contraste com a sua pela escura deu-me vontade de pegar na câmara e fotografá-la.

– Foste capaz de arrancar uma orelha por mim? – perguntou-me.

Senti-me desconfortável, sem vontade de brincar. Nunca me havia declarado a mulher alguma com tanta honestidade e isso, se por um lado libertava parte da minha tensão, também me deixava exausto, desprotegido. Aurora apercebeu-se disso.

– Fala-me da viagem.

– Oh... andei pela Europa – volveu-me e voltou a remexer os dedos. – Não me lembro já por onde comecei.

– Acabaste onde? – volvi.

– No Mónaco.

– Mónaco? – soltei de imediato.

– Sim – respondeu e olhou-me surpreendida com a minha reação.

– O Mónaco parece-me bonito... sobretudo o amontoado das casas, das....

– Bahhh – interrompeu-me ela e encolheu os ombros com desprezo. – É um apenas lugar comum disputado por ricos. O Mónaco irritou-me tanto que decidi terminar a viagem e regressar ao Montijo. Não tem uma praia, uma montanha, só casas, lojas de roupas, perfumes e o Grande Prémio de Fórmula 1. Todos os dias que lá passei só vi milionários idiotas a olharem uns para os outros. Pouco mais fazem, porque pouco mais há para fazer no Mónaco. Já imaginaste a estupidez?

Não respondi.

– Milionários de todo o mundo correm para lá para fugir aos impostos dos seus países de origem e ficam a olhar uns para os outros. Não te parece estúpido?

Recusei-me a refletir sobre milionários insípidos.

– Há pessoas a morrer de fome em África e, claro, um pouco por todos os cantos do mundo. Por isso, ver queles tipos riquíssimos a olhar uns para os outros, dá vontade de...

Parei de escutar as suas palavras e preferi olhá-la nos olhos. Negros. O seu cabelo encarapinhado. O seu pescoço longo e delicado, os seus ombros simétricos, o volume dos seus seios e a recordação da sua voz íntima pedindo-me que a agarrasse com força... Percorri-lhe os braços nus e observei-lhe os dedos compridos brincando um pequeno isqueiro dourado, gravado com dois frades empunhando espadas. O dístico do Principado do Mónaco!

– Pode ter um bonito amontoado de casas, mas nem isso evita que ao fim de 48 horas de lá estarmos, comecemos a sentir vontade de matar alguém – riu-se.

Calámo-nos durante um longo instante, duramente o qual refleti sobre a minha prisão, a semana que passei no prostíbulo e o vazio da minha existência fora das arenas.

– Eu sempre disse que te amava! – atirei-lhe por cima do meu espanto, com toda a coragem. Nunca fui de fugir para trás, mas sempre para a frente.

– Eu também de amo... – volveu-me com delicadeza. – Mas continuo a pensar que não nos devemos envolver.

– Vem comigo à lezíria, vamos tirar fotografias aos touros! – propus-lhe.

Ela olhou instintivamente para a câmara pousada sobre a revista.

– Quando?

– Agora mesmo!

De repente, apertou o isqueiro escondendo-o entre os dedos. Levantei a câmara, deixando-lhe a capa da revista a descoberto e levantei-me. Pouco depois Aurora ergueu-se e procurou-me os olhos, auscultando-me. Depois deu a volta à mesa e seguiu-me.

– Espera! – ordenou-me.

Parei e senti o coração a bater desordenadamente. Porra, não me sentia tão bem desde que abandonara a arena! Segurei-lhe a mão e apertei-a.

– A revista... – lembrou-se.

– Sim – concordei. – É melhor trazê-la.

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