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Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir

Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir

16.Jul.17

Uma velha fotografia

- O Ventura disse-me que passaria por cá… - ouvi.
Fiquei atento.
- Não acredito muito nesse tipo...
Creio que nunca me interessou saber se o que o Ventura diz alguma vez foi verdade, se mente sempre ou se intermeia a realidade com a sua fantasia. Para mim, o Ventura é o Ventura, e isso não obedece a pressupostos.
O Ventura tem estatura mediana, talvez mais para o baixo e, por estes dias, aparenta já uns sessenta e tal anos de misteriosos vincos faciais sobre uma tez morena, com imensas rugas de expressão e cabelo cor de cinza. Tão depressa o dinheiro lhe parece jorrar das mãos, ao ponto de insistir em pagar-nos cafés e cervejas, quanto lhe falta e parece cobrar-nos isso mesmo, nunca mais. Não sei onde mora, o Ventura simplesmente aparece com o mesmo descaramento com que, por muitos dias, não se consegue pôr-lhe a vista em cima. Razão pela qual talvez ninguém consiga evitar um sorriso de surpresa e satisfação sempre que ele chega ao Montijo e se aproxima de nós, até os menos crédulos.

- Conta sempre cada história! - observou alguém da mesa ao meu lado.
- Uma vez - lembrou outro - ouviu-o contar que teve que mergulhar ao largo da costa da Tanzânia, depois de uma altercação com o capitão do navio de mercadorias em que andava embarcado…
- Sim, sim… - lembrou-se o mais descrente. Riu-se. - Tem cada uma, o Ventura!
- Parece que o capitão era um holandês ciumento, que suspeitava de toda a população masculina do arquipélago, e sobretudo da tripulação seu navio. Provocava frequentemente revoltas a bordo. Dizia o Ventura que sempre que chegava a terra, não aportava de imediato, mantinha-se atastado algumas horas, a espreitar as praias com um longo monóculo e a fotografar transeuntes. Só depois permitia que os marinheiros fizessem a normal aproximação e desembarcassem.
- Nunca acreditei nessa história - insistiu o outro. - Sempre me pareceu uma imagem demasiado cinematográfica, a de imaginar o Ventura sendo salvo por um barco pesqueiro…
- Olha-o! - disse alguém.
Levantei a cabeça e cumprimentei-o antes dos outros, mas...
- Sente-se aqui!
O Ventura não puxa as cadeiras das esplanadas como todos nós, fá-lo com gestos mais delicados, como se cuidasse em evitar de as arrastar. E a verdade é que quase não faz qualquer ruído.

Sentou-se na mesa do lado, junto dos que o haviam convidado; lamentei a minha falta de expediente.
- Sempre sozinho… - atirou o mais provocador. - Não há mulher que o queira!
Os outros riram.
- Ainda acredito que haverá uma mulher alta, loira e com os olhos azuis, que não se importasse de passar o resto dos seus dias comigo… Afinal, o mundo é enorme… - pareceu parar para refletir um pouco, antes de terminar: - E talvez seja apenas por causa disso, me que é dificil encontrá-la. 
Os outros tornaram a rir. Não percebi porquê e suspeito de que eles também não.
Vieram os cafés. Já tinha bebido o meu mas queria ficar mais um pouco; pedi outro.
- Mas você já parou em todos os cantos do mundo… - lembrou-se o instigador descrente.
O Ventura sorriu sem mostrar os dentes. Um sorriso íntimo, mais para si do que para qualquer de nós.
- Ainda até há poucos dias podiam ver-me  a caminhar por Zanzibar… - murmurou com uma espécie de tristeza.
- Zanzibar? - interrogou alguém.
O Ventura consentiu com um gesto.
- Que raio foi fazer a Zanzibar, à procura de mulheres loiras?
Há piadas que são apenas isso, piadas. Mas não aquela: 
- Já não há mulheres loiras a viver em Zanzibar - corrigiu Ventura. - Só praias extensas, águas azul-turquesa e ventos que cheiram a frutos doces…
- Esteve mesmo em Zanzibar?
- Pela segunda vez na minha vida - garantiu o Ventura.
- E o que foi lá fazer?
- Procurar uma pessoa… - calou-se.

Todos nós ficámos à espera que ele continuasse. Em vão.
- Encontrou-a?
- Não - consentiu o Ventura e encolheu os ombros. - Já sabia que não a iria encontrar, só fui para não me censurar mais tarde.
- Uma mulher? - sugeriu alguém.
O Ventura sacudiu o ombro do meu lado, como se dissesse: «que mais poderia ser?».
- Alta…? - adiantou o provocador com uma acentuação zombeteira.
- … e loira, com grandes olhos azuis - completou o Ventura.
Um sorriso em onda percorreu toda a mesa.
Viu-o levar a mão ao bolso e abrir a carteira. Por um instante todos tememos que, contrariado, ele se preparasse para pagar a despesa e abandonar-nos à nossa sensaborona existência, mas não. Retirou uma pequena fotografia descolorida e vincada, que pousou ao lado da chávena vazia.
Seguimos os seus gestos delicados, os mesmos gestos que ele usara para puxar a cadeira. Quando dei por mim estava de pé a olhar a imagem:

funny.pho.to_old_photo.jpg

- Esta fotografia já passou por algumas vicissitudes… mergulhei com ela no mar alto… - sorriu. - Sequei-a ao sol, enquanto mantinha a roupa húmida sobre o corpo. - Levantou a mão da mesa e coçou o pescoço tisnado. - Não. Não o devia ter feito porque isso desvaneceu-lhe toda a cor.
Ninguém falou, mas a verdade é que também ninguém conseguiu entender a imagem.
- É Zanzibar de há 20 anos atrás. E a mulher que passeia na praia é ...alta loira, tem uns grandes olhos azuis e está de mão dada comigo, não há que negá-lo.
- Mas afinal quem é ela? - perguntou o instigador fazendo um esforço para identificar uma qualquer mancha na imagem que se lhe afigurasse passível de ser de uma mulher alta e loira a passear de mão dada…
- A mulher de um capitão… - lamentou o Ventura.

 

 

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