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Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir

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17.Dez.17

Viagem ao Arizona (O meu preço - parte III)

Sinto-me estupidamente calmo depois de ter dormido mal e acordado demasiado cedo, sem ânimo para sair de casa. Decidi tomar o pequeno almoço na sala e ficar a olhar pela janela as pessoas a cruzarem-se na rua, sob a azáfama do Natal, segurando os chapéus de chuva. Rememoro a voz de João Domingos, as suas mãos esfaceladas:

― Quando lá cheguei dei por mim à procura dos Navajos, dos Apaches e dos Índios Pueblo. Tinha feito a viagem imaginando-os a caçar, a lutar, a matar, a morrer.

O João Domingos é militar de profissão e, tanto quanto me lembro, foi sempre mais alto do que eu (mesmo em criança) e mais corajoso e mais honesto. O seu único pecado foi ter namorado com Cátia antes de mim. Abri-lhe a porta e deixei-o sentar-se no sofá, à minha frente, para lhe ouvir o quanto foi difícil chegar ao Arizona, temendo que depois me quisesse dizer quanto lhe tinha sido ainda mais difícil sair de lá.

― Que raio que foste fazer ao Arizona? Ou se preferires, por que vens falar-me disso?

No início não lhe prestei muita atenção, arrastado por pequenos sapos para a ilha de Maud, o que não era mais absurdo do que ele, com quem nos últimos anos não trocara mais do que a saudação dos bons dias, entrar-me pela casa a dentro e pôr-se a falar de uma viagem de comboio.

― Fui encontrar-me com ela.

Olhei-o com raiva, atordoado por o ouvir falar da mesma mulher por quem nos havíamos apaixonado e nos impediu de continuarmos amigos. A mulher cuja memória a sua inesperada aparição me reavivara.

Tinha equimoses no rosto e o lábio inferior inchado, o que, juntamente com as feridas das mãos, fez-me questionar a razoabilidade dos seus exercícios militares. A chuva que bate agora nos vidros da minha janela mistura-se com as memórias do seu dramático relato. Encho uma nova chávena com café (cada vez mais frio) e sinto que, este Natal, tenho tudo para me sentir triste.

― Telefonou-me ― volto a ouvi-lo antes de se afastar outra vez: ― Para lá das linhas do comboio, onde toda a paisagem é de terra quente e tão vermelha que parece evocar o imenso sangue ali derramado; onde o pior e o melhor, mas, garantidamente, o pior da espécie humana foi exposto aos olhos de Deus ― declarou João Domingos, o crente. Ele sempre foi católico, eu não. 

«Terá sido a minha necessidade de o detestar que acabou por fazer-me ateu ou já nasci sem fé?» questionei-me.

― Os primeiros colonos a chegar ao Arizona não eram mais do que criminosos deportados para aquela terra estranha, imensa e, nesses anos, sem lei. Não é difícil imaginar ao que iam dispostos ― completou. ― Creio que nem todos os seus habitantes mudaram muito desde então.

«Estarão juntos de novo?» insisti comigo mesmo, voltando a desprezar o relato da sua viagem. «Será que vem pedir-me aceitação?».

― Mas a Cátia não viajou para a Nova Zelândia? ― interrompi-o.

― Viajou ― disse. ― Com o filho mais novo; infelizmente sem a autorização do pai, por isso acabou por ser intimada a regressar, pela embaixada. Perdeu aqui a custódia da criança. O mais velho já se encontrava à guarda do ex-marido, como deves saber.

― Esteve no Montijo? ― volvi incrédulo.

― Ela não quis que soubesses.

Aguentei a verdade sem vacilar e recompus-me.

― Alguns dias depois, para minha surpresa, telefonou-me a pedir que a fosse buscar ao Arizona.

― Ela sabe que ainda gostas dela ― observei resignado por ter sido ele o destinatário do pedido.

― Sim, mas foi com o Jaime que ela casou ― murmurou e encolheu os ombros, como se o casamento da nossa paixão tivesse sido pior para o marido do que para nós. ― Ela sempre soube complicar a sua vida e a dos que a rodeiam ― disse-me com um sorriso falso. ― Ainda o sabe.

― Foste, portanto, ao Arizona... ― volvi.

― Sim. Cátia estava sem dinheiro, numa situação complicada.

Não me contive: ― Procurei-a durante mais de um ano!

― Ela sabe isso.

― Ela é tu ― observei. ― Talvez até saibas por que razão não me devolveu as chamadas ou por que é que não me procurou enquanto aqui esteve ― atirei. Se tinham voltado a juntar-se eu estava decidido a envenenar tudo o que houvesse entre eles.

