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Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir daqui

Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir daqui

10.Mar.19

A preto e branco

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Ela tinha vindo visitar-me.

Sentámo-nos frente a frente. Sorriu. Um sorriso estúpido, sem razão, que me fez sentir falta da câmara.

– Como está o teu braço? – perguntou-me.

Alguns meses atrás, um conhecido abordara-me à mesa da Mimosa:

– Queres comprar uma Canon AE-1?

– Por quanto? – perguntei.

Mas por que raio compraria uma câmara analógica se tinha “esquecida” numa gaveta, outra, digital, que não usava?

Comprei. Comprei a Canon AE-1 na sua versão prateada. Uma câmara muito bonita, de facto. Trazia dentro um filme de 3200 iso, para exposição noturna – informou-me o meu amigo.

– Nunca o cheguei a usar... talvez ainda esteja bom.

Pior do que comprar uma câmara fotográfica analógica usada, teria sido guardá-la ao lado da digital e não chegar a usá-la. Por isso, nessa mesma noite, depois de rever os meus parcos conceitos fotográficos, saí para a rua e apontei para tudo, todavia, sem me decidir a disparar uma única vez, pois a consciência de possuir apenas as 36 oportunidades do rolo (e não a quase inesgotável memória de um cartão digital) inibisse de me aventurar. O que é uma boa fotografia (interrogo-me agora, a propósito) a que se faz na câmara? A que se "trabalha" no ecrã do computador ou a que mais nos surpreende de entre todas as que recebemos no envelope ao balcão de um estúdio de revelação?

Uma película de 3200 iso consegue captar numa madrugada o que nos nossos olhos não vêm, quando todas as cores estão convertidas numa densa escala de cinzentos e os ouvidos ampliam dos nossos passos silenciosos uma ruidosa marcha, que nos persegue por todas as ruas vazias.

Impus-me ultrapassar a cobardia da mediocridade e desbaratar primeira das 36 oportunidades do rolo; apontei inexplicavelmente a uma porta. Foquei. Escolhi a velocidade, adaptei a abertura e segurei a câmara com firmeza. Na realidade, a porta não merecia a escolha. Hesitei uma vez mais. Recuei um passo, voltei a focar e, de repente ela  abriu-se. Disparei instintivamente. Uma, duas, três vezes. A mulher olhou-me, surpreendida, antes de se tornar agressiva.

– Que é que se passa? – perguntou-me.

– Ando a tirar fotografias... – desculpei-me.

– A mim?

– Bom… você apareceu-me à frente...

– Apague lá essa merda!

– Não posso, estou a usar um rolo.

– Um rolo? Mas quem é que ainda usa rolos?

Não lhe respondi. Obviamente não lhe poderia responder que os verdadeiros fotógrafos ainda usavam rolos, porque eu não era um verdadeiro fotógrafo.

– Dê-me o rolo!

Recusei-me.

Ela riu-se. Eu apontei e disparei sequencialmente até ela levantar a mão e avançar para mim verdadeiramente irritada:

– Pare lá com isso, porra!

Parei. Emalei a câmara à sua frente e encarei-a. Para minha surpresa parecia cansada.

– Onde é que ainda se pode beber um café nesta terra?

– Há uma máquina, no cimo da rua da Mimosa – lembrei-me.

– Pois há…

Bebemos por dois copos de papel, sentados num pequeno banco. Estava frio àquela hora.

– O que é que fazes na vida? – perguntou-me, segurando o copo com as duas mãos.

– Tenho uma loja de tintas que herdei do meu pai. É isso que faço.

Ela abanou a cabeça.

– Que é que foi? – devolvi.

– Não tens ar de vendedor de tintas.

– Fui forcado até há pouco tempo, depois o meu pai morreu e eu fiquei velho para as touradas.

– E mulheres?

Sorri.

– Conheci uma que me deu que pensar, mas…

– Mas… – insistiu ela.

– Aconselhou-me a esquecê-la. Uma mulher negra, lindíssima…

– Por que é que te aconselhou a esquecê-la?

Encolhi os ombros.

– Tenho uma colega africana – disse-me. – Se estiveres interessado…

Achei a sugestão inicialmente disparatada, mas acabei por a compreender. Ainda assim, quis ouvir a confirmação pela sua própria boca:

– E você, o que é que faz?

– Deixa-te de merdas!

