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Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir

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13.Out.17

Vida selvagem

Perseguir crocodilos no Nilo às duas da manhã é uma operação muito perigosa, e ainda mais a bordo de um pequeno bote apetrechado com um holofote suspenso de uma haste, à altura de um metro e oitenta, pensava Tomás. Ele mal sabia nadar, lembrou-se a propósito, enquanto se esforçava por manter-se atento aos mais pequenos movimentos da água, aos mais suaves balanços do barco.

Não necessitava de olhar para o relógio para a imaginar no quarto, deitada sobre a cama, lendo uma daquelas coisas que contavam a velha e feminina história de uma gueixa, uma muçulmana ou, então, uma caucasiana perdida algures no Japão, senão mesmo aprisionada no médio oriente. Histórias que transformavam os livros em coisas com letras e que ela insistia em ler apenas para o irritar!

Tinha bebido café mas a verdade é que não estava a resultar; as pálpebras teimavam em pesar-lhe sobre os olhos, diminuindo-lhe lentamente a janela de visão até esta não ser mais do que uma estreita fresta de luz baça. Por isso, de vez em quando, fazia-se percorrer por um pequeno espasmo, abanava a cabeça e, após três ou quatro piscadelas, voltava a manter os olhos completamente abertos. Desta vez, ainda a tempo de encarar o crocodilo, como que à sua espera, silenciosamente!
A dois metros de distância da imagem do imponente animal, Tomás, perscrutou-lhe os olhos que, como duas bolas intensas, reflectiam a luz do pequeno holofote. Estiveram assim, parados a olhar um para o outro durante alguns segundos, sem se mexerem.

Ela era capaz de ficar a ler horas sem fim! Era capaz de sobreviver dormindo apenas quatro ou cinco horas por noite; coisa que ele não compreendia. Não podia compreender. Assim como não compreendia que ela o fizesse antes e não depois de lhe dar uma oportunidade. Ou melhor, compreendia, a verdade é que compreendia. Antes não compreendesse!

Os crocodilos do Nilo, para além do seu impressionante porte, são talvez a classe mais perigosa desta espécie de répteis. Tomás sabia isso, mesmo assim, sentiu as pálpebras baixarem lentamente e eforçou-se por as manter abertas. Finalmente, com um gesto de desprezo, o crocodilo rodou a cabeça e afastou-se na direcção da margem do rio. Tomás seguiu-lhe os movimentos serpiginosos da cauda até esta submergir na água negra e desaparecer. Concedeu-se então alguns segundos de descanso e fechou voluntariamente os olhos.

Se a contrariava, se a pressionava a largar o livro, ela desligava o candeeiro, enfiava-se dentro dos lençóis e voltava-se para o outro lado. E isso significava que, fosse o que fosse que ele estivesse a pensar, seria melhor esquecer. Mas se não a contrariava, se a deixava devorar as infinitas páginas daqueles livros (sempre tão compridos!) acabava ele por desistir antes de ela acabar de ler, tivesse planeado o que quer que fosse.

Abriu sonolentamente os olhos e viu aproximar-se a margem do rio. A luz o holofote faiscava sobre a multifacetada água escurecida pela noite, fazendo-se reflectir em várias direcções. À volta, o breu era total. A ausência de outra luz para além da do pequeno holofote de campanha, servia de algum modo como amplificador ao rilhar dos insectos escondidos no denso canavial circundante. Subitamente, um arrepio eriçou-lhe os pelos dos braços, o peito enrijeceu-lhe, enquanto procurava decifrar a tempestade que irrompia até aos seus ouvidos. Não foi necessário esperar muito para conseguir vislumbrar, à sua frente, dois enormes répteis a lutarem pela posse do que parecia ser a carcaça de um mamífero. Era já impossível identificar a presa; de qualquer modo, o violento combate relegava para os confins da curiosidade qualquer interesse a esse respeito. Erguidos sobre as caudas, os dois animais debatiam-se, provocando uma enorme turbulência nas águas negras, calando tudo à sua volta.

Tantas vezes permaneceu em silêncio a olhá-la, sentindo crescer a raiva e transformando-a na vontade de se vingar! Nesses momentos, sentia-se tentado a arrancar-lhe o livro da mão, atirá-lo contra o candeeiro, agarrá-la depois pelos ombros e sacudi-la! Sa-cu-di-la! Tantas vezes permaneceu em silêncio, imaginando-lhe o cabelo a esvoaçar sob os seus ímpetos!

A proximidade do bote fazia-o dançar perigosamente na ondulação que a desenfreada luta entre os dois crocodilos desencadeava. Apesar do cansaço físico e do sono, Tomás observava agora os dois animais com um interesse que lhe sustinha as pálpebras acima da íris. Já tinha visto um dragão de cómodo, na ilha de Padar atacar um porco selvagem com as suas fortes mandíbulas e inocular-lhe o poderoso cocktail de bactérias letais, para depois o perseguir e comer-lhe a língua e as entranhas; podia garantir que poucas coisas o haviam impressionado tanto. Já tinha visto muita coisa, por isso aquela era apenas uma tremenda luta entre dois enormes crocodilos.

Era para não se descontrolar que se afastava, para não a insultar, não a agredir; para não agarrar-lhe violentamente a face, debruçar-se sobre ela e com um beijo sugar-lhe a língua para morder-lha… e imobilizá-la com o seu próprio corpo antes de invadir-lhe as entranhas…

As águas do rio redemoinhavam sob a luz do holofote e espirravam em todas as direcções, o que, juntamente com o estardalhaço da luta tornavam o embate assustador. Em condições normais, seria o momento menos oportuno para Tomás baixar a guarda, mas, exausto, ele deixou cerrar as pálpebras, lentamente, como se a luz do holofote se fosse esvaindo inexorável, indiferente ao drama que se desenrolava à sua frente. As caudas dos crocodilos abraçavam-se uma à outra para se separarem, como num golpe de chicote, no instante imediato. O bote balançava perigosamente e o chapinhar das águas do Nilo atingia a intensidade de uma intempérie… Contudo, Tomás, de olhos fechados, sucumbia a uma sucessão de noites mal dormidas.

Do quarto, chegou o clic do desligar do candeeiro ao mesmo tempo que a luz se extinguia. Na televisão, terminada a luta entre os dois crocodilos, o correspondente do National Geographic despedia-se com uma eloquente e derradeira tirada sobre a vida selvagem no Nilo.
Sentado no sofá, com a cabeça pendendo sobre o peito, Tomás começou a ressonar.