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Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir daqui

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O melhor da vida é... fugir daqui

22.Jun.19

A última pega

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Paulo Marques

Debruçou-se sobre a cerca e espreitou os touros pela lente da objetiva, detendo-se na escolha do enquadramento. Afastou a câmara e ergueu os olhos para o céu azul salpicado grosseiramente por nuvens de vários tamanhos e tons.

Tinham adormecido juntos, agarrados um ao outro. Uma noite fantástica, sem dúvida a melhor que alguma vez havia passado com qualquer mulher!

Pendurou a câmara ao pescoço e trepou a cerca, sem pressa. Um vento, demasiado frio para a temperatura quente que o sol emanava, soprou sobre a planície e varreu o imenso tapete de pasto à sua frente. Um dos touros, ainda longe, levantou a cabeça e observou-o sem interesse, convidando-o a aventurar-se.

Por mais que se esforçasse (e havia-se esforçado antes de adormecer) não conseguia imaginá-la a matar quem quer que fosse! Procurara-lho nos olhos, na textura da pele escura, no desenho expressivo do rosto, no cabelo encarapinhado, nos dentes brancos, nos seios redondos e firmes, na cintura fina, no ventre macio, nas ancas duras... e não o encontrara! Não o encontrara!

Ela revelara-lhe, um por um, todos os seus crimes, sem os justificar (e fora melhor assim) pausadamente, sem se perder em pormenores, mas também sem lhe evitar o choque das suas palavras impressivas, o horror da descrição quase pulsátil do sangue jorrando das artérias; petrificando-o sob o seu olhar sereno e a envolvência da voz, enquanto lhe jurava que não o voltaria a fazer, que não haveriam mais mortes na sua vida. Quando terminou, ficou simplesmente a olhar para ele.

Então, por mais que se esforçasse, não conseguiu imaginá-la a matar, embora tivesse a clara consciência de que, se ela decidisse degolá-lo naquele instante, não lhe esboçaria qualquer gesto de resistência.

Aurora deixava-o excitado como nenhuma outra mulher. Consciente disso, ela pediu-lhe que a apertasse nos braços com toda a sua força.

Apertou-a! Prendeu-a! E percebeu, ao penetrá-la, que o mais pequeno erro lhe poderia ser fatal.

Levantou a câmara, focou e disparou. Aproximou-se e disparou de novo, caminhando cautelosamente de encontro à manada. Nunca sentia medo dos touros. Avançava e disparava como se fosse um deles, confuso por não conseguir recordar-se de toda a sua noite com Aurora. Não se lembrava de si sobre ela, não se lembrava de si dentro dela. Não se lembrava do tato, dos movimentos. Não se lembrava dela sob o seu corpo. Depois das suas palavras, não se lembrava de mais nada que não fosse o momento explosivo, convulsivo, que o atirara para o lado e deixara sem sentidos até àquela manhã, quando acordou e a olhou serena no seu imperturbável sono e a presenciou assustadoramente fascinante, consciente de que a poderia agarrar todas as noites com toda a força dos seus braços, mas que nunca a conseguiria deter, nem evitar de ser arrastado por ela.

Levantou-se sub-repticiamente e vestiu-se. Pegou na câmara fotográfica e saiu para conduzir até à lezíria, porque ali, no quarto dela, por mais que a olhasse nunca conseguiria ver o rasto de mortes que ela lhe relatara e ameaçavam, naquela manhã, fazer dele seu cúmplice.

Encontrava-se agora demasiado perto da manada. Estacou. Percebeu que, nas suas costas, alguém o chamava e que esse alguém só podia ser Aurora. Não se voltou. Pendurou a câmara no pescoço e levou instintivamente as mãos à cintura, desafiando todos os touros. A ideia de os enfrentar à frente dela, era uma maneira absurda de lhe provar que não podia ter o controlo absoluto sobre ele e que se podia vingar dela de um modo quase tão excitante quanto o relato que lhe ouvira na última noite. Sim, era uma ideia absurda, mas fazia-lhe sentido.

 

Aurora

Esperou que ele saísse e só depois abriu os olhos, como se lhe quisesse dar a oportunidade de não o fazer. Depois, sentou-se num só gesto, bocejou e afastou o lençol de si. Estava nua. Espreguiçou-se, palpou cuidadosamente as mamas, segurando-as em ambas as mãos. Compôs um sorriso.

Ele tinha percebido tudo o que se havia passado no Mónaco pela porcaria do artigo da revista e pelo isqueiro que ela estupidamente insistiu em trazer consigo como troféu. Por isso, perguntou-lhe:

– O que é que aconteceu por lá?

 “As melhores perguntas que podemos fazer são as que, para as quais, já sabemos a resposta”. Lembrava-se Aurora de ter lido algures, e Paulo Marques sabia a resposta àquela pergunta, o que não suspeitara era que pudesse não apenas confirmar as suas suspeitas, mas também desencadear o processo emocional em Aurora, que a fez expor todos os outros corpos ignorados pela revista. Na verdade, até começar a falar-lhe sobre o homicídio do Mónaco, Aurora não estava decidida a contar tudo o que havia feito, mas apenas a parar de o fazer.