Revi a porta, que pouco antes tentara fotografar, como se olhasse já para fotografia ainda não revelada. Revi o movimento circular da abertura e, de novo, os olhos espantados da mulher que acabava agora de beber um café ao meu lado.

– Desculpe.

Ela sorriu para me garantir que não tinha importância.

– Gosto que me tratem por você – disse-me. – É bom sentir o respeito dos outros… – Olhou para o céu negro e resolveu começar a mentir-me: – Chamo-me "Vanessa".

Fingi acreditar.

– De qualquer modo – contrariei-a. – Não vou destruir o rolo.

Vanessa voltou a sorrir e olhou-me fixamente:

– Não faz mal. Afinal de contas acabas-te de dar algum sentido a esta noite.

Calamo-nos durante um longo tempo, como que para avaliarmos a situação e ponderarmos, na mesma hipótese, esperando, cada um, que o outro se adiantasse a propô-la. Por fim, levantei-me:

– Vem!

Ela abanou a cabeça:

– Não. Hoje não trabalho mais.

– Posso desligar a luz do quarto e usar o que me resta do rolo até o dia nascer – disse (mais para mim do que para ela). – Não tem que fazer mais do que dormir.

Foi assim, a nossa primeira noite e, para dizer a verdade, as outras acabaram por não ser sempre muito diferentes, até que o homem para quem ela trabalhava veio a saber de mim e a proibiu de me ver.

– Ele não manda em mim! – garantiu-me. – E não vai voltar a bater-me.

Esfreguei o queixo em silêncio e deixei-a falar. Peguei na máquina, apontei-lha e fotografei, uma vez mais, contra a sua vontade. Acho que foi o meu modo de lhe bater também.

– Para com isso!

Parei.

– Por que razão não quer que nos vejamos?

– Talvez tenha ciúmes! – disse a rir-se. Ambos sabíamos que também não era verdade. De qualquer modo não consegui achar piada à sua estúpida sugestão. Talvez por isso ela reconsiderasse: – Tem receio que me apaixone por ti e que… – de repente pareceu faltar-lhe coragem para terminar a frase.

– E que deixes de te prostituíres para ele – completei.

– Receio por ti – disse-me.

– Queres deixar de me ver?

Ela abanou a cabeça.

– Por quê? – voltei a sentir vontade de lhe bater.

– Gosto que me fotografes – mentiu-me de novo.

Levantei a câmara, apontei-lha ao rosto, e quando ela começou a chorar disparei, uma duas, três vezes… até esconder o rosto nas mãos e soluçar. Mas eu estava determinado a ir até ao fim e continuei a fotografá-la. Determinei que não nos voltássemos a encontrar.

Comprei um rolo para fotografia a cores e, aos fins-de-semana, comecei a correr junto ao rio e a fotografar os flamingos. Não sabia que haviam tantos flamingos no Montijo!

Uma noite, já de madrugada, tocou-me à campainha como se se tivesse esquecido que de lhe ordenara para que não o fizesse. Espreitei pelo óculo e fiquei simplesmente a vê-la, sem me mexer. Ela ergueu os olhos para o óculo e murmurou:

– Ele não queria que deixar-me sair…

Percebi que lutara para fugir. Abri a porta.

– Ameaçou vender-me a um tipo do Algarve – disse e choramingou.

As suas palavras deixaram-me chocado.

– Tu receias por mim… – murmurei. – Eu receio por ti…

– E ele receia que me apaixone e largue… a vida de puta -- completou ela.

Deixei-a entrar.

– Ele não pode fazer-me mal, só teria a perder com isso.

– E o tal tipo do Algarve? – insisti. – Existe?

 Consentiu com um gesto antes de falar:

– Por isso hesitei em vir.

– Mas vieste! – observei-lhe.

– Na minha vida mando eu!

Sorri.

Deixei-a adormecer, coloquei um novo rolo na câmara, puxei película até ao primeiro fotograma e apontei para a cama. Costumava fotografá-la quase em plena escuridão, enquadrando-a pelo tato, pela respiração, pelo calor do seu corpo e, sempre que terminava o rolo, ficava ansioso, à espera de ver as fotografias para ficar a saber o que tinha feito, sobretudo, por causa das suas imagens. Era surpreendente, alguns dias mais tarde, descobrir o modo como ela dormira na minha cama. E era bonita a dormir. Era bonita a sorrir. Era, até, muito bonita a chorar.

