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Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir daqui

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29.Out.17

A batata da verdade (O efeito das borboletas - parte II)

Aos sábados, no outono, gosto das manhãs cinzentas. Sempre que amanhece assim, levanto-me e espreito pela janela do quarto o manto esfarrapado da neblina sobre as copas das árvores, no parque, e vem-me à memória, sei lá de onde, um irrequieto aroma de café com croissant. Então, lavo-me à pressa e, mais do que me pentear com os dedos, sacudo o cabelo ainda húmido, coloco a trela na cadela e saímos para a rua, satisfeitos. Nestas manhãs deixo-a escolher o caminho, mesmo que me queira levar, como hoje, pela distante margem ribeirinha.
Depois de atravessarmos a ponte baixámos a cabeça e passámos pelo doutor Alvarez, vestido com um fato de jogging. Para nossa sorte, seguia distraído, absorto em cogitações.
Já recorri aos seus serviços por duas vezes, a primeira depois de um bloqueio criativo que me levou quase à depressão, depois de terminar o meu quarto romance; quando, ao arrumar a única cópia impressa, me questionei sobre a futilidade da escrita. O doutor Alvarez explicou-me depois, na primeira consulta, que podemos perguntar tudo o que nos passar pela cabeça a qualquer pessoa, mas que há questões que não devemos colocar a nós mesmos, sob pena de nos arrependermos amargamente. De facto, não me foi fácil voltar a escrever, e se o consegui devo-o a ele, por ter-me aconselhado a diversificar o formato dos meus textos e sugerido que criasse um blog, para experimentar.
Da segunda vez que o consultei, por alturas do seu divórcio e do meu despedimento, aprendi a escutá-lo atentamente, talvez mais do que ele a mim, e a aproveitar algumas das suas inconfidências, que se me revelaram muito úteis, muito inspiradoras.
Ele foi para o lado do clube naval e eu aproveitei para caminhar na direção do moinho, onde, nas manhãs cinzentas de outono, eu e a minha cadela, aproveitamos para sentir as invisíveis gotículas de neblina gelada, enquanto observamos a paisagem plana e distante sobre a água plúmbea do Tejo. Depois, na volta, como dois ingratos, regressámos à pressa com a ideia fixa na esplanada da pastelaria e acelerámos o passo por entre os indefetíveis clientes do mercado da "reforma agrária", rumo à Mimosa.
― Bom dia ― saudou-nos o doutor Alvarez!
Parecia ter terminado a sua marcha de manutenção, embora não mostrasse qualquer sinal de esforço no semblante. Cumprimentei-o e tentei esquivar-me de novo, agora em vão. Ele baixou-se, fez uma festa no lombo da Amália e perguntou-me se ia para casa.
Respondi que sim.
O doutor Alvarez é psiquiatra e o convívio com psiquiatras não traz boa fama a ninguém, embora a sua má imagem não se deva à profissão, mas sim ao divórcio, durante o qual a mulher o acusara de “agressão psicológica”.
Porque sou uma pessoa educada, senti um assomo de dignidade e reconsiderei:
― Mas primeiro irei tomar o pequeno almoço.
― Nesse caso, faz-me companhia ― anunciou-me ele em forma de falso convite.
Aceitei resignado, disposto a tudo menos a prescindir do abatanado e do croissant.
Caminhámos juntos, falando de trivialidades. Quando me sentei à sua frente, na esplanada, avisou-me:
― Tenho pouco tempo... Agendei para hoje uma consulta com um jovem que sofre, veja lá bem, de uma patologia tão delicada quanto estranha.
― Ai sim? ― incentivei-o com um falso desinteresse. A minha última postagem datava de há três semanas e não fazia ideia de quando escreveria a próxima.
― Sofre de stress pós-traumático ― atirou-me. ― De baixo grau, é certo, mas exatamente como o dos soldados que regressam de teatros de guerra.
― Como é que desenvolveu a patologia? ― perguntei sem me conter.
― É jogador. Um gamer, se usarmos o termo dele. Há cinco anos que disputa, online, jogos de guerra.
― Não sabia que isso era possível... ― balbuciei.
