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Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir

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08.Nov.17

Um execrável alarve! (O efeito das borboletas - parte III)

Os personagens dos meus quatro primeiros romances eram todos muito bons e foi isso que lhes reduziu os enredos a merda!
Na realidade talvez não fossem assim tão maus, mas é como agora me esforço por classificá-los, depois de iniciar a terapia e procurar desenvolver uma imperturbável agudeza de espírito e capacidade crítica, desprovidas de misericórdia.
Foi-me necessário escrever mais de mil e quinhentas páginas para perceber que não era capaz de compor, convincentemente, um personagem canalha, desses que assassinam velhinhas, batem nos pais, roubam os pobrezinhos e ainda mijam para dentro do lava loiça. Foi por essa razão que deixei de escrever romances; foi por isso que acedi a criar um blog.
Estou a trabalhar na decomposição dos meus padrões morais, cuidadosamente, é claro, de modo a não os destruir e transformar-me num dos bonecos repugnantes que anseio conseguir criar e dar vida. Não sei se alguma vez alcançarei tão difícil realização, mas os primeiros sinais de que alguma coisa está a mudar em mim começaram já a manifestar-se, como aconteceu na quarta feira, dia de todos os santos. Um feriado à quarta feira é sempre de louvar, seja de que religião for. Não sou crente, mas não me passa pela cabeça opor aos feriados religiosos, por mim celebraria todos, de todas as religiões e seitas subsidiárias. Como tal, aproveitei a dádiva do deus dos católicos e sentei-me na esplanada de um restaurante, com a minha cadela ao colo, a degustar raia frita com arroz de tomate.
No fim, passou um jovem casal com outro cão e a Amália ladrou. Controlei-a. Ninguém se incomodou, à exceção de uma mulher estilizada, muito bonita, a caminho dos cinquenta anos, que fez questão de que se soubesse que não estava ali apenas pela qualidade das iguarias, mas também para opinar sobre a liberalização dos animais nos restaurantes e, sobretudo pelo facto de alguns deles, mais do que ladrarem, poderem lamber os genitais à vista dos clientes.
Quando iniciei a minha terceira temporada (digamos assim) de terapia, o doutor Alvarez olhou-me e abanou a cabeça antes de confessar com perplexidade:
― Nunca tive um caso como o seu! Nunca ninguém me pediu para o ajudar a ser mau, e olhe que tenho lidado com todo o tipo de doentes, alguns deles, do género que ninguém gostaria de ter mais perto do que um fornecedor de emprego temporário.
Encolhi os ombros com embaraço.
Os personagens são a mola central dos romances, e a edificação de um personagem é uma criação complexa, que me obriga, enquanto escritor, a projetar no boneco a minha própria personalidade, ou uma variante da mesma, ou o inverso dela, ou ainda, quando tenho essa rara opção, inspirar-me na personalidade de alguém que conheço. Até aí tudo bem, o difícil é depois dar vida a essa figura e deixá-la agir com coerência, segundo um padrão de critérios que não são os meus. Ninguém que aspire a escrever bem pode recusar a assumir-se como canalha sem destruir todos os romances que alguma vez consiga terminar. Foi isso que me levou de novo ao consultório do doutor Alvarez; mas, do mesmo modo que não há medicamentos que atuem apenas no sentido desejado, também a terapia tem as suas contraindicações, e a minha não é exceção. O médico alertou-me para isso.

― Se você viesse pedir-me ajuda para melhorar o seu deplorável sentido de orientação, seria menos surpreendente... ― disse-me. ― Mas pronto, vamos lá ver se consigo fazer de si um bandalho... ― concluiu com despropositada ironia. ― ...em termos literários!
Só libertando-me dos mais resilientes preconceitos despertarei todos os meus sentidos; só admitindo ser capaz de atitudes contraditórias e abjetas, conseguirei descrever os sentimentos, as emoções, e, por conseguinte, engendrar os comportamentos dos personagens que extravasem do meu código moral. Se aspiro a criar todo o tipo de heróis e seus arqui-inimigos (incluindo os mais ignóbeis) terei que sentir-me como ambos, e isso não me será fácil, nem rápido... nem indolor.
Numa outra ocasião teria deixado passar a provocação da senhora no restaurante, mas não na quarta feira de todos os santos. Não depois de iniciar a terapia. Paguei, levantei-me em silêncio e fiz também questão de, numa atitude revanchista, própria de um modelo beligerante, explicar que, quando os canídeos lambem os genitais, na maioria das vezes, fazem-no com preocupações higiénicas, desculpa que nós as pessoas não podemos usar, e, creio bem, nem devemos.
O acompanhante da senhora ficou a olhar-me e a digerir todas as palavras juntamente com a massa de peixe (que por sinal ali confecionam muitíssimo bem) enquanto se questionava se a afronta justificaria interromper o almoço para me dar dois sopapos. Porém, antes que se decidisse já eu tinha reerguido os meus padrões civilizacionais e, envergonhado, deixado levar-me pela trela da Amália, insatisfeito comigo e duvidoso quanto a conseguir retirar do meu comportamento mais do que material para a construção de um personagem mal-educado.
Desci a rua com a consciência demasiado intranquila para o meu gosto, o que não é a melhor maneira de descer a baixa do Montijo. Não necessitaria de ser um génio, adverti-me, para perceber que riscos estou a correr ao demolir as barreiras da minha educação. Se não tiver cuidado acabarei por prejudicar a pouca vida social que possuo e condicionarei, ainda mais, a minha expressão escrita, já que a maior fonte de inspiração do que escrevo (disfarçadamente é certo) vem dos que me rodeiam. Não necessito de ser um génio, e não o sou, um génio seria capaz de escrever tudo o que quisesse sem necessidade de maltratar alguém.
Enquanto caminhava voltei a dar azo ao meu lado obscuro, que reconsiderou: «Não. Os génios, como todos os deuses, não existem. Génio (concebi com imperturbável agudeza de espírito e capacidade crítica) seria o que se alimentasse apenas de pão com manteiga e defecasse, ainda assim, diamantes polidos. Porra, isso é que seria genial!».
Esta minha nova condição emocional faz-me sentir muitas vezes desamparado, confuso e, não raramente, necessitado de uma bengala mística, de uma epifania de fé que me fizesse crer que a minha passagem pela terra, e sobretudo pela baixa do Montijo, fosse um caminho de provações cuja finalidade é fazer-me merecer a entrada no paraíso celeste... Porém, acabo sempre por encolher os ombros, resignado, pois que a minha deplorável desorientação não permite encontrar uma morada nova antes da terceira ou quarta tentativas, como tal, mesmo que fosse tocado pela revelação da fé e caminhasse na direção dos portões do Éden, o mais certo seria acabar por bater duas portas ao lado.
Não sei se alguma vez escreverei tão bem quanto é meu desejo, nem que preço terei que pagar se um dia o conseguir. A única certeza é a de que não me será fácil, nem rápido... nem indolor, caminhar pela baixa do Montijo de cabeça erguida, antes de chegar a casa e pôr-me a escrever, no cantinho esconso do meu quarto, como um execrável alarve!