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Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir daqui

Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir daqui

06.Mai.18

A primeira Bíblia

 

No fim de cada semana de trabalho ter uma boa máquina de café em casa já não me impede de sair e tomar o pequeno-almoço fora, por isso, atravessei o parque, desci a avenida e cruzei-me com os crentes à saída da missa. Gosto de os observar, mas nem foi o caso, foi antes o acaso, que me fez cruzar com Sérgio Pontini, a quem já ouvi chamar "o maior mentiroso do Montijo".

― Bom dia!

― Bom dia ― estaquei à sua frente. ― Já tomaste café? ― convidei-o, mais a pensar em mim do que nele.

Necessito de café pela manhã, necessito do açúcar de um bolo, e, ao fim-de-semana, necessito desesperadamente da companhia de alguém, de sentir pessoas à minha volta.

― Porque é que te chamas Pontini? ― perguntei-lhe enquanto caminhávamos.

― Sou descendente do primeiro italiano que habitou o Montijo, um antigo monge que fugiu dos arredores de Roma ― disse-me.

Já sentados, engoli um generoso gole do “abatanado pingado” e observei-lhe:

― Pareces-me orgulhoso da tua ascendência.

― Oh ― fez ele. ― O meu antepassado, Carlo Pontini, não foi um monge qualquer.

Sorri-lhe por simpatia: ― Herdaste-lhe a fé que carregas, aos domingos, até à igreja?

― A fé… ― murmurou. Levou a chávena à boca e bebeu todo o seu café, lentamente, de um só trago, antes de continuar: ― Carlo Pontini foi de facto, um homem de fé, mesmo depois de abandonar o mosteiro e vir refugiar-se aqui.

― O que o trouxe cá? ― inquiri enquanto mordia o croissant.

― Para te responder terei que revelar a existência do seu amigo Vicenzo e do fantástico relatório que escreveu... ― olhou-me hesitante.

― Estou preparada ― garanti, mas não fazia ideia de para quê.

― Imagina um pequeno pelotão de soldados na praça central de um mosteiro nos arredores de Roma ― propôs-me Sérgio. ― Onde pequeno grupo de monges retificam as correias das montadas, confirmam os víveres e acondicionam o papel, os tinteiros... Um deles é Vicenzo, que, quando todos os outros, já montados sobre as garupas dos cavalos, aguardam o toque militar da partida, ainda verifica as penas de pato num dos alforges e só o som da trompa marcial o impede de repuxar as fivelas que seguram uma resma de papel. De repente, antes da trompa emudecer, o seu cavalo empina-se e atira-o ao chão, espalhando sorrisos de troça por entre os que assistem à partida.

Para minha surpresa, apercebo-me de que Sérgio sabe contar uma história. Sabe parar, respirar fundo e compor mentalmente as palavras antes de as proferir:

― Como Vicenzo não se ergue, o próprio oficial do pelotão corre ao seu encontro. Uma, duas, três tentativas para o aprumar e o mesmo número de quedas, até o militar lhe levantar a sotaina e observar a perna com o fémur fraturado. É aqui que entra Carlo Pontini, o meu antepassado, que abandona a assistência, persegue os socorristas e já não vê o substituto de Vicenzo subir para a sela, então corrigida pelo oficial do pelotão, nem a partida dos monges e do pelotão de soldados; os seus olhos fixam-se na coxa do amigo acidentado, que incha e escurece sobre o sangue que se espalha no seu interior.

Revejo mentalmente a sequência do acidente e tudo me parece plausível, o que me satisfaz. Adoro uma boa história! Olho para o Sérgio com gratidão.

― Poucos acreditaram que Vicenzo conseguisse sobreviver, primeiro à inconsciência, depois às febres e à gangrena, quando as várias incisões para lhe drenarem a hemorragia acabaram por infetar e tiveram que amputá-lo.

Sacudo a cabeça, concordante com o diagnóstico.