― Oh, sim, é possível. Tudo é possível. Já pensei desenvolver um trabalho sobre estes casos...
«E eu também o estou a pensar» considerei para mim.
― A competição intensifica a vivência destes jogos, e alguns dos participantes, como o nosso jovem, absorvem quantidades tóxicas de stress.
― Vai ser difícil afastá-lo desse mundo virtual e trazê-lo de volta, suponho ― observei, enquanto decidia cinicamente o meu post.
― Oh, ele não é mais infeliz do que nós, não pretendo afastá-lo dos jogos. Dar-lhe-ei algumas ferramentas para se defender do stress, apenas.
― Mas... vai deixá-lo continuar a viver na fantasia?
O doutor Alvarez olhou-me nos olhos, como costumava fazer durante as nossas consultas. Depois sorriu:
― Talvez as fantasias não sejam apenas o que você imagina ― insinuou. ― Ninguém vive permanentemente na realidade, felizmente, direi eu. A realidade é uma experiência mínima do nosso dia a dia, e muitas vezes desagradável.
Fiz uma cara de espanto.
― Pensava não ser saudável alhearmo-nos da realidade ― contrapus. ― Afastarmo-nos das pessoas, dos acontecimentos do mundo, das notícias, da verdade!
― As pessoas? Os acontecimentos? As notícias? A verdade? ― repetiu-me o doutor Alvarez.
Dei um fiapo de croissant à Amália, deitada no meu colo, antes de voltar a enfrentá-lo:
― Sim… a realidade, as pessoas… como eu e o doutor.
― Será você exatamente quem se me dá a conhecer?
Olhei-o em silêncio e senti-me mal. Saberia do plágio das nossas conversas?
― E eu, serei exatamente quem você pensa?
― Não o estou a entender...
― Se não nos dermos a imagem real do que somos, induzir-nos-emos numa fantasia, percebe? E é o que toda a gente faz, a fantasia é a nossa vida! Repare ― pediu-me. ― Você ouve uma, digamos… notícia, e interpreta-a à sua maneira. Eu ouço a mesma notícia e faço outra interpretação. Qual de nós se aproximou mais da realidade, ou se quiser (o que é a mesma coisa) da verdade?
Mantive-me calado e confuso.
― Na realidade, somos peritos em construir múltiplas versões de uma só verdade, todas elas falsas.
― Isso quer dizer...
― Que a verdade é uma batata! No caso do meu paciente, parece-me mais importante que seja feliz, agora, aqui no Montijo, do que mudar o seu estilo de vida e sentir-se deprimido!
― Não consigo argumentar consigo, mas também não concordo... ― avisei-o.
― Pensa que se dissesse a uma pessoa para se afastar das suas fantasias e focar-se apenas nas pessoas, nos acontecimentos, nas notícias (como sugere) ela seria mais feliz? Pensa que alguém sentir-se-á bem perante o cenário proposto por Kim Jong-un, quando ameaça lançar uma bomba atómica e dar cabo de parte do planeta? Ou de Trump, quando ameaça antecipar-se e dar cabo da outra metade? Sentir-se-á melhor alguém que adquira a consciência de que, de um momento para o outro, pode, digamos… no decurso de um passeio, transformar-se, sem saber porquê, numa de mais de cem vítimas de incêndios florestais?
As suas perguntas pareceram-me algo inusitadas para um psiquiatra, mas apenas para um psiquiatra. Instintivamente, e não por cortesia, continuei a confrontá-lo:
― Mas as pessoas… As pessoas que nós somos e as que nos rodeiam? Elas são o mais importante... O rapaz devia estar mais preocupado em encontrar namorada e explorar, como nós já fizemos, uma vida de verdade, do que participar em jogos de guerra!
― Ah! ― ouvi-o vociferar. ― Agora propõe que ele também se apaixone por uma jovem, digamos… bonita. Que case, que tenha filhos e um dia volte do trabalho para a descobrir na cama com um dos seus pacientes?!
Lentamente, com o polegar e o indicador, pincei com delicadeza um grande pedaço do que me restava do croissant e ofereci-o à cadela. O doutor Alvarez não disse mais, levantou-se e abandonou-me em silêncio, deixando-me o seu café para pagar.
― Acho que vou voltar às consultas… ― murmurei com a velha crueldade dos dias de escritor, enquanto Amália me lambia os dedos, grata pela minha generosidade ou simplesmente feliz por o dia ter amanhecido cinzento.

