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Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir daqui

Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir daqui

02.Out.18

O doente do Quarto 12, cama 3 - V

j.campião
A mão do polícia aperta-me o braço garantindo que não me afastarei. Os dedos pressionam-me os músculos e magoam-me, mas não me queixo, nem afasto os olhos da enorme poça de sangue que nos parece perseguir. Obriga-me a recuar um passo, de modo a manter-me colada a si, mas com os pés em chão seco.Que horas serão? Interrogo-me com os olhos feridos pela intensa luz do sol. A manhã parece-me muito distante, como se a tivesse começado há muitos dias e não hoje, depois de tomar (...)
22.Ago.18

Cortinados novos! (Quarto 12, cama 3 - IV)

j.campião
 Às 10 e 30 já tinha colado o papel na parede da cabeceira da minha cama. Satisfeita, abri a mala, retirei a carteira e fui para a cozinha. Fiz um chá, mas depois não me apeteceu bebê-lo. Em vez disso, espremi o sumo de uma toranja, descasquei os dois figos verdes mais maduros que tinha e sentei-me à mesa. Apontei o telecomando à televisão (colocada na parede e ladeada por duas pequenas colunas de som, verticais). Repeti para mim mesma, uma vez mais, que os programas das manhãs (...)
12.Ago.18

Margarida (Quarto 12, cama 3 - III)

j.campião
Voltei de Angola uma pessoa diferente. Mais do que ter ido procurar (inutilmente) os meus pais, fui encontrar-me comigo própria. Já não me incomoda o sentimento de perseguição da morte quando saio para a rua ou sempre que me olho no espelho, mas não prescindirei da plenitude que por vezes me preenche, como na manhã em eu que me deitei sobre a cama a olhar para o teto e a interrogar-me: Quem se seguirá? Até onde poderei ir? Porque razão não temo ser apanhada? Lembro-me dessa (...)
29.Jul.18

Regresso a África (Quarto 12, cama 3 - II)

j.campião
 Depois da enormidade do meu ato fui acometida por uma inquietação, durante a qual me repeti vezes sem conta: «Matei um homem! Eu matei um homem!!».O homicídio trouxe-me toda uma emergência de sentimentos contraditórios, de estados de espírito confusos, de dolorosas impressões físicas para as quais eu não estava preparada, nem delas havia sequer suspeitado quando executei o crime. Deixei de escrever, deixei de trabalhar e, por fim, deixei de conseguir conviver comigo mesma, tal (...)
15.Jul.18

Quarto 12, cama 3 - I

j.campião
A última vez que decidi retomar as pesquisas para o “Sob o sol de Estremoz” (texto que que teimo em não dar por concluído) estacionei em frente de um pequeno acampamento de ciganos e deparei-me com uma criança em cuecas, à beira da estrada, com um prato repleto de batatas cozidas equilibrado numa das mãos e um garfo na outra. Olhámo-nos por um instante. O garfo no ar, o prato com as batatas secas... e os olhos da criança fixados em mim. Não guardo muitos pormenores desse (...)
06.Mai.18

A primeira Bíblia

j.campião
  No fim de cada semana de trabalho ter uma boa máquina de café em casa já não me impede de sair e tomar o pequeno-almoço fora, por isso, atravessei o parque, desci a avenida e cruzei-me com os crentes à saída da missa. Gosto de os observar, mas nem foi o caso, foi antes o acaso, que me fez cruzar com Sérgio Pontini, a quem já ouvi chamar "o maior mentiroso do Montijo". ― Bom dia! ― Bom dia ― estaquei à sua frente. ― Já tomaste café? ― convidei-o, mais a pensar em (...)
08.Mar.18

Uma criança no Afeganistão (A celebração de Markino - parte IV)

j.campião
Há qualquer coisa de acordo tácito no modo como Adélia e eu esperamos que João Maria se afaste e saia pela porta da pastelaria, para aproveitar a trégua da chuva e passear com a menina ao colo. ― O que é que se passou com o teu irmão e os serviços secretos norte-americanos? ― pergunta-me Adélia muito depressa, num tom cautelosamente baixo. Olho-a com surpresa. ― Já me contou que vocês, na verdade, não são irmãos de sangue… ― ouço-a, sorrio e faço a minha cara de parva. ― Contou-me como se conheceram, como se ajudaram, como resistiram no orfanato; mas não me conta por que raio foi interrogado pela
18.Fev.18

O medo e as ondas da Nazaré (A celebração de Markino - parte III)

j.campião
Sigo as coordenadas do GPS e estaciono no local que Adélia me indicou. O mar sopra-me na cara um vento frio e húmido, agitando-me as tranças; puxo a gola do casaco e rodo ligeiramente sobre os calcanhares até vislumbrar o seu vulto, sentado e embrulhado numa manta. Resignada, dou graças por ter calçado botas e caminho sobre a areia. ― Senta-te! ― murmura-me quando chego perto. Passo por detrás de uma prancha, desdobro a manta que me espera no outro lado e obedeço-lhe. Embora (...)
21.Jan.18

A minha amiga Khudzi (4)

j.campião
Morreu a minha amiga Khudzi. Cai uma cacimba grossa quando passo a porta do cemitério, como se estivesse com pressa, e procuro a sua campa. Há um pequeno grupo de pessoas lá ao fundo, em semicírculo; percebo que é onde a vão enterrar. Aproximo-me. Para minha surpresa vejo um padre à cabeceira da campa. Não sei quem ele é (não sou devota) mas sei que não é o da nossa igreja, por isso, concluo que deve ter vindo em substituição. Depois do que Khudzi fez não me espanta que não (...)
01.Jan.18

O segredo do latte macchiato (A celebração de Markino - parte II)

j.campião
O segredo de um bom latte macchiato está na consistência que damos ao café e ao leite; claro que ambos têm que ser de boa qualidade. Aqui o café é bom, mas não posso beber um latte macchiato, não me atrevo a sugerir que me vaporizem o leite e lhe misturem o café segundo as minhas indicações, por isso limito-me a pedir: ― Meia-de-leite, se faz favor. ― Mais alguma coisa? ― Não. Estou à espera de duas pessoas... Espero o meu irmão e a minha amiga Adélia, mas receio que (...)