― Durante a longa convalescença Vicenzo torna-se letárgico, mesmo quando Carlo Pontini lhe lê as missivas que irmãos enviam de Jerusalém. Aos poucos, decaem as visitas dos outros irmãos. Um dia, inesperadamente, Vicenzo faz-lhe um pedido:

«Traz-me papel, tinteiro e penas.»

― Pontini alegra-se pelo fim do mutismo do amigo e prontifica-se a satisfazê-lo, mas este não vai aproximar-se mais de si, antes, sabê-lo-á depois, da imaginária tarefa que o destino lhe impedira de realizar: a viagem a Jerusalém.

Sérgio faz uma pausa dramática, olha em redor e eu depreendo que esteja a deixar passar o tempo, não o seu, mas o do antepassado. De repente tudo me disse parece real. Será?

― Pouco antes dos monges voltarem da missão, Vicenzo coloca debaixo da bandeja do almoço uma grande quantidade de folhas escritas.

Carlo Pontini lê a primeira página: “O relatório”, e por baixo a assinatura: “de Vicenzo”.

«Leva-o ao abade» pede-lhe o amigo.

Pontini interroga-se se deve cumprir a vontade de Vicenzo ou esconder a prova da sua alucinação. No caminho, resiste à tentação de vasculhar as páginas que ele lhe confiou e que o Abade acabará por receber intactas das suas mãos. Ter-lhe-á sido difícil adormecer nessa noite. Porém, vencida a primeira madrugada sucederam-se outros dias, aproximando os monges no regresso da viagem. No mosteiro não se fala de outra coisa que não sejam os relatórios dos missionários documentando os sagrados passos e os divinos milagres de Nosso Senhor Jesus Cristo. Impacientam-se os copistas. Ansia o Abade por compilar os textos e compor, segundo a vontade do imperador Constantino I, aquele que será o livro sagrado dos cristãos: a Bíblia. E esse dia chegou. Quase de imediato, o Imperador de Roma escreve ao Abade, seu amigo pessoal, pressionando-o a acelerar todo o processo e a entregar-lhe o desejado documento da viagem.

Sérgio olha para a chávena como se procurasse nela o resto da sua história, aplaudo-o em silêncio, a sua narrativa já me conquistou.

― Depois da chegada dos missionários, corre pelo mosteiro que a qualquer momento se começará a executar o livro; mas o Abade tarda a correção dos textos, provoca o nervosismo dos monges, a intolerância do Imperador, até a impaciência do caduco Papa Silvestre, e certa noite, Carlo Pontini é chamado aos aposentos do Abade. Surpreende-se então com a extraordinária presença do Imperador de Roma!

― Eis Carlo Pontini, Imperador, o que cuida do irmão Vicenzo ― anunciou-o o abade.

― Diz-me ― irrompeu o Imperador com um modo autoritário, quase brutal. ― Pensas que Vicenzo se encontra no seu perfeito juízo?

Carlo Pontini sente o peso dos olhos do imperador sobre si, mas resiste. Percorre a parede da sala, fixa-se no fogo da lareira e dissimula os seus sentimentos sobre a velha mesa do Abade, onde dois volumosos maços de papel refletem o jogo de sombras e luzes que o mortiço fogo projeta. O tamanho e a cor ordinária do papel de um deles não o permitem duvidar: é o manuscrito de Vicenzo. O outro, como que em oposição, maior e de melhor qualidade terá que ser a compilação dos relatórios dos monges historiadores que foram a Jerusalém historiar Jesus.

― Então? ― insiste o Imperador. ― Que pensas tu sobre o que ele pensa?

Carlo Pontini encolhe os ombros:

― Não sei, senhor. Vicenzo quase não fala. Saúda-me e pouco mais. Nem sequer escreve.

― Oh, mas já escreveu! ― corrige o Imperador. ― E sabes o que escreveu ele?

Carlo Pontini tenta o socorro do Abade, mas este mostra-se intransigente e expectante pela sua resposta.

― Não, senhor.