22.Out.17

Leiopelma Pakeka (O meu preço - parte II)

Quando me disseram que Cátia tinha-se separado do marido e deixado o país, não sei por quê, calculei de imediato que tivesse ido para Espanha. Garantiram-me que não, que tinha partido para a Nova Zelândia. Sempre soube que Nova Zelândia está nos antípodas de Portugal, mas nunca me tinha apercebido do quanto estava igualmente longe do meu imaginário, contudo e desde então, passou a fazer parte do meu dia-a-dia, ou melhor, das minhas angústias quotidianas. Foi por isso que numa manhã, ao passar por um quiosque de Lisboa e deparar-me com o último número da revista National Geographic, fiquei especado a olhá-lo sem que me apercebesse do incómodo que a minha imobilidade causava aos clientes do quiosque.

Tinha deixado cessar a assinatura daquela revista havia uns dois anos, mas naquela manhã, indiferente ao desagrado das pessoas que se moviam roçando em mim, percebi que teria de comprar aquele número. A capa anunciava o destaque de três artigos, o primeiro sobre uma expedição aos gorilas da montanha. Os gorilas sempre foram o meu animal preferido até àquele dia. Nos últimos anos, sempre que visitava o Jardim Zoológico, costumava ficar a observá-los demoradamente, agarrado às proteções de ferro ou com as mãos em forma de concha sobre os vidros para espreitar, fascinado não só pela perturbadora familiaridade que nos une àqueles primatas, mas sobretudo pelo modo como me olhavam e de seguida me ignoravam, demonstrando um desprezo maior do que a minha frágil estrutura física poderia justificar. Era como se me avaliassem com um rápido olhar e concluíssem que não lhes merecia mais do que isso, deixando-me a pensar em alguns momentos menos dignos da minha existência.
O segundo artigo incidia sobre os corais do estuário do Sado, mas confesso que só dei por este no dia seguinte, porque também não foi o artigo do estuário do Sado que me obrigou a comprar aquela edição da revista, mas sim o terceiro título: “Pequenos sapos ameaçados de extinção acasalam nas ilhas de Maud”.
A partida de Cátia para a Nova Zelândia fizera-me interessar por aquele vasto país, perseguindo-a estupidamente em mapas, sítios de internet, referências desportivas e até em alguns filmes difíceis de adquirir. Não a descobri, não aprendi sequer muita coisa sobre a Nova Zelândia, mas sem que desse por isso tinha assimilado um nome: Ilhas de Maud. Sabia que se situavam no sul daquele país, embora sobre os ditos sapinhos confesso que desconhecia a sua existência e, como tal, o perigo da sua extinção.
Não me posso orgulhar do nosso começo, quando há vinte anos atrás Cátia era casada e tinha um filho, eu estava separado e nós ficámos amantes. Para uma situação que nada tinha de simples, exprimi-la assim numa só frase faz-me sentir ainda mais cínico, mas a verdade é que ultimamente tenho necessidade de repudiar todo e qualquer tipo de eufemismos. Sempre me conheci agnóstico, mas crente de que não existem crimes perfeitos, e a prova disso, obtive-a no dia em que a minha ousadia com Cátia terminara com o marido dela a bater à porta e nós a quereremos prolongar a nossa entrega por mais um pouco. Achei arriscado fugir pela janela, demasiado alta. Quando abrimos a porta ele cortou-me um lábio com um soco e a ela chamou-lhe puta.
Com a razoável desculpa de que nessa altura não tínhamos meios para nos sustentarmos e a consciência de que havia uma criança inocente, compreendi que estava a mais; resolvi morder o lábio, estancar a hemorragia e afastar-me para que se entendessem.
Lembro-me de ter passado por uma igreja e pedido a Deus que fosse Ele a resolver a trapalhada em que nos havíamos metido. Pedi-Lhe que a ajudasse a ficar junto do marido e do filho, porque embora na verdade eu a amasse muito, acreditava que essa seria a solução mais fácil e razoável para ambos, sobretudo para ela que, apesar de manter comigo uma relação extraconjugal, sempre demonstrara ser uma mãe extremosa. E Deus parece ter concordado.
Gostava de poder recordar o nosso amor somente como um intenso perfume de rosas; gostava de conseguir evocar o toque dos seus lábios apenas como uma suave carícia de pétalas vermelhas, mas a verdade é que o nosso amor nada teve a ver com isso, nem com chilrear de pássaros na primavera, nem sequer com o romper do sol sobre o oceano. O nosso amor doía. Ainda me dói.
É, portanto, natural que passados todos estes anos ainda sinta por Cátia uma dívida e um respeito inversamente proporcional ao que sinto por mim e não resista a procurá-la por entre os pequenos sapos das ilhas de Maud. Estes sapos são uma das quatro espécies nativas de Nova Zelândia, não coaxam, não vivem na água e, ao contrário do que é comum noutras raças da mesma espécie, nascem já com o seu habitual aspeto de batráquio completamente desenvolvido aquando da eclosão dos ovos, sem passarem pela fase girino. Uma outra característica é a inexistência de membranas interdigitais, que setenta milhões de anos de pouca necessidade de evolução se encarregaram de manter até hoje, fiquei ainda a saber pela National Geographic.
