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Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir daqui

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20.Nov.17

A raposa do Ártico

«Apetece-me um café na Mimosa.»
Despi o roupão e atirei-o para cima do sofá. Coloquei um cachecol, vesti o casaco e abotoei-me até ao queixo. Caminhei até à pastelaria, onde me desabotoei com a mesma prontidão, desenrolei o cachecol, sentei-me e pedi dois cafés.
A memória é um estranho processo de retenção, consigo recordar minuciosamente os dois acontecimentos mais dramáticos da minha vida, mas sobretudo os pormenores que não presenciei. Memorizei-os pelos olhos de Raquel, pelas suas palavras balbuciadas, entrecortadas pelo seu choro, pelas suas lágrimas descontroladas, pela baba da sua dor.
O Marco tinha reprovado o ano letivo ainda durante o mês dezembro, por isso sentíamo-nos impotentes, fracassados e culpados. Não admitíamos que a culpa também fosse de Carlos, cujas opções de vida o haviam afastado precocemente de casa. Queríamos a culpa só para nós.
No café, troquei uma piada com o empregado e desembaracei-me dele para puxar o telemóvel e fotografar as chávenas sobre a mesa. Enviei a imagem com uma pequena legenda:
«Já aqui está.»
Na noite em que fomos à procura de Carlos e acusá-lo de ser uma má influência para o irmão, esperámo-lo na rua quase até ao romper do dia. O seu apartamento tinha uma estranha decoração, demasiado impessoal, minimalista, como se estivesse preparado para o abandonar a qualquer momento. A exceção era o quadro a óleo, de um pintor esquimó, adquirido pela internet acima dos 250 mil euros. Nunca na minha vida imaginei possuir tal quantia.
Não abri a boca, já que Raquel se me adiantou. Agradeci em silêncio quando ela lhe atirou com a nossa impotência, o nosso fracassado, a nossa culpa. Sempre foi muito mais forte do que eu, talvez por isso Carlos não tenha ripostado. Por fim, deixámo-lo sentado no sofá e viemos embora sem bater a porta.
A resposta de Raquel chegou-me reduzida a um pequeno smile. Despejei o açúcar e mexi sem pressa, com a sensação de estar a ser observado, mas não me preocupei em confirmar se a polícia tinha entrado no café para me vir buscar ou se se tratava apenas do empregado, parado, a olhar para a solitária chávena do outro lado da minha mesa, cuja fotografia acabara de enviar para Svalbard, à distância de um dia e 13 horas, na melhor hipótese de uma viagem; 4.543 quilómetros, e, curiosamente, apenas uma hora mais do que aqui, no Montijo.
«Tenho observado algumas raposas do Ártico» li no mostrador, sobre a imagem.
Bebi o café e tentei reter as lágrimas dentro dos olhos, a visão enublou-se-me, mas funguei e recompus-me.
Naquela madrugada, ao chegarmos a casa, o telefone tocou. Raquel atendeu-o. Era Carlos.
― O que é que quer?
― Quer que faça uma viagem e lhe fique com o quadro…
Lembro-me perfeitamente de Marco ter acordado e Raquel querer ir sozinha.
Encontrou a porta como a deixámos, aberta, disse-me mais tarde. Entrou e deparou-se de imediato com o corpo dele, inerte, com uma agulha espetada no braço (é como o lembro agora!). Garantiu-me que não chorou porque sabia que o ia encontrar assim. Vasculhou a casa e trouxe o quadro da raposa do Ártico, tal como ele lhe pedira, a sua mochila e uma caixa retangular com a tampa trabalhada à mão, contendo um kit composto por uma pequena arma de fogo, um silenciador, um escovilhão e um frasco com lubrificante. Nunca tinha visto uma arma, parecia um brinquedo.
― Não quero isso cá em casa! ― disse-lhe.
― Não será por muito tempo.
«A raposa é linda» digitei-lhe.
«Ficaste com as cinzas?»
«Fiquei.»
«Oh... Por quê?»
Encolhi os ombros e não respondi.
«É uma alopex lagopus e está apenas a alguns metros de mim» li.
