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Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir daqui

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18.Fev.18

O medo e as ondas da Nazaré (A celebração de Markino - parte III)

Sigo as coordenadas do GPS e estaciono no local que Adélia me indicou. O mar sopra-me na cara um vento frio e húmido, agitando-me as tranças; puxo a gola do casaco e rodo ligeiramente sobre os calcanhares até vislumbrar o seu vulto, sentado e embrulhado numa manta. Resignada, dou graças por ter calçado botas e caminho sobre a areia.

― Senta-te! ― murmura-me quando chego perto.

Passo por detrás de uma prancha, desdobro a manta que me espera no outro lado e obedeço-lhe. Embora haja uma razoável extensão de praia a separar-nos do mar revoltoso não é suficiente para me sentir segura. Cubro-me com a manta e espero que me explique a razão do nosso encontro, sem perder de vista as portentosas paredes de água que se elevam do oceano, galgam umas por cima das outras, e investem na nossa direção, abatendo-se como monstros impiedosos.

A voz suave de Adélia soa-me demasiado falsa de tão alheia à incomensurável energia que se liberta sob os nossos olhos e parece contaminar o próprio ar que respiramos. Como é possível que não sinta esta a minha inquietação, este terror de que uma onda não se detenha na rebentação e nos venha aqui engolir?

Puxo a manta para o pescoço e refugio-me no farol lotado de turistas, fotógrafos e curiosos, que vieram admirar o canhão da nazaré e a fenomenal formação das gigantes.

― Depois de adoecer ― ouço-a e apuro o ouvido por entre os rugidos do oceano. ― Perdi o controlo da minha vida ― olha-me, abre a manta e esconde momentaneamente o rosto lá dentro.

Surpreende-me a sua revelação, que contradiz em tudo o que penso dela.

― Conheci o teu irmão no início do meu tratamento ― diz e sorri como se tivesse acabado de me contar uma piada... Não. Não estou certa de que a sua expressão resulte de um sorriso.

― Nesse dia, tinha vindo aqui para surfar, mas não consegui fazê-lo ― diz e cala-se subitamente, arrependida. ― Bom, não posso dizer que o tenha conhecido... ― ressalva. ― Mas acabámos a fazer amor no banco traseiro do meu carro ― encolhe o pescoço entre os ombros e reconsidera: ― Também não posso dizer que tenha sido amor...

Esta mulher fascina-me, e hoje mais do que nunca.

― Encontrava-me tão estupidificada pelo medo da doença e do tratamento que não lhe ofereci qualquer resistência.

Forço um sorriso de compreensão. A minha indomável curiosidade impede-me que lhe diga que o meu irmão me contou tudo.

― Entendo o descontrolo de que falas ― minto-lhe quase sem consciência de que o faço. ― E também o amor com o meu irmão.

Detém-se nos meus olhos, avalia-me e talvez fique satisfeita, porque se volta de novo para o mar e prossegue:

― O médico garantira-me que a quimioterapia seria um contracetivo tão ou mais eficaz do que a pílula e por isso deixei de a tomar, o que fazia ainda mais sentido, depois de me diagnosticarem o linfoma, porque não voltei a ter relações.

Somos duas mulheres sentadas na praia, separadas por uma prancha e embrulhadas, cada uma, em sua manta; a dela, azul, a minha, verde.

― Sempre fui saudável e, até essa altura, surfista de competição ― continua com uma calma que me inquieta cada vez mais. ― Qual era a probabilidade de adoecer, eu, que nunca tinha ouvido falar em linfoma?!

Não sei se me dirige a pergunta ou se se interroga a si mesma.

― Não era muito cuidadosa com a toma da pílula, se calhar porque nunca passei por qualquer sobressalto. Qual era a probabilidade de engravidar nesse dia?

Durante um longo instante permanecemos em silêncio; então sim, começo a entender o que antes me quis dizer com o descontrolo da sua vida.

― Sabes que há mais acidentes mortais relacionados com ondas gigantes do que com aeronaves? ― pergunta-me com os olhos atentos ao mar. ― A energia das ondas gigantes é tão imprevisível e poderosa que consegue rebentar o casco de um petroleiro, acredites ou não.

Constato a súbita mudança no rumo da conversa e volto a questionar-me sobre este nosso encontro. Olho a prancha entre nós e não consigo evitar desconforto.

