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Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir daqui

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05.Jan.19

À espera do doutor Alvarez

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Aurora - personagem de "Regresso a África" link

Brandão - personagem de "Brandão" link

Carlota - personagem de "O melodrama de Carlota" link

Jorge - personagem de "Leiopelma Pakeka" link

 

Na sala há dois sofás de dois lugares cada e uma pequena mesa ao meio, a separá-los. Sobre a mesa uma travessa com pequenos bolos sortidos, de pastelaria, em forma de miniatura; pacotes de açúcar, uma cafeteira a fumegar e quatro chávenas. Dois personagens sentados, um em cada sofá e em extremidades opostas. Um terceiro personagem vagueia pela sala, observando para lá da janela ou a estante de livros, com uma curiosidade distante. A porta abre-se e uma mulher espreita antes de entrar.

 

Recém-chegada: – Boa tarde.

Todos os outros, à vez: – Boa tarde.

Recém-chegada: – Tenho uma consulta marcada.

O homem que vagueira pela sala estaca repentinamente.

Homem de pé: – Também nós.

Mulher sentada na extremidade do sofá: – Esta música está a irritar-me!

Todos olham na direção do aparelho de som. O homem sentado na outra extremidade do sofá fala na direção do que vagueia pela sala.

Homem sentado: – Importa-se de ver que disco é este?

O homem de pé aproxima-se do aparelho e procura a caixa do disco que está a tocar. Retira-a com alguma hesitação e lê-a.

Homem de pé: – Khatia Bunia-tish-vili… mais alguma coisa?

O homem sentado na extremidade do sofá esboça um sorriso de troça.

Homem sentado: – Não. Obrigado.

A recém-chegada senta-se ao lado da outra mulher.

Recém-chegada: – Chamo-me Aurora.

A outra mulher morde os lábios com apreensão.

Mulher sentada: – Carlota. Eu… chamo-me Carlota.

O homem que ainda vagueia pela sala tem agora a caixa do disco na mão e murmura sem levantar a cabeça.

Homem de pé: – Brandão.

O outro homem, sentado na extremidade do sofá, parece divertido.

Homem sentado: – Jorge.

A porta da sala volta a abrir-se e todos se voltam na sua direção. Uma jovem, que todos reconhecem como a rececionista que os mandou entrar à medida que foram chegando, estica o pescoço.

Rececionista: – O doutor Alvarez pede imensa desculpa, mas encontra-se retido na ponte. Pede para se servirem à vontade. Se necessitarem de alguma coisa enquanto ele não chegar, peçam-me, por favor.

Carlota (com a mão no ar): – O que é que estamos aqui a fazer? Você marcou todas as consultas todas para a mesma hora?

Rececionista: – Marquei.

Carlota: – Por que razão?

Rececionista (antes de sair e fechar a porta): – Porque o doutor Alvarez mo ordenou.

Brandão: – Ou ele estava a pensar fazermos uma festa de ano novo…

Aurora: – Ou uma terapia de grupo.

Jorge debruça-se impulsivamente sobre a cafeteira e serve-se.

Jorge: – Diga-me, Carlota, como foi o seu Natal?

Carlota olha para Jorge com censura.

Jorge: – Só há três pasteis de nata. Posso comer um?

Brandão: – Por mim pode comer todos!

Aurora: – Todos não. Também quero um. O meu Natal foi uma merda… peço desculpa pela expressão, mas ainda não ultrapassei a raiva que acumulei nos bancos dos aeroportos. Tão cedo não volto a viajar!

Carlota: – Onde esteve?

Aurora: – Seria melhor correto perguntar-me de onde vim. Andei pelo pacífico, à toa, e decidi voltar no momento errado. Tinha tudo escrupulosamente marcado, mas o atraso do primeiro voo parece ter provocado um efeito borboleta quer nas estadias, quer nos outros voos e acabei por ter que passar as noites de Natal e de Ano Novo nos aeroportos.

Jorge (para Brandão): – E você?

Brandão senta-se ao lado de Carlota, com o disco na mão.

Brandão: – Em casa, sozinho.

Jorge: – Sozinho em casa. Parece um filme.

Brandão: – Você irrita-me!

Jorge: – Bom, só falta a… Carlota.

Carlota: – Você também me irrita!

Jorge: – Já vi que também não teve um bom Natal.

Carlota: – Não é da sua conta. E o seu?

Jorge: – Discuti com a minha namorada.

Carlota: – Não me surpreende. Aproveitou, ao menos, o Ano Novo para fazer as pazes?

Jorge: – Não. Separámo-nos.

Carlota (com ironia): – Oh, por quê?

Jorge: – Porque decidi não a fazer sofrer mais.

Carlota baixa os olhos e abana a cabeça com desconcerto.

Aurora (para Brandão): – Não tem filhos?

Brandão (encolhe os ombros): – Penso que tenho.

Aurora (para Jorge): – E você?

Jorge: – Creio que também tenho um, na Nova Zelândia.

Carlota (com indignação): – Como é que podem não ter a certeza?

Brandão (murmurando): – Por alguma razão nos encontramos aqui, numa consulta de psiquiatria.

Carlota: – Mas não por questões de maternidade… ou paternidade. Pelo menos eu não.

Todos olham para Aurora que retira um bolo.

