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Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir daqui

Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir daqui

20.Jul.19

Tempos modernos

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Montijo

A chefe de copa da pastelaria Mimosa, uma mulher baixa e rechonchuda, empinou-se nas pontas dos pés para espreitar pela janela ocular da porta e observar um homem parado no meio da sala, segurando desconfortavelmente o tabuleiro negro com um abatanado pingado e o croissant com queijo que ela mesma confecionara. Iria levar algum tempo até as pessoas se habituarem à extinção do serviço de mesa, pensou.

João Maria percorreu a sala com um olhar suplicante, detendo-se no rosto de um sujeito de fato e gravata (que devia trabalhar na imobiliária em frente) mas este virou-lhe ostensivamente a cara. Tinha o café a esfriar e, embora algumas pessoas o olhassem com a dissimulada curiosidade de quem passa por um acidente na estrada, ninguém o convidava a sentar-se à sua mesa. Respirou fundo e voltou-se para as costas largas e redondas de outro cliente. Observou-lhe os refegos do pescoço e elegeu-o. “Se há olhos que nos intimidam, há nucas nos encorajam”, considerou. Aproximou-se. Pousou o tabuleiro na mesa, empurrando ligeiramente o do homem, que apenas continha uma chávena de café vazia.

– Dá licença que me sente?

– Estou… à espera de uma pessoa – balbuciou o outro.

– Como rapidamente, limpo as migalhas da mesa e desapareço antes da sua amiga chegar.

O homem tinha uma pele clara e levemente alaranjada, pelo que devia ser ruivo muito embora tivesse o cabelo acastanhado. Levantou o braço e autorizou João Maria a sentar-se.

Os gordos esboçam os seus gestos com maior elegância e suavidade do que os outros, registou João Maria.

– Com licença – soltou. Adoçou o café com leite e bebeu o primeiro gole de seguida. Depois atacou o croissant, exatamente conforme tinha prometido.

– Como sabe que estou à espera de uma amiga? – perguntou-lhe o gordo.

João Maria reagiu com surpresa e encolheu os ombros:

– Às vezes a imaginação trai-me – desculpou-se.

 

Hama

A inquilina do 4º andar de um dos prédios sobreviventes ao grande bombardeamento, abriu a janela com um copo de café na mão e espreitou o aglomerado de pessoas na rua. Não tinha ouvido qualquer estrondo; talvez fosse um atropelamento. Bebeu um longo trago de café amargo. Havia vários dias que não conseguia encontrar açúcar e, para sua surpresa, era como se já estivesse habituada. Atentou nas vozes que lhe chegavam da rua, mas permaneceu alheia às palavras, bem como ao drama que aparentemente envolvia a carrinha onde comprara, semanas antes, uma camisola branca e preta, que ofereceu ao neto. Lá em baixo, uma mulher chorava desconsoladamente.

Também ela já havia perdido um filho na guerra e não tinha notícias da filha, viúva, que lhe confessara querer fugir para a Europa e levar-lhe o neto de três anos.

Atentou num repórter, provavelmente estrageiro, que fotografava exaustivamente a mulher a  chorar e todos quantos a amparavam. Reparou que a ambulância tinha as luzes de emergência ligadas e os socorristas se moviam em torno da maca, tentando imobilizar o corpo inerte de um rapazito. As pessoas que olhavam murmuravam entre si.

Depois de esgotar o seu interesse no atropelamento da criança, o repórter levantou os olhos e percorreu lentamente os prédios esburacados. Quando se apercebeu do olhar vazio da inquilina de um 4º andar, à janela, bebendo café, levantou a câmara e disparou várias vezes na sua direção.

 

Tóquio

Debaixo de um guarda chuva de nylon negro, um homem passou na rua, parou em frente da montra e espreitou sem muita convicção para o interior da pastelaria. Percorreu cada uma das mesas, depois o balcão, a empregada e por fim o teto. Só então se deu conta da jovem que o fitava descaradamente e se preparava para o enquadrar no visor do telemóvel. Intimidado, decidiu não entrar e prosseguir o caminho, deixando atrás de si uma monótona cortina de chuva.

A jovem era Saori e tinha saído de manhã cedo para tomar o pequeno almoço na sua pastelaria preferida da baixa de Tóquio, com os phones do telemóvel presos nos ouvidos, debitando a música de Reggae Au Go Jazz, álbum de Roy Burrowes, Clifford Jordan e Charles Davis, editado em 1998, ano em que nascera. Uma revelação, pensou, estimulada pela cafeína do capuccino que a empregada preparara de acordo com a sua orientação e que consistia em ½ de café expresso, ¼ de leite vaporizado e ¼ de espuma de leite vaporizado.

