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Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir daqui

Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir daqui

23.Out.16

Sábado de manhã

Às nove horas já faz um calor incomodativo a caminho do mercado da “reforma agrária”, no Montijo. O cheiro da manhã flutua no ar com a agitação das pessoas e o aroma do café que invade os passeios do meu caminho. Chego ao mercado; a proximidade do Tejo não consegue iludir-me: esta  tarde fará um calor insuportável.

Compro o pão logo à entrada, à esquerda, e meia bôla como não consigo encontrar noutro lugar, só depois vou à fruta. Aproximo-me dos agricultores e aprecio alguns tabuleiros de figos, demasiado pequenos para a bancada de um hipermercado. Compro-lhes também minúsculos morangos, que não brilham ao sol mas prometem-me muito.

Toda a gente quer vender-me mais do que pretendo comprar. A vida não está fácil para ninguém e os pequenos agricultores são os que mais sabem quanto a natureza pode por vezes ser ingrata. Volto para casa e não resisto a provar de imediato os figos com um pedaço de pão… talvez seja a minha costela alentejana.

A natureza pode ser muito ingrata para com os agricultores, mas é-me difícil ter consciência disso quando provo o sabor intenso, único, dulcíssimo do primeiro figo maduro sobre um pedaço de pão.    

23.Out.16

O futuro é hoje

Acordo cedo e leio as notícias no telemóvel que “herdei” do meu filho, por tê-lo ajudado a comprar um novo e a usufruir de 15 gigas de internet “grátis”. Depois levanto-me e levo a minha melhor amiga até ao parque. À saída do prédio faz o seu primeiro xixi. Talvez estivesse aflita, penso. Pouco depois faz mais um, outro e outro ainda. Nunca pensei adotar uma cadela. Nunca pensei viver no Montijo em 2016.

Há muitos anos atrás, previa que a vida para além do ano 2000 fosse o futuro e que no futuro as pessoas usassem fatos interplanetários e se dedicassem a atividades incompreensíveis para aquela data.

Desviamo-nos para deixar deixar passar o primeiro corredor e a cadela aproveita para fazer mais um xixi,  agora sobre a relva acabada de regar e a cheirar a fresco. Passa mais um atleta urbano, com um boné de marca virado para trás, camisola justinha, calções de “lycra” e sapatilhas brilhantes. Leva um enorme ecrã acoplado ao seu braço direito, que o liga ao mundo inteiro e aos auscultadores que lhe tapam os ouvidos. Tem ainda, no pulso direito, um relógio digital que lhe dá as horas, a frequência cardíaca e imensas outras coisas que desconheço e que, tudo junto, envergonha os meus mais fantasiosos fatos intergaláticos de criança. Prossigo a marcha.

A esta hora há já dois jovens com sofisticados aparelhos nas mãos a perseguir seres fantásticos, virtuais, escondidos por entre as árvores do parque.  

Ao fim da volta higiénica a cadela baixa-se de novo e tenta o décimo sétimo xixi, como se tivesse adquirido, também ela, um aparelho urinário sofisticado e usufruísse de 15 gigas de “mijas” grátis. Bem se espreme mas já não verte gota, é só o gesto técnico; mas é um gesto técnico perfeito, penso com orgulho. E é ao vê-la agachada que tomo consciência de que estou a viver o meu futuro, ali, naquele instante, no parque no Montijo!

O atleta intergalático torna a passar por nós no momento em que os jovens soltam uma gargalhada que ecoa algures por entre a vegetação, talvez tenham capturado um “pikachu”.

Olho então para a minha amiga e pergunto-lhe:

― Como é que é Amália, já pudemos ir para casa?