― A meio do tratamento quando já era visível o volume do meu ventre e o incómodo do oncologista... ― cala-se de repente e observa comigo a formação de uma onda gigante, cuja parede se ergue até tomar proporções diluvianas. A massa de água, maior do que o prédio que agora habito, cresce até à sua própria exaustão e avança contra nós, ameaçadora, acabando por cair com violência e desfazer-se numa incomensurável nuvem de espuma. Ficamos à espera que as gotículas cuspidas pela explosão nos cheguem, e só depois Adélia continua: ― Aconselhou-me a abortar.

Limpo o sal da cara com a ponta da manta e pisco os olhos repetidamente.

― Chorei ― ouço-a. ― E deixei-o sentir-se culpado. Então, ameaçou-me com as malformações, os problemas cardíacos, renais, cerebrais... E parei, simplesmente, de chorar.

Nunca, durante o tratamento, a vi vacilar, por isso sinto-me chocada com a confissão!

― No meu lugar terias abortado? ― pergunta-me.

― Provavelmente ― balbucio.

― Só o medo de morrer pode explicar-me porque não o fiz. Havia perdido a saúde, as ilusões, a energia, e ainda me ameaçavam a própria vida ― olha para a prancha. ― Creio que só me restava o medo e a gravidez.

Sorri. Sim, desta vez sei que sorri.

― A gravidez é, provavelmente, a mais forte expressão do nosso instinto de sobrevivência, por isso nenhuma das ameaças do oncologista me demoveram... ou simplesmente não consegui tomar uma decisão, o que, em si mesma, pode ter sido a decisão mais cobarde que já alguma vez tomei na vida. Felizmente que não me arrependo. Abre delicadamente a manta, volta a esconder a cara dentro dela e eu sinto-me estúpida por, até aquele instante, não ter entendido o que estamos aqui a fazer, com uma prancha de surf a separar-nos!

― Tens encontrado o meu irmão? ― pergunto sem saber como demovê-la.

― Tenho.

― Porquê?

― Porque ele é o pai da minha filha e eu não tenho coragem de lha negar ― ouço-a e não consigo evitar uma nova pergunta:

― Falaste-lhe deste encontro?

― Não.

― Porquê?

Fixa os olhos na rebentação e parece escolher nela as palavras:

― Tentaria demover-me ― sussurra com a voz mais calma e falsa do mundo. Agora sei que está em pânico. Agora sei que me enganou durante todo o tempo em que nos tornámos amigas!

― Receei que ele não entendesse que não tenho outro modo de recuperar o domínio da minha vida.

Observo-a e percebo (demasiado tarde!) que esconde os olhos no mar, à espera de ganhar coragem para o que vai fazer a seguir. Depois, destapa-se com cuidado, levanta-se e passa-me para os braços a sua filha envolta num xaile cor de rosa. Sorrio com nervosismo e aconchego-a ao meu peito, beijo-a e sinto as lágrimas aflorarem-me os olhos. Depois limito-me a seguir-lhe os movimentos cobertos com um fato de borracha negro. Pega na prancha, sacode-a, aconchega-a à anca e encaminha-se para a rebentação. Espera um pouco, hesita outro tanto e investe sobre as ondas com uma sabedoria que eu nunca hei de possuir. 

Perco-a na movimentação abrupta das correntes, na espuma encardida da rebentação, no sobe e desce da sua prancha e reencontro-a de novo, e de novo perco-a.

Nada sei sobre surf, apenas o que ela me falou durante as sessões de quimioterapia e que é suficiente para perceber que não devia escalar uma onda gigante a pulso, sem apoio de alguém com uma motorizada que a transportasse até à formação da onda e a pudesse socorrer depois, se fosse caso disso. Nadar sobre uma ondulação tão revolta exige um esforço físico monumental e ela não se preparou para tanto.

Não sou crente, mas disponho-me hipocritamente a reconsiderar e rezo a Deus para que lhe guarde forças que a permitam regressar, porque se não o conseguir, terei que viver o resto dos meus dias com o facto de não a ter impedido.

A menina remexe-se e choraminga. Baixo a cabeça e enfio a cara dentro da manta. Olho-a nos olhos. Tem um cheiro doce, íntimo. Interrogo-me sobre o que faria se de repente tivesse que ficar com ela para sempre e sinto um medo insuportável. Levanto a cabeça com desespero e procuro Adélia.

Conto as ondas até chegar a sete e volto ao início. Mais sete e recomeço, mais sete e vejo-a sob a crista de uma gigante! Porra, temo que caia! E o medo é tão grande que rogo a todos os deuses (e sobretudo Poseidon!) para que a onda que ela escolheu não se detenha na rebentação e a traga sã e salva até aqui, para me tirar depressa a sua filha dos meus braços!