A evolução das espécies é a resposta biológica ao modo como elas se têm que adaptar às mudanças do meio, às circunstâncias que, quando demasiado bruscas, podem levá-las à extinção. Foi por isso um risco acrescido voltarmos a fazer amor depois de o marido ter descoberto o nosso relacionamento. Três pontos no interior do lábio inferior não eram suficientes para me afastarem da mulher que adorava. Os meus sentimentos pouco haviam mudado depois da agressão, mas, a partir daí, sempre que nos amávamos eu acrescentava ao imenso prazer que Cátia me proporcionava uma raiva que só não extravasava porque o seu contacto era maior que tudo, maior que a minha enorme e pesada consciência.
Se não há crimes perfeitos, a verdade é que a recorrência de um crime torna a sua imperfeição mais visível e deixa os seus autores mais expostos. Não levou muito tempo até que Cátia me abalasse com a notícia da sua segunda gravidez e me pusesse a fazer contas que não me excluíam da paternidade. Tinha feito um exame ecográfico e trazia dentro de si um embrião com pouco mais de um centímetro, anunciou-me a sorrir antes de chorar em seguida. Quanto a mim, o que um rasgão no lábio inferior não conseguira antes, a fotografia de uma pequena bolsa escura com um minúsculo pontinho branco no seu interior fizera depois. Falámos e concordámos que não podíamos continuar, que teríamos de mudar o curso das nossas vidas de uma vez por todas. Optei uma vez mais pela solução mais fácil, mas também mais difícil de concretizar: afastei-me dela e da sua gravidez com pouco mais de um centímetro. Por isso, não me posso orgulhar também da nossa separação.
Curiosamente, li, com pouco mais de um centímetro de comprimento na idade adulta, a espécie leiopelma pakeka, mais comummente conhecida pelos sapinhos das ilhas de Maud, encontra-se ameaçada de extinção, apesar de poder atingir os trinta anos de idade, e isto porque foram deixando de acasalar até que o seu número os inscreveu na lista de espécies mais ameaçadas da Nova Zelândia. Vinte anos depois do meu afastamento de Cátia, isto fazia-me constatar que também eu tinha deixado de acasalar, aos poucos, desde que nos havíamos separado, e agora encontrava-me só.
Contudo, continuava o artigo, em 2008 a estudante Kerri Lukis, da Victoria University, conduzira uma experiência recorrendo a 60 pequenos sapos que dividiu em dois grupos, colocando um em ambiente selvagem e o outro em clausura. No final da experiência a estudante constatou que a população em clausura assinalava um aumento de mais 13 indivíduos, conseguindo, inclusivamente, observar alguns em plena cópula. A comunidade de cientistas, biólogos e veterinários ligados ao estudo da espécie em questão, bem como alguns amantes da natureza, rejubilaram com o facto: o número de pequenos batráquios aumentara de 30 para 43!
Talvez pareça não fazer sentido, mas a experiência dos pequenos sapos deixou-me imensamente satisfeito. De repente, ali estava eu com os olhos postos numa revista, consciente da minha empatia para com um dos animais mais pequenos, desconhecidos e ameaçados do mundo, uma espécie noturna que vivia em tocas no solo húmido da Nova Zelândia, possuía músculos glúteos, mas não tinha ouvido externo. Uma espécie cujo macho tinha a particularidade de transportar a cria sobre as costas, cuidando delas. Mais simples e honestos, os pequenos sapos da espécie leiopelma pakeka, não podiam ser. Simples e honestos, mesmo aos olhos de um …gorila.
Cátia foi viver para a terra dos pequenos sapos das ilhas de Maud, está separada do marido e do casamento resultou a divisão da custódia dos filhos, ficando o mais velho com o pai, ela com o mais novo e eu com uma angústia que me levava a abrir mapas, seguir eventos desportivos e assistir a filmes feitos no outro lado do mundo. Agora que nada nos impedia de ficarmos juntos, que já nos poderíamos sustentar um ao outro, ela partia para os antípodas da minha imaginação levando um filho que parecia ser só seu e deixando-me preso à consequência das minhas decisões, sempre tomadas do modo mais fácil, mas tão difíceis de suportar que nem a memória de um soco no lábio inferior e um palavrão junto do meu ouvido externo, eram já suficientes para me apaziguar.
Invejo os pequenos sapos leiopelma pakeka, que recomeçaram a copular. Olho-os e volto a observá-los nas páginas da revista; as suas insignificantes figuras merecem-me um imenso respeito, especialmente os machos, que transportam os filhos às costas.