Nessa noite não a fotografei. Em vez disso, fiquei às escuras, ouvindo-a simplesmente respirar e virar-se para um lado e para o outro, enquanto eu ia congeminando imagens absurdas sem enquadramento.

Nunca tivera, desde a nossa primeira noite, o desejo de ficar consigo para sempre, mas, naquela noite, fiquei a saber, igualmente, que não iríamos continuar a dormir juntos.

Quando ela acordou, tomámos café, depois deixei-a ir para a sua casa e fazer não sei o quê, talvez esperar pela noite, para voltar para o mesmo proxeneta que ameaçava vendê-la a um tipo do Algarve se nos continuássemos a encontrar.

– O meu braço está bom. Obrigado – respondi-lhe quando me veio visitar. Omiti-lhe que iria ficar com mais uma cicatriz.

A pega mais difícil que realizei na minha carreira de forcado não me levou trinta segundos, mas magoou-me por mais de dois meses. Eu tinha, desde então, trinta segundos à frente de um touro, não sei quantos pelo ar, uma semana numa cama de hospital e mais quatro de convalescença, gravados numa outra cicatriz, no abdómen direito. Se havia coisas de que me orgulhava ter feito na vida, estupidez à parte, fora aquela cicatriz! No entanto, também não me arrependia da do braço.

Depois dessa última noite em que dormimos juntos, gastei os três rolos nas seguintes, vagueando por todas as ruas do Montijo, após o que arrumei a câmara na gaveta, junto da digital e e esperei pot uma boa madrugada para sair para a rua. Pouco antes do amanhecer voltei a vê-la abrir a mesma porta onde a havia fotografado pela a primeira vez. Enchi o peito e avancei. Ela deu um passo em frente e outro para o lado, antes de abanar a cabeça e estacar. Vi sair o proxeneta. Parei. Com ele saíram mais duas mulheres, uma africana (nada parecida com Aurora!) e a outra branca, não mais do que adolescente. Dei um passo, depois outro e outro, como se tivesse voltado à arena. A falsa Vanessa encolheu-se quando a agarrei, puxei e beijei-a na boca. Segurei-a firmemente sem qualquer resistência da sua parte. Subitamente senti um murro nas costas, mas, para quem tinha sobrevivido a centenas de derrotes, aquele era apenas mais um. De qualquer modo, larguei a Vanessa para poder enfrentar o seu proxeneta; não a tempo de evitar o seu punho, que me esmagou o lábio inferior. Foi, porém, o desequilíbrio da sua investida que me permitiu precipitar e agarrá-lo pela a cabeça, obrigando-o a curvar-se. Cruzei os braços sobre o seu pescoço e apertei-o pela garganta, comprimindo-lhe as carótidas, as jugulares, e a traqueia, tudo no mesmo abraço taurino. Senti o sabor do meu sangue na boca ao mesmo tempo que ele desfalecia e as mulheres gritavam à minha volta. A sua força extinguia-se inexoravelmente. Decidi apertá-lo um pouco mais antes de lhe começar a bater. Foi então que a adolescente se atirou a mim e cravou-me os dentes no braço, fazendo-me recolhê-lo instintivamente.

O proxeneta sentiu-se livre, estrebuchou e sacudiu-se procurando libertar-se. Embora o braço esquerdo me doesse, continuei a segurá-lo com a mão direita ele conseguir libertar-se com um safanão.

Levantei a cabeça e vi Vanessa a olhar para mim, estupefacta, sem se mexer, enquanto o homem se afastava, cambaleando, a gemer, com a mão ensanguentada sobre o ouvido e eu segurava estupiodamente a sua orelha nos dedos.

– Seis meses passam depressa – disse ela na visita, para me confortar.

Concordei com um gesto.

– Decidi ir para o Algarve – mentiu.

Voltei a concordar, sem palavras.

– Será melhor não continuarmos a viver na mesma cidade… – riu-se tristemente. – Mas vou porque quero, não porque me deixe vender… – mentiu-me pela última vez.

– Caro – murmurei.

– Vou trocar com uma miúda de lá. Vai fazer-me bem ver caras novas.

Há momentos em que uma fotografia a preto e branco faz mais sentido do que quaisquer palavras, quaisquer gestos. Aquele era um deles. Foda-se, como me teria dado jeito qualquer uma das minhas câmaras!