Imaginei-a oculta pelo tronco de uma árvore grande e grossa, a espreitar a raposa.
«Como está o Marco?» perguntou-me.
Carlos estava ligado ao narcotráfico e, macabra ironia, o irmão começara a consumir drogas na escola; a nossa vida parecia-nos o resultado trágico de um desastre maior do que podíamos suportar, mas naquele dia ainda ficou pior.
Depois da judiciária libertar o corpo, fizemos um pequeno enterro, sóbrio e condigno. Marco ainda estava em choque quando foi interrogado, mas nada sabíamos sobre a mochila (Raquel recusou-se a falar-me sobre ela) que, alegadamente, poderia conter todo um fornecimento de cocaína para a região, devidamente preparada para entregar aos distribuidores. Era isso que Carlos fazia, informou-nos a polícia. Sim, nós já o sabíamos.
«Marco está a reagir bem. Continua internado, mas deve começar a vir a casa aos fins de semana.»
«Achas sensato?»
«Acho» respondi.
«Ótimo. É bom saber que valeu a pena.»
Difícil de se convencer da nossa ignorância foi o patrão de Carlos, um ex-industrial algarvio, que insistia em dialogar apenas com Raquel. Estava disposto a pagar pela mochila de Carlos, e, absurdo dos absurdos, ela estava disposta a vender-lha. Tive medo do que mais nos pudesse acontecer, para além de me parecer grotesco comercializar a mesma droga que nos roubara a vida do nosso filho; mas há momentos em que desistimos de tudo e nos limitamos a viver sem contrariar nada nem ninguém. Ouvia-a marcar o encontro.
A ideia seria entregar a mochila, explicou-me, e chamar a polícia de modo a apanhar o traficante em flagrante.
― Mas por quê?
― Porque tínhamos dois filhos e agora só um!
― Isso não nos devolverá o outro ― teimei.
― Mas pode garantir que não percamos o Marco!
Voltei a desistir.
«Esta tem apenas uns 75 centímetros» escreveu. «É pequenina... como eu».
«Estive na judiciária para um interrogatório» contrapus.
«E eu na esquadra daqui.» 
«Encontraram o patrão de Carlos. Morto. Junto da mochila e de uma arma de pequeno calibre, com um silenciador» disse e fiquei à espera.
«Eu sei» respondeu-me. «E tu, o que lhes disseste?».
«A verdade. Descrevi-lhes o modo como trocámos de mochilas (exatamente como me contaste) e usámos o dinheiro para a reabilitação do nosso filho.»
«Fizeste bem… Está um frio asfixiante e não trouxe casaco!»
«Volta para o hotel» sugeri.
«Não posso. Saí à pressa. Estou deitada sobre a neve.»
Apaguei o tronco de árvore da minha imaginação.
«Então levanta-te!»
«Não. Esta é lindíssima, não estamos ainda no pico do inverno e já adquiriu a pelagem branca. É muito pequenina.»
«Sim. Como tu» completei sem digitar.
Quando a levei ao local do encontro fiquei à espera no carro, como nos foi exigido. Não demorou muito para a ver regressar com uma nova mochila, mais pequena.
― O que vamos fazer com o dinheiro?
― Tu ficas a tratar da reabilitação de Marco.
― E tu?
― Tenho que viajar… ― e de novo, com uma voz ausente, justificou-se: ― o Carlos pediu-me para ir ao Ártico ver as raposas, por ele.
«Estão atrás de ti?» inquiri.
«Sim. Já devem ter encontrado a motoneve... Olha, vou enviar-te outra imagem. É tão linda!»
«Que vais fazer?»
«Ficar à espera… só têm que seguir as minhas pegadas.» 
«Se eu também for preso» perguntei. «Achas que o Marco resistirá sozinho?».
«Claro! É a única maneira de isto fazer sentido» digitou ela. «Olha, a raposa ficou alerta!».
Imaginei-a deitada na neve com os braços esticados, a tiritar de frio,  com o telemóvel apontado para as pequenas orelhas da raposa, esticadas na tentativa de captar a aproximação dos polícias. E memorizei-as assim, ambas. Nesse instante chegou-me uma nova imagem do animal, agora em fuga, com a mensagem correspondente:
«Pede mais um café, estou quase a chegar.»
Levantei o braço e fiz sinal ao empregado.

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