Aurora: – Vim apenas pelos pasteis. E se não for pedir muito, Jorge, pode servir-me um café? Espero que a rececionista tenha usado um bom lote (respira fundo). Às vezes sinto-me capaz de matar por um bom café!

Jorge serve Aurora. Depois olha para a Carlota.

Jorge: – Também quer?

Carlota: – Como raio é que você não sabe se tem um filho na Nova Zelândia?

Jorge olha demoradamente para Carlota, em desafio.

Jorge: – Imagine que você é um homem, que tem um bigode de sargento mesmo a combinar com a sua falta de humor e que a mulher com quem você ama é casada. Um dia ela aparece-lhe grávida. Você põe-se a fazer contas e verifica que no seu calendário é possível ser o progenitor, mas, ainda assim, necessita que ela o confirme, não?

Carlota: – É seu filho!

Jorge sorri com desdém e Carlota volta-se para Brandão.

Carlota: – E você não tem um, mas cinco filhos!

Brandão: – Por que é que diz isso?

Jorge: – Porque gosta de armar aos cágados!

Brandão: – Cinco. Sim, é possível. Mas nenhum tem o meu nome!

Carlota: – E quatro nem suspeitam de que o têm por pai!

Brandão reage com ansiedade.

Brandão: – E o quinto?

Carlota: – O quinto é o terceiro, sabe que é seu filho, mas tem receio de o procurar e se arrepender porque não sabe que raio de homem você é!

Jorge: – Os pasteis são muito bons!

Aurora: – São da Mimosa. Eles estão sempre a mudar o creme, mas a casca é invariavelmente a mesma! Alguma vez pensou ir até à Nova Zelândia?

Jorge: – Para fazer o quê?

Aurora: – Para essa tal mulher. Em tempos cheguei a viajar até Angola para procurar os meus pais…

Brandão: – E encontrou-os?

Carlota: – Não, mas…

Aurora olha para Carlota e esta cala-se

Aurora: – Encontrei-me a mim.

Carlota abana a cabeça confirmando.

Carlota: – Há algumas mortes na sua vida, mas não as dos seus pais.

Jorge olha para Carlota.

Jorge: – O que raio se passa consigo?

Brandão olha para Jorge.

Brandão: – Pode tirar-me também um café? Mas por favor não encha a chávena!

Jorge: – Não aceito pedidos personalizados. Já agora, por que é que não se serve você?

Brandão: – Porque tenho Parkinson! Nem sequer consegui recolocar a caixa do disco no lugar dela!

Carlota: – Eu sirvo-o.

Jorge olha para Carlota e agarra a cafeteira:

Jorge: – Não! Eu sirvo-o.

Carlota encara Jorge.

Carlota: – Ele, eu percebo...

Jorge: – Você é a pessoa que aqui mais me detesta, e, no entanto, a que mais curiosidade me desperta. Admitindo que todos temos uma qualquer falha, que, como diz o Brandão, nos traz à trouxe à consulta do doutor Alvarez, interrogo-me sobre qual será a sua. Diga lá, qual é?

Carlota sorri.

Carlota: – Tenho a certeza de que não iria gostar de saber.

Brandão brande o disco para chamar a atenção do grupo.

Brandão: – A verdade é que ela pode estar certa no que disse de mim.

Jorge: – Não é difícil, já que toda a gente sabe quem você é. Eu mesmo conheço algumas pessoas cuja descendência lhe é apontada. Você deve ter sido uma boa prenda. Se não forem cinco filhos, serão seis, ou…

Brandão: – Sim, o resultado é o mesmo: estou só.

Jorge procura os olhos de Aurora.

Jorge: – E você? Ela acertou nas mortes da sua vida?

Aurora tenta escolher cuidadosamente as palavras.

Aurora: – Sim. Sou escritora. Nesta fase em que me encontro escrevo sobre assassinatos em série.

Jorge: – Como aquele a que sobreviveu no cais?

Aurora: – Ahh… também me conhece?

Jorge: – Você e o Brandão devem ser os mais populares cidadãos do Montijo. De qualquer modo, acho que conheço todas as mulheres bonitas da região e fiz sofrer demasiado algumas. É por isso que aqui estou. Creio que só se ama, verdadeiramente, uma vez na vida e a única mulher que amei estava casada quando aqui vivia, no Montijo. Agora reside em algures na Nova Zelândia, com um dos seus dois filhos, aquele que pelo meu calendário não posso rejeitar a paternidade.

Carlota: – É por isso faz sofrer todas as mulheres que se atravessam na sua vida?

Jorge: – É pelo menos isso que vim perguntar ao doutor Alvarez, mas ele está retido na ponte!

Brandão: – Você devia ir à Nova Zelândia e conhecer o seu filho. É o meu conselho.

Jorge olha para Brandão e força um sorriso.

Brandão: – Vai servir-me o café ou não?

Jorge: – Vou. Afinal, você também pode ser meu pai…

Brandão: – Dê-me também o pastel de nata.

Carlota: – Podiam ter-nos comprado quatro pasteis!

Brandão: – Quere-lo?

Carlota: – Não. Prefiro um folhado.

A porta abre e médico entra de rompante.

Doutor Alvarez: – Peço desculpa pelo atraso, fiquei retido na ponte.

Aurora: – Por que razão nos marcou as consultas todas para a mesma hora?

O médico olha os pacientes, um por um, e encolhe os ombros.

FIM

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