 

13.Out.17

Vida selvagem

Perseguir crocodilos no Nilo às duas da manhã é uma operação muito perigosa, e ainda mais a bordo de um pequeno bote apetrechado com um holofote suspenso de uma haste, à altura de um metro e oitenta, pensava Tomás. Ele mal sabia nadar, lembrou-se a propósito, enquanto se esforçava por manter-se atento aos mais pequenos movimentos da água, aos mais suaves balanços do barco.

Não necessitava de olhar para o relógio para a imaginar no quarto, deitada sobre a cama, lendo uma daquelas coisas que contavam a velha e feminina história de uma gueixa, uma muçulmana ou, então, uma caucasiana perdida algures no Japão, senão mesmo aprisionada no médio oriente. Histórias que transformavam os livros em coisas com letras e que ela insistia em ler apenas para o irritar!

Tinha bebido café mas a verdade é que não estava a resultar; as pálpebras teimavam em pesar-lhe sobre os olhos, diminuindo-lhe lentamente a janela de visão até esta não ser mais do que uma estreita fresta de luz baça. Por isso, de vez em quando, fazia-se percorrer por um pequeno espasmo, abanava a cabeça e, após três ou quatro piscadelas, voltava a manter os olhos completamente abertos. Desta vez, ainda a tempo de encarar o crocodilo, como que à sua espera, silenciosamente!
A dois metros de distância da imagem do imponente animal, Tomás, perscrutou-lhe os olhos que, como duas bolas intensas, reflectiam a luz do pequeno holofote. Estiveram assim, parados a olhar um para o outro durante alguns segundos, sem se mexerem.

Ela era capaz de ficar a ler horas sem fim! Era capaz de sobreviver dormindo apenas quatro ou cinco horas por noite; coisa que ele não compreendia. Não podia compreender. Assim como não compreendia que ela o fizesse antes e não depois de lhe dar uma oportunidade. Ou melhor, compreendia, a verdade é que compreendia. Antes não compreendesse!

Os crocodilos do Nilo, para além do seu impressionante porte, são talvez a classe mais perigosa desta espécie de répteis. Tomás sabia isso, mesmo assim, sentiu as pálpebras baixarem lentamente e eforçou-se por as manter abertas. Finalmente, com um gesto de desprezo, o crocodilo rodou a cabeça e afastou-se na direcção da margem do rio. Tomás seguiu-lhe os movimentos serpiginosos da cauda até esta submergir na água negra e desaparecer. Concedeu-se então alguns segundos de descanso e fechou voluntariamente os olhos.

Se a contrariava, se a pressionava a largar o livro, ela desligava o candeeiro, enfiava-se dentro dos lençóis e voltava-se para o outro lado. E isso significava que, fosse o que fosse que ele estivesse a pensar, seria melhor esquecer. Mas se não a contrariava, se a deixava devorar as infinitas páginas daqueles livros (sempre tão compridos!) acabava ele por desistir antes de ela acabar de ler, tivesse planeado o que quer que fosse.

Abriu sonolentamente os olhos e viu aproximar-se a margem do rio. A luz o holofote faiscava sobre a multifacetada água escurecida pela noite, fazendo-se reflectir em várias direcções. À volta, o breu era total. A ausência de outra luz para além da do pequeno holofote de campanha, servia de algum modo como amplificador ao rilhar dos insectos escondidos no denso canavial circundante. Subitamente, um arrepio eriçou-lhe os pelos dos braços, o peito enrijeceu-lhe, enquanto procurava decifrar a tempestade que irrompia até aos seus ouvidos. Não foi necessário esperar muito para conseguir vislumbrar, à sua frente, dois enormes répteis a lutarem pela posse do que parecia ser a carcaça de um mamífero. Era já impossível identificar a presa; de qualquer modo, o violento combate relegava para os confins da curiosidade qualquer interesse a esse respeito. Erguidos sobre as caudas, os dois animais debatiam-se, provocando uma enorme turbulência nas águas negras, calando tudo à sua volta.

Tantas vezes permaneceu em silêncio a olhá-la, sentindo crescer a raiva e transformando-a na vontade de se vingar! Nesses momentos, sentia-se tentado a arrancar-lhe o livro da mão, atirá-lo contra o candeeiro, agarrá-la depois pelos ombros e sacudi-la! Sa-cu-di-la! Tantas vezes permaneceu em silêncio, imaginando-lhe o cabelo a esvoaçar sob os seus ímpetos!

A proximidade do bote fazia-o dançar perigosamente na ondulação que a desenfreada luta entre os dois crocodilos desencadeava. Apesar do cansaço físico e do sono, Tomás observava agora os dois animais com um interesse que lhe sustinha as pálpebras acima da íris. Já tinha visto um dragão de cómodo, na ilha de Padar atacar um porco selvagem com as suas fortes mandíbulas e inocular-lhe o poderoso cocktail de bactérias letais, para depois o perseguir e comer-lhe a língua e as entranhas; podia garantir que poucas coisas o haviam impressionado tanto. Já tinha visto muita coisa, por isso aquela era apenas uma tremenda luta entre dois enormes crocodilos.