Pousou o telemóvel na mesa ao lado do copo, sobre migalhas de croissant, e lamentou não ter conseguido fotografar homem. Observou em redor, mas não encontrou qualquer ponto de interesse nas pessoas que a acompanhavam e que lhe pareciam incomensuravelmente distantes de si e da sua música. Tal como elas, nenhuma das suas amigas ouvia jazz. Jazz era um segredo seu, jazz e cappuccinos nas manhãs de fim de semana.

Encostou o copo aos lábios pintados e observou os transeuntes na rua abrigados em chapéus de chuva e um ou outro mais desprevenido, a correr ao longo do passeio, à frente da loja com grandes televisores. Pousou o copo marcado com batom e perscrutou o telemóvel para visitar os álbuns dos fotógrafos que seguia. Gostou especialmente de uma imagem em que a camisola de um clube de futebol parecia flutuar dentro de água. Entusiasmada, acionou a opção da câmara fotográfica, procurou um bom motivo no outro lado da estrada e fotografou. Depois ampliou, corrigiu o enquadramento, a cor e a exposição, escolheu um filtro e postou a imagem, satisfeita consigo mesma.

 

Mediterrâneo

Chiara, mulher do fotógrafo Enrico Costa, mergulhou ligeiramente o óculo em forma de balde na superfície azul da água e espreitou para o interior do mar. Instalado como um potente holofote por cima da sua cabeça, o sol ajudou-a a iluminar os múltiplos pequenos peixes que nadavam aleatoriamente debaixo do bote. Recolheu o óculo e fez um sinal de aprovação com o polegar na direção do marido, que já preparava a câmara fotográfica, depois de verificar a botija de oxigénio.

Três dias antes tinha havido borrasca naquela região, mas hoje o mar apresentava-se calmo, levemente ondulado, com uma tonalidade azul-turquesa. Um bom dia para fotografar as paisagens lunares do fundo do mar, os peixes coloridos e, se tivesse essa sorte, alguns corais; embora o seu sonho (não tão secreto quanto isso) fosse descobrir artefactos romanos. Levantou a mão na direção de Chiara e mergulhou de costas.

A mulher permaneceu no barco. A insistência do marido naquela região entediava-a e, por isso, era já a segunda vez que não mergulhava com ele. Colocou na cabeça um chapéu de aba larga, abriu a garrafa-termo com café e entornou uma porção para a tampa. Bebeu, olhou a linha do horizonte e refugiou-se no ecrã do telemóvel. Uma miúda japonesa tinha postado a curiosa fotografia de um homem parado num passeio, sob chuva, a olhar para um enorme ecrã de televisão que mostrava o que pareciam ser os destroços de um barco de refugiados e o corpo inanimado de uma criança em tronco nu. Agoniada, Chiara fechou a aplicação.

Tinham passado dois anos depois de uma tempestade particularmente revolta em que Enrico mergulhara ali com a mulher para fazerem algumas fotografias e acabaram por encontrar uma estatueta romana e alguns outros artefactos, que iam desde moedas carcomidas a uma adaga romana, todos eles em muito mau estado de conservação, mas ainda assim um tesouro, pelo menos para ele, não para ela. Desde então Enrico insistia em voltar àquela zona.

Aproveitou o início do mergulho para fotografar o maior número de peixes, de modo a aproveitar a claridade da água e o jogo de penetração dos raios solares e obter uma boa sequência de imagens. Depois foi descendo até ao fundo, onde a paisagem, ainda assim, apresentava uma grande profundidade de campo e os peixes vagabundavam esgravatando, aqui e ali (tal como ele) o solo marinho.

Defraudado, na subida do regresso, identificou no contraluz esverdeado da superfície uma pequena camisola desportiva. Apontou a câmara e fotografou. Aproximou-se. Tratava-se, nem mais nem menos, de uma imitação contrafeita da camisola oficial da Juventus! Enrico sorriu com orgulho. Procurou um ângulo particularmente favorável e fez a melhor fotografia do mergulho. Aquela iria direitinha para o Instagram!

 

Montijo

A chefe de copa da pastelaria Mimosa voltou a empinar-se nas pontas dos pés para espreitar pela janela ocular. O movimento da sala tinha diminuído drasticamente, por isso, abriu a porta e saiu com um passo suave, quase elegante, para se colocar no lado de fora do balcão e pedir um café aos colegas. Estes saudaram-na com um largo sorriso. Entusiasmada, a chefe da copa girou sobre os calcanhares e dispôs-se a observar o que restava dos clientes, detendo-se na mesa onde um homem, solitário, rechonchudo e de pele clara, levemente alaranjada, deslizava o dedo pelo ecrã do telemóvel e lia um pequeno artigo por baixo da imagem de um edifício arruinado, completamente picado pelo impacto das balas, onde uma mulher encostada à janela fixava diretamente a câmara com o olhar vazio e uma caneca esquecida na mão.