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Aqui no Montijo...

Aqui no Montijo...

02.Fev.20

Béla Tarr

Faz vento e muito frio, mas nada que me impeça de sair de casa para ir tomar o pequeno-almoço à pastelaria.

Mal chego à rua, puxo pela gola do casaco, arrepiado, e, seduzido pela luz baça desta manhã de inverno, decido-me a fazer um pequeno desvio; contorno o parque e registo, num movimento contínuo, os canteiros de flores, a resiliência das árvores (quase nuas), o cascalho do chão e os passos apressados das pessoas, quase ocultas por casacos grossos e cachecóis.  

Ando há vários anos a mudar de um emprego para outro e a tentar juntar dinheiro suficiente para comprar uma câmara e um par de lentes. Ainda não o consegui, mas, em compensação, já devo ter atingido número mínimo de downloads ilegais de filmes para poder ser preso. De que outro modo saberia já identificar os mais peculiares movimentos de câmara, enquadramentos e fotografias dos melhores realizadores de cinema? Porém, se a internet me sustenta o conhecimento artístico da sétima arte, os baixos salários dos empregos sem qualificação impõe-me uma visão cínica da vida. Por isso, receio que, se um dia conseguir comprar a câmara, poderei ser o primeiro a rejeitar os meus próprios filmes. Para já, hoje, limito-me a arrastar os pés enquanto caminho e observo um braço mais alto de vento a arrancar as fragilizadas folhas dos velhos plátanos do parque, fazendo-as rodopiar sobre a minha cabeça e baixando-as depois, repentinamente, à minha frente. Vem-me à memória uma cena do filme Satatango, sorrio ao fantasiar esta minha banal caminhada com um toque artístico de bom cinema.

O vento adianta-se aos meus passos, varre algumas das irrequietas folhas caídas dos plátanos e enche com elas o ar à minha volta, fazendo-me sentir como caminhasse dentro de um pisa-papéis de vidro, onde, em vez de neve, flutuassem folhas secas. É fantástico! A beleza deste momento é indescritível e, só por isso, a minha ridícula associação com qualquer filme de Béla Tarr desculpável.

«CRÉDITO AGRÍCOLA» leio à minha direita. Contínuo a caminhada. «85-32-C… volkswagen carocha… já não via um há imenso tempo! Porra que está frio!… » Levanto a cabeça «as laranjeiras estão cheias de rebentos… Gosto desta rua, percorrida por laranjeiras…» – Foda-se! – murmuro ao tropeçar nos próprios passos.

Ao entrar na pastelaria, por uma das suas três portas, dou de caras com os primeiros clientes, que chegam ensonados e pouco dispostos ao contacto visual. Talvez seja demasiado cedo para um sábado, penso. Há homens debruçados sobre os jornais… «MATA A MULHER E FERE A SOGRA…»  e mulheres a percorrerem mensagens nos telemóveis.

Avanço devagar e observo os clientes que transportam os tabuleiros do balcão para as mesas, em silêncio, e, em silêncio, dividem as chávenas e os pires antes de se atirarem sobre as cadeiras... «Isto poderia ser um filme mudo... tivesse eu uma câmara! Não tenho, mas também não consigo desviar os olhos desta gente. Ao contrário do vento e das folhas dos plátanos, estas pessoas são como as personagens de Béla Tarr, tão desprovidas de interesse que me despertam demasiado a atenção!». Finjo procurar alguém, para continuar a observá-las a deglutir os primeiros goles de café com inexplicáveis esgares de esforço.

De entre todos os olhares ausentes e rugas de pequenas dores sobre as mesas, deparo-me com a expressão indignada de uma mulher que tem o queixo sobre uma chávena de café com leite (segura numa concha de unhas de gel) e olha para lá dos vidros da pastelaria. Fico com a ideia de que a conheço ou, pelo menos, de que já ouvi falar dela; é provavelmente alguém que se separou recentemente, mas só o dou por certo quando identifico o seu companheiro como o ex-melhor amigo do seu ex-marido. Ele parece ignorar a sua comoção, avalio-o pelo modo como levanta a chávena e bebe com deleite: «Humm, está quente!» quase consigo ouvir o seu pensamento. «Gosto do café assim, quente, sobretudo quando faz tanto frio». Vejo-o levantar os olhos e descobrir finalmente a amante. Esta murmura-lhe qualquer coisa e ele segue-lhe o olhar até à rua. Sigo-os também:

Do outro lado do vidro há alguém sentado na esplanada. «Realmente…» concordo apressado, «com esta ventania é no mínimo inusitado, para não dizer extravagante alguém se sentar na esplanada».