Era para não se descontrolar que se afastava, para não a insultar, não a agredir; para não agarrar-lhe violentamente a face, debruçar-se sobre ela e com um beijo sugar-lhe a língua para morder-lha… e imobilizá-la com o seu próprio corpo antes de invadir-lhe as entranhas…

As águas do rio redemoinhavam sob a luz do holofote e espirravam em todas as direcções, o que, juntamente com o estardalhaço da luta tornavam o embate assustador. Em condições normais, seria o momento menos oportuno para Tomás baixar a guarda, mas, exausto, ele deixou cerrar as pálpebras, lentamente, como se a luz do holofote se fosse esvaindo inexorável, indiferente ao drama que se desenrolava à sua frente. As caudas dos crocodilos abraçavam-se uma à outra para se separarem, como num golpe de chicote, no instante imediato. O bote balançava perigosamente e o chapinhar das águas do Nilo atingia a intensidade de uma intempérie… Contudo, Tomás, de olhos fechados, sucumbia a uma sucessão de noites mal dormidas.

Do quarto, chegou o clic do desligar do candeeiro ao mesmo tempo que a luz se extinguia. Na televisão, terminada a luta entre os dois crocodilos, o correspondente do National Geographic despedia-se com uma eloquente e derradeira tirada sobre a vida selvagem no Nilo.
Sentado no sofá, com a cabeça pendendo sobre o peito, Tomás começou a ressonar.

06.Out.17

A celebração de Markino (parte I)

Pequeníssimas pérolas de suor luziam sobre a pele fina e macia de Diara. Nos seus olhos Markino via o reflexo da lua e todo o imenso céu africano salpicado de estrelas. Eram mágicos aqueles momentos em que conseguia permanecer unido a uma mulher até escutar o riso da retirada das hienas, os derradeiros lamentos dos predadores famintos e a inquieta agitação dos sobreviventes. Para retardar o orgasmo imaginava a deambulação daqueles animais, procurando-se uns aos outros, numa última oportunidade por alimento; lutando pela mais antiga lei do mundo, a da própria sobrevivência.

Os dentes brancos de Diara mordiam o grosso lábio inferior enquanto o corpo se contorcia de prazer e as pernas procuravam as suas para o pressionar. Markino saboreava-lhe os movimentos quase como caricias, sentindo-a debater-se debaixo do seu peito, e procurava moldar-se-lhe para melhor a dominar, consentindo que lhe cravasse as unhas nas costas e lhe aprisionasse as coxas.
A brisa fria da madrugada arrastava da savana uma amálgama de odores próprios, peculiares. Markino aspirava-os, respirava-os. Enquanto mantinha o ritmo lento das investidas sobre Diara procurava-lhe os lábios, percorria-lhe lentamente as ancas, os seios e o pescoço, na desesperada tentativa deter a progressão do tempo com a demora de cada gesto.
Mal viu a noite clarear nos olhos da amante, Markino abraçou-a com ambas as mãos, abriu os dedos longos e finos, rodou o corpo e posicionou-a sobre si, evitando olhar diretamente para o céu. Os seios de Diara cresceram na direção do seu rosto, escondendo-lhe o minúsculo pontinho do sol que começava a romper o manto negro da madrugada. Porém, nem os seus ombros, nem todo o seu corpo eram já suficientes para esconder-lhe o desvanecer das estrelas. Apressando-se, Markino segurou-a pela cintura estreita e forçou-a a intensificar os movimentos.

Antecipando-se à inevitável manifestação das aves e ao longínquo acordar dos leões, cerrou os olhos e procurou o clímax enquanto encarcerava Diara nos seus braços e se precipitava para libertar dentro de dela o silencioso grito do predador em que se transformara.
Arfando, num breve momento, os amantes observaram-se sob a luz frágil do nascer do sol e retiveram o que lhes era foi possível da inevitável separação dos corpos. Quando finalmente se apartaram Markino ergueu-se e vestiu as calças. À sua frente, um murmúrio de vozes humanas e choros de crianças começavam a alastrar com a luz do dia e abafar os sons que ficavam para lá do acampamento.
Dentro de pouco tempo chegaria o camião da O.N.U. para distribuir uma ração de farinha de mandioca e água potável. Markino procurou os olhos grandes de Diara mas esta, expedita, corria na direção das tendas, já para lá das retretes portáteis, onde a silhueta de uma outra mulher, com os seios vazios e as mãos agarradas ao cabelo desgrenhado, anunciava aos gritos a morte do seu último filho, contaminando as tendas vizinhas.
Markino enfiou-se na camisola esburacada e caminhou descalço sem saber se haveria de dirigir-se a norte, na direção da tenda que partilhava com dois velhos, ou se tomaria a direção contrária, para a zona de abastecimento.
Percorrendo o empoeirado caminho quase em zig-zag, deu-se conta de que o campo de refugiados despertava definitivamente sob os infetos cheiros da fome, da febre e da morte; e no derradeiro momento de se decidir, perdeu-se distraidamente em frente, absorto na preocupação de resistir até à madrugada seguinte, para tornar a vasculhar o acampamento e procurar uma outra mulher disposta a celebrar consigo mais um dia de sobrevivência.