Desde a sua primeira vítima, sempre que cometia um novo homicídio, prometia a si mesma que seria o último. Depois chorava. Ficava deprimida durante vários dias, e só com muita dificuldade conseguia recuperar o humor, a empatia com os outros e a rotina simples da sua vida. Nessas alturas, ajudava-a visitar o irmão, falar com a cunhada e brincar com a sobrinha. Invejava-os, mas, sobretudo, gostava de passear com a miúda, de lhe comprar doces, de lhe dar a mão, de trazê-la ao colo para casa, cansada. Depois de estar com ela, as pessoas tornavam-se suportáveis, os dias faziam sentido, a escrita saia-lhe mais fluente e o sorriso era fácil.

A tentação de confessar o homicídio do Mónaco a Paulo Marques, se no princípio a assustou ao ponto de esconder para o amante, um pequeno bisturi no fundo carteira, a verdade é que, quase insidiosamente, esse medo foi-se transformando em desejo, e esse desejo foi crescendo na sua cabeça, até se tornar um misto de necessidade, risco e excitação, ao ponto de, na última noite, decidir falar.

Falou com calma, respeitando as pausas, exatamente como se estivesse a escrever, mas, exatamente como escrevia, não conseguiu deter-se e prosseguiu até se libertar de todos os outros corpos. E ele ouviu-a em silêncio, apesar do visível esforço. No fim fizeram amor tão intensamente como nunca antes. Mas agora, ao acordar, percebeu que alguma coisa não estava bem, semicerrou os olhos e deixou-o levantar-se e ir embora, levando consigo a merda da câmara fotográfica!

Talvez o tivesse assustado ao ponto de fazê-lo fugir, pensou. Estava irritada consigo, mais do que desiludida com ele, de quem o instinto lhe repetia que não era homem para fugir, mas sim de se vingar! Precisamente o que ela temia. Não lhe contara ele como arrancara a orelha de um pederasta em defesa, inútil, de uma prostituta? E não lhe contara como suportara a prisão e se hospedara uma semana inteira num prostíbulo? Sim. Alguns dias antes também ele lhe contara tudo. Também ele se confessara, revelando o quanto a odiara pelo facto de o ter repelido, ao ponto de a substituir por uma prostituta, arrancar a orelha ao pederasta, suportado seis meses de prisão e mais sete dias de prostíbulo! Confessara-lhe tudo isso e não necessitara de jurar-lhe (ainda bem que não o fizera) que tudo não fora mais do que uma vingança contra ela, e isso, mais do que uma prova de amor, fora um convite à sua verdade, à sua confissão!

Vestiu-se, passou água pela cara, compôs o cabelo.

Quando encheu o termo, respirou os vapores quentes do café e sentiu a primeira náusea da manhã, acompanhada de uma sensação de fraqueza nas pernas. Amparou-se à mesa da cozinha, abriu um pacote de biscoitos, mas não os conseguiu comer. Olhou em redor, agarrou a carteira, apertou-a decididamente na mão e palpou-lhe o bisturi escondido no fundo. Tirou-o e atirou-o para o fundo da gaveta, como se quisesse afastar a tentação de o usar. Depois saiu para a rua e conduziu em direção da lezíria, com as janelas abertas e o vento (inusitadamente frio) a bater-lhe na cara. Passou a Ponte das enguias e o Campo de tiro de Alcochete antes de começar a esquadrinhar a planície, onde Paulo Marques costumava fotografar os touros. À sua esquerda observou os enormes fardos de palha dourada destinados à alimentação do gado, por entre pequenas casas em ruínas, e como que guardados por uma densa cortina de árvores a sucederem-se encostadas umas às outras. A dinâmica vertiginosa das imagens fê-la sentir-se enjoada ao ponto de quase vomitar sobre o volante. Voltou o rosto para o outro lado e desacelerou até encontrar o primeiro gado disperso. Mais à frente viu o carro dele. Travou! Saiu com o termo na mão e esquadrinhou em redor até se deparar com uma pequena manada de touros e as costas firmes de Paulo. Hesitou em chamá-lo, porque se o fizesse poderia desencadear uma investida dos touros. Havia qualquer coisa de digno, de respeitoso, no modo arrojado como ele enfrentava os cornos da manada e avançava passo a passo, com a câmara, sem receio. Agarrou-se à cerca, extasiada. Apertou-a e sentiu-se tentada a deixá-lo levar até ao fim aquela dramática reunião, mas uma nova vertigem percorreu-lhe o corpo e deixou-a debilitada. Susteve um vómito e decidiu chamá-lo, quase num murmúrio, pois tinha decidido que não queria perdê-lo quando tirou bisturi do fundo da carteira.

– Paulo…

Baixou a cabeça. Atirou o termo do café para o chão e, cambaleante, abriu as pernas e vomitou.

– Paulo! – chamou-o.

Uma onda de alarme percorreu toda a manada. O ex-forcado hesitou e ao som da voz da sua voz.

De longe, Aurora esboçou um sorriso triste, desiludida com ele.

– Estou grávida! – gritou com dificuldade em conseguir deter o acesso dos vómitos. Um dos animais, o mais possante, saiu da manada e avançou ao encontro de Paulo. Com um movimento lento, o ex-forcado ofereceu-lhe e encarou Aurora, com a câmara a balouçar sob o pescoço.

Sempre admirara aquele gesto gracioso dos forcados quando decidem ignorar o perigo, pensou Aurora. Limpou a boca com as costas das mãos e abriu os braços. Sim, era um gesto de enorme coragem, que deixava os touros pregados ao solo e os obrigava a consentir que alguém, que lhe era muito mais fraco, se afastasse com dignidade. Exatamente como naquele instante, até Aurora bater as palmas das mãos e gritar com quanta força tinha.

Fim