«PARABÉNS» leio num dos bolos expostos no frigorífico quando me dirijo ao balcão. O bolo tem forma ridícula de campo de futebol e eu não comeria uma única fatia dele, porque «o verde do relvado parece mesmo ter farripas de relva!». Chego à caixa de pré-pagamento:

– Bom dia, senhor Júlio. Está bom?

O senhor Júlio está bom e com um grau de confiança acima do razoável, porque se arrisca a debitar-me um croissant, um abatanado pingado e uma garrafa de água, como sempre, quando hoje me apetecia comer outra coisa menos doce, embora não saiba o quê. Atiro os olhos para a montra enquanto levanto a mão e o detenho com uma das minhas habituais indecisões: – Espere! Espere um pouco, que hoje quero comer outra coisa!

Constato que disponho de todo o tipo de bolos e há apenas uma pessoa na fila, atrás de mim. Percorro as prateleiras, mas não me consigo decidir. «Talvez opte por uma torrada» proponho-me. Pouco depois saio do balcão com o croissant, a água mineral e o abatanado, decidido a usar apenas metade do pacote de açúcar, tal como o senhor Júlio me sugeriu com simplicidade, quando a fila atrás de mim já tinha crescido para cinco pessoas de espera.

Pelo canto do olho, vejo que a mulher das unhas de gel continua a olhar para a esplanada e a murmurar para o amante. De repente sorri com uma expressão de escárnio.

Lá fora (vejo agora, de onde me encontro) está um homem de costas para nós e ao seu lado um pequeno cão empoleirado na cadeira, que ele vai mimando com pedaços de bolo. Está, portanto, explicada a sua aparente estravagância: ainda não é permitida a entrada de cães na pastelaria «embora haja cá dentro, estou certo, pessoas que mordam mais!».

O amante da mulher com unhas de gel volta a baixar a cabeça e faz girar, com alguma apreensão, o resto do café na sua chávena, como se estivesse a ler o futuro do seu relacionamento nas borras…  Detenho-me e procuro, de imediato, uma mesa livre onde possa instalar os olhos e realizar o resto do meu pequeno filme, mas, porra, não encontro! Sinto-me ansioso e estúpido no meio da pastelaria, de pé, com o tabuleiro nas mãos, sem encontrar a mesa que necessito, e cruzo-me com a expressão preocupada do senhor Júlio, atrás da máquina registadora, que me aponta para a frente. Então, iluminado pela simplicidade com que ele, pouco antes, me resolveu o problema do excesso açúcar e me aponta agora para uma das várias mesas vagas, contrario-o. Rodo sobre os calcanhares e encaminho-me corajosamente para a porta. Abro-a com alguma dificuldade e resisto a uma rajada vento frio pelo rosto, enquanto protejo o croissant com o corpo e, orgulhoso de mim mesmo, pouso desajeitadamente o tabuleiro à frente do cão:

– Posso? – murmuro na direção do homem.

Surpreendido, ele sorri. «É a primeira pessoa que vejo sorrir esta manhã». Depois detém o cão com um pequeno gesto, impedindo-o de se aproximar do meu croissant. Quando me apercebo de que vai finalmente responder-me, puxo, de novo, a gola do casaco e olho para dentro da pastelaria, à procura da mulher das unhas de gel e do ex-melhor amigo deste meu companheiro de mesa. Não os consigo registar com a mesma beleza fotográfica de Bela Tarr (foda-se, tivesse eu a merda de uma câmara!), mas nem isso me tira o prazer de memorizar a patética expressão dos dois.