01.Out.17

A vida dos outros (3)

― Metes-me nojo! ― murmurou Carlota ao passar.

Senti-me humilhado, evidentemente. Há murmúrios que soam mais alto do que gritos, há murmúrios que cospem raiva entre as palavras, como o dela. Levantei a cabeça, persegui-a até à porta da rua como um cão acossado, e lembrei-me do dia em que me olhou nos olhos e disse que a minha vida iria acabar mal. Só faltava ela, já todos os outros me odiavam.

Havia uns vinte minutos que vinha a observar os dois jovens sentados a uma das mesas, junto ao espelho que percorre a pastelaria. Pelo reflexo voltei a espiar o rosto da rapariga, não era parecida com Anabela, mas era lindíssima e não teria sequer 18 anos... Eu metia nojo? As palavras de Carlota ressoavam como espinhos nos meus ouvidos. Para todo o nosso grupo só eu possuía um dom estranho e uma ignóbil forma de vida, quiçá sobrevalorizados pelos meus 60 anos de idade ou simplesmente porque o meu modo de vida era diferente do deles e não se processava sobre a monotonia da normalidade. Eu vivia pela perseguição e captura de outras vidas.

Tem havido uma azáfama superficial, direi mesmo falsa, pelas ruas do Montijo. Bombos e cornetas, T-shirts e bandeiras, megafones e cartazes que prometem e anunciam vitórias eleitorais. Tudo isso me passa ao lado, faz parte daquela parte da vida dos outros que simplesmente não me interessa.

Olho para as pessoas que se agitam na rua, tocadas pela efémera energia da propaganda politica, e interrogo-me sobre em quantas das suas vidas já me intrometi, com quantas delas já me deitei. Quantas delas já persegui? São pessoas com vidas simples, pessoas com vidas complicadas, pessoas sem vida, pessoas com blogs, pessoas sem blogs, pessoas com e sem clubes na alma, pessoas sem alma... pessoas, simplesmente. Admito que, desde que Anabela desapareceu da minha existência, me tenha transformado num tipo esquisito. Admito isso, mas não que seja nojento.

Volto a mim e procuro o casal de jovens. A minha distração permitiu que o namorado da rapariga roçasse o joelho sem discrição, precipitado e com uma cómica falta de jeito, na sua coxa, fazendo-a retrair-se. Namoram há pouco tempo, é evidente. Ele mais velho do que ela (terá a idade que eu tinha quando conheci Anabela) e apresenta uma compleição física vulgar sem porte atlético, mas sem debilidades, porém, a personalidade é ainda frágil, exatamente como eu era. Está nervoso. Posso sentir o que ele sente. Posso perceber que a quer muito. Concentro-me, interiorizo-o e faço-o recolher a perna, puxo-lhe os cantos dos lábios para cima e componho-lhe um sorriso para escamotear da sua jovem companheira o que me parece demasiado evidente: ele é virgem e está em pânico!

A rapariga pergunta qualquer coisa, mas ele, idiota, de tão nervoso, inibe-se na resposta e bloqueia-me o sentido da audição, por isso, improviso uma piada vaga e ponho-lha na boca. Ela ri-se. Levanto o braço do apatetado pretendente e faço-o acariciar-lhe a mão: é macia, quente, mais jovem do que seria a de Anabela quando a conheci, mas hoje em dia... Subitamente, roda o punho num gesto quase maternal e oferece-lhe a palma da mão, correspondendo-me à carícia. Sorri. Fico satisfeito, afinal nada está perdido.
― Vamos? ― ouço-a pelos ouvidos dele.
Espero então que se levantem e preparo-me para os perseguir.