― Não leste o que escreveu? ― surpreende-se o Imperador.

Carlo Pontini volta a percorrer a sala e a fixar-se na mesa: ― Quis fazê-lo, mas resisti ― confessa.

― Vicenzo foi sempre um bom irmão… ― intercede finalmente o Abade. ― Mas o acidente afetou-o de tal modo que o demónio, aproveitando-se da sua enfermidade, o terá levado a escrever obscenidades e a usurpar a palavra do Senhor. Aguardamos a chegada de um irmão vindo de Roma, com experiência nestes casos, para o avaliar e tratar.

― O seu manuscrito será queimado e esquecido! ― sentencia o Imperador.

― Porque a palavra do demónio não pode coabitar com a palavra de Jesus Cristo ― completa o Abade. ― É perturbadora e corrupta! ― E volta-se para Pontini: ― Prestaste um bom serviço a Deus e à Santa Igreja ao resistires à tentação de ler o manuscrito de Vicenzo… É chegada a hora de aceitares uma missão mais leve, em Roma...

Sérgio olha-me e segreda: ― Creio que aqui o meu antepassado ter-se-á alarmado. ― Depois retoma:

― Agora podes ir ― decide o Imperador.

Pontini baixa a cabeça em assentimento, volta-se e sai, fechando a porta atrás de si. Por que razão o Imperador queria saber se ele tinha lido o relatório de Vicenzo? Interroga-se. E este, iria ser levado para um hospício?

― Não! ― interrompe-o o eco da voz do Abade, abafada pela porta. ― Essas não! ― Ouve depois o som de uma queda seca e de novo a veemência da voz do Abade: ― Mas isso… isso é um sacrilégio!

Estaca, roda a cabeça e espreita pela fechadura a luz reavivada da lareira.

― Deus escreveu direito por linhas tortas ― ouve do Imperador. ― E fê-lo pela mão de Vicenzo!

― Mas este era o documento da missão, o verdadeiro relato da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo… ― balbucia o abade observando as chamas com desolação.

― Velho amigo ― pronuncia o Imperador. ― O relatório de Vicenzo é a prova de que Jesus é criação de Deus. É imortal, divino e poderoso. O seu Cristo dá vista aos cegos, andar aos paralíticos e vida aos mortos; não é apenas o homem pouco mais do que vulgar que o demónio quis fazer crer aos seus ingénuos historiadores!

Carlo Pontini afasta-se, dá um passo, mas ouve ainda o Abade protestar ou, talvez, choramingar, antes da resolução do Imperador:

― É minha vontade documentar a bíblia com impressionantes feitos, singificativas passagens e eloquentes discursos de Jesus Cristo, e eles não estão nos relatórios dos monges que o historiaram em Jerusalém, mas sim no do que aqui ficou retido pela fratura de uma perna… ou, simplesmente, pela vontade de Deus! Vicenzo... Vicenzo quê?

Carlo Pontini não ouve mais. Percebe que está sentenciado o futuro do amigo, mas ainda não o seu! Caminha. Continua a caminhar, primeiro devagar, depois apressadamente. Atravessa o átrio e vai diretamente para a porta do mosteiro. Ninguém o chama. Ninguém dá pela estranha direção dos seus passos; ninguém o vê sair.

Sérgio Pontini olha-me e apercebe-se da minha estupefação:

― Acabaste de dizer-me que a Bíblia tem uma origem fantasiosa? ― pergunto-lhe, como se tal nunca me houvesse passado pela cabeça.

― Não necessariamente ― devolve-me Sérgio. ― Acredito que o Imperador Constantino I teve razão ao tomar como verdadeiro o relatório de Vicenzo, em detrimento do dos outros monges.

Olho-o e apercebo-me do quanto a cidade tem sido injusta para com Sérgio Pontini. 

― Também estás a questionar-te sobre se o que acabo de contar é verdadeiro? ― interpela-me com seriedade.

― Não ― garanto a si e a mim mesma. ― Eu... acredito em ti!

 

 

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