― Receava que pusesses em causa a paternidade do filho mais novo ― ouvi-o e tomei consciência, embora demasiado tarde, que afinal aquele nunca tinha sido um segredo apenas meu.

― E é meu, o filho?

― Sei lá! ― ouviu-o com secura.

Estava nas tintas para o meu drama, o que me despertou para a sua dificuldade no relato daquela viagem. Afinal, talvez não estivessem juntos!

― Cátia não tinha dinheiro e tu foste buscá-la. Chegaste aos Estados Unidos, meteste-te no comboio, olhaste a paisagem e saíste no Arizona ― orientei-o.

― Levei muito mais tempo a chegar lá ― corrigiu-me. ― Mas tudo o resto parece, realmente, ter-se passado numa fração de segundos ― olhou-me com tristeza. ― As coisas nunca se revelam como as imaginamos. Desta vez, admito, eu levava na mente uma fantasiosa imagem de cowboy justiceiro, que chega a uma vila sitiada por um bando de malfeitores e se vê na rua principal, num duelo de morte por uma mulher que não é sua. Acabei por perceber, no regresso, que toda a evocação que o meu subconsciente fez dos índios, dos conflitos sangrentos e dos colonos deportados, não passou de, como dizemos nos fuzileiros, uma preparação mental para o que me esperava.

― O que te esperava? ― inquiri.

Ele olhou-me. Um homem grande, bonito (tenho que admitir) corajoso e… estranhamente, com medo de me magoar!

― Em que é que ela se meteu desta vez, João?

― Quando chegou ao Arizona, Cátia registou-se numa pensão barata e tratou de procurar trabalho, mas antes de o encontrar roubaram-lhe a mala com os documentos e todo o dinheiro.

― Podia ter recorrido à embaixada ― lamentei estupidamente. ― Por que razão te telefonou? ― insisti na estupidez.

― A embaixada fê-la perder a custódia do filho. Acho que foi por isso ― avaliou-me e, por fim, decidiu-se: ― Imaginas ao que ela se dispôs, sem casamento, sem os filhos, sem dinheiro, sem documentos, sem nada mais do que ser bonita?

― Não. Não imagino ― menti assustado. ― O que é que ela fez?

João Domingos encolheu os ombros como se lamentasse a minha negação, respirou fundo e disparou como um criminoso deportado para uma imensa terra sem lei, disposto a tudo: ― O proxeneta que opera naquela zona acabou por comprar os seus documentos e forçá-la a… ― engoliu em seco antes de continuar. ― A prostituir-se para os recuperar.

― Não! ― pedi dolorosamente, pondo-me de pé, mas João Domingos ignorou-me:

― Como deves calcular, ele nunca lhe devolveu os documentos… é dos que não mudou... por isso Cátia telefonou-me, desesperada.

― Mas por que raio não fez queixa na polícia?!

― Talvez por ser estrangeira e não ter documentos, nem dinheiro... Talvez por temer o proxeneta. Não lhe perguntei.

Observei de novo as feridas das suas mãos e senti-me ingrato. Ele tinha vindo entregar-ma.

― Tiraste-la de lá? ― volvi confiante.

― Tirei.

Pela primeira vez em muitos anos vi-o como sempre foi, uma criança grande e corajosa, que por alguma razão (ou por essa mesmo) tinha merecido o amor adulto de Cátia.

― E ela está bem?

― Está.

― Então conseguiste!

― Ainda me parece tudo demasiado rápido, a chegada ao hotel, a marcha pelas ruas, o reencontro com ela e… o proxeneta! ― olhou no vazio antes de continuar sem qualquer orgulho: ― Não foi um duelo, sabes? Os duelos só existem nos filmes, eu limitei-me a aproximar, a espancá-lo e arrastá-lo para um beco com a ajuda de Cátia. Não sei quanto tempo durou, mas sei que quando saímos de lá, ele estava inconsciente, nós tínhamos os documentos, algum dinheiro e um bando de pulhas atrás de nós... ― Abanou a cabeça. ― Corremos. Escondemo-nos. Corremos de novo…

― Porra! ― soltei estendendo-lhe os braços. ― Nunca deixarei de to agradecer!

― Então ― perguntou-me ao fim de algum tempo, com a cabeça baixa, evitando os meus olhos. ― Temos a tua bênção?

Penso no filho mais novo de Cátia (que nunca saberei se é meu) e observo as pessoas lá em baixo a fecharem os chapéus de chuva à pressa, todas ao mesmo tempo, porque deixou de chover e é quase Natal.

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