Já na rua, as pessoas olham-me sem prestarem atenção. Para eles sou apenas um tipo a andar, mas na verdade o que sou? Interrogo-me distraído com o olhar as pessoas que me olham distraídas sem me questionarem. Bom, pessoas que passam por mim, imaginem o mundo como uma selva (o que não é difícil, eu sei) agora imaginem o predador absoluto, o que pode perseguir-vos, o que vos pode tomar em qualquer espaço, o que se alimenta dos vossos erros, da vossa generosidade, da vossa dor, da vossa felicidade e da vossa intimidade... Esse predador sou eu. A minha vida são as vossas vidas, é nelas que me alimento, é nelas que vos salvo, que vos mato, que vos desprezo, que vos abraço. É nelas que sobrevivo. A vossa vida, quando e sempre que eu quiser, pertence-me! Agora ide, ide brincar às eleições!

Os dois jovens caminham de mão dada à minha frente, parecem-me pouco mais do que crianças, como já fui e quase não me lembro. Apercebo-me de que a mão dele aperta demasiado a dela. Concentro-me e relaxo-lhe os dedos, não quero correr o risco de ela se assustar, interrogar-se, hesitar e desistir de fazer amor com ele. Anabela não se assustou comigo.

Desde sempre que consigo interiorizar-me no corpo de qualquer pessoa e sentir o que ela sente, mas só depois de Anabela me abandonar me tornei dependente disso. Consigo inibir qualquer pessoa que interiorize; consigo libertá-la. Não posso negar que interfiro na vida dos que persigo, mas não os condiciono à minha vontade. Se Deus existe, reconheço-lhe como sua maior criação o livre arbítrio, respeito-o e faço dele a minha lei. Não deixei eu que Anabela se afastasse de mim, ainda que todos os dias sinta a sua falta? Dou um empurrãozinho, admito, aqui e ali, como o estou a fazer com o rapaz que tenta conquistar a amiga adolescente, mas não vou além disso, sei que ambos se desejam. E o meu desejo é que se desejem!

Serei nojento por isso? Quem se recusaria a saber o que sente um assassino quando mata? Eu sei, já os persegui, já os interiorizei e vivi os seus crimes. Ah, mas conheço também a dor das suas vítimas! Sei o que sente um pedófilo, mas também um político ou uma dona de casa, um refugiado ou um doente terminal. Sei o que sentem os ricos quando esbanjam dinheiro; sei o que é a fome dos que vasculham no lixo dos outros, mas nunca condicionei a existência de alguém! Eu vivo a vidas dos outros, não os forço a viverem a minha, que é demasiado sensaborona sem a deles. É assim, desde que Anabela se foi embora, não consigo deixar viver as vidas alheias, necessito dos seus dramas, dos seus sorrisos, de desejos que já não possuo, necessito de viver uma vida diferente todos os dias, sentir as pessoas no corpo delas, usufruir do seu desalento, da sua euforia, da sua dor e do seu prazer. Não me orgulho do meu dom, mas é o meu dom, vivo com ele, isso não faz de mim uma pessoa nojenta.

Os jovens param em frente a uma casa. Os pais dela não estão, ouço-a. Sinto o bater descompassado do coração dele. O meu coração também já bateu assim, há muitos anos, na primeira vez, por Anabela, por isso não o posso deixar dar um passo em falso. O turbilhão de sentimentos e a sua inquietude deixam-me atarantado, quase não o consigo dominar. Paro e escondo-me. Pelos olhos dele vejo os dela, não a posso perder. Sinto-o excitado; sinto-me excitado e poderoso.

Ela abre a porta, entram. Volta-se para ele e vejo-lhe o rosto em toda a plenitude da sua adolescência. É linda, quase tanto como Anabela. Abraça-o. Sinto-a calma, ao contrário dele que a olha sem a fixar, que a percorre com os olhos, com as mãos, numa ansia que só o medo pode explicar. Ela apercebe-se disso e encaminha-o para o quarto. Há uma boneca sobre a cama. Ela retira-a e coloca-a numa cadeira, com um gesto único, delicado, o mesmo gesto com que depois o substitui pela boneca, fazendo-o deitar-se. A cama é macia. Respiro fundo na rua.
Pelos olhos dele fixo os olhos dela e interiorizo-a! Quase não necessito de lhe conduzir os movimentos, a rapariga possui uma razoável intuição. No entanto ajudo-a a despi-lo. Ajudo-a a ajudá-la a despir-se. O contacto da boca do rapaz na minha é quente e sôfrego, as suas mãos trémulas no meu corpo (que agora é o dela) é-me estranho, mas não desagradável. Os pelos das suas pernas de homem sobre as minhas (que agora são as pernas lisas da rapariga) emitem qualquer coisa de confortável mas arrepiante, intrusivo. Ele tem uma pressa imensa e parece querer desembaraçar-se de si mesmo dentro de mim! E eu, estou finalmente prestes a sentir o que sentiu Anabela quando nos conhecemos. Será isto nojento?