Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir

Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir

10.Ago.17

O efeito das borboletas (parte I)

― Estou a pensar deixar o emprego ― disse e calculei que, se encurtasse a consulta, ainda teria tempo para ir beber um café à Mimosa e comer um pastel de nata... morno...
― Encontrou outro?
― Não.
Já sabia que ele me iria perguntar se tinha deixado de fazer a medicação. Por isso sorri antes de responder que sim. E para que não houvessem quaisquer dúvidas completei: ― Deixei.
― Por alguma razão? ― quis ele saber.
Há dois anos que pago uma enormidade para este tipo me ouvir e fazer perguntas sobre a minha vida, sobre o meu trabalho… ou o que penso.
Contive-me com algum esforço e não lhe respondi.
― Por que razão quer abandonar o seu emprego?
― Não. Não quero.
― Mas está a pensar deixá-lo…
― Não conseguirei continuar a trabalhar sem tornar explicito o meu ponto de vista.
― E qual é o seu ponto de vista?
― O meu patrão está a transformar-se num merdas!
O médico ficou calado, como se necessitasse de avaliar o sentido das minhas palavras. E já agora, eu também.
― Quando é que iniciou as férias? ― volveu estupidamente, uma vez que, o que queria mesmo saber, era há quanto tempo havia eu deixado de tomar os comprimidos. Por que não hão de as pessoas ser frontais?
― Quinze dias ― respondi com um enfase definitivo.
Houve um compasso de silêncio antes que ele voltasse à carga:
― E por que razão diz que o seu patrão está a transformar-se… num merdas?
Respirei fundo.
― Porque agora temos que despejar o lixo no fim de cada dia de trabalho.
Esperei mais dois minutos até ouvir uma nova pergunta:
― É muito?
― O quê? ― perguntei.
― O lixo.
― Não.
― Mesmo assim, parece-lhe suficiente para abandonar o emprego?
― A questão não é a quantidade de lixo. É ele ser um merdas e por isso mesmo termos que despejar o nosso lixo.
― Vamos voltar à sua medicação, ou à falta dela…. Sente-se melhor?
Já me tinha interrogado se valeria a pena continuar com estas consultas, aliás, acho que nunca deixei de me questionar desde a primeira vez. Voltei a fazê-lo. Aquela pergunta era bastante mais complexa do que à primeira vista parecia, não pela interrogação em si, mas pela resposta que me exigia. E ele sabia isso. Decidi responder pela metade:
― Por um lado, sim.
― E por outro? ― volveu o psiquiatra.
― Sabe que me questiono sobre se vale a pena continuar com as suas consultas? ― Não consegui conter-me.
― Calculava que o fizesse ― admitiu o médico.
Senti-me melhor por lho ter dito. Senti-me tão bem que acedi a responder-lhe:
― Bom… eu sei que a medicação me faz falta… ― parei de repente; estavamos a desviar-nos. ― Mas repare, a questão é que temos duas empregadas de limpeza a trabalhar em part-time. Uma durante a primeira metade do expediente e a outra no segundo turno; e, tal como todos os outros funcionários, têm que se aplicar para manter a empresa a funcionar bem. E a empresa funciona bem! Ou pelo menos funcionava, até a empregada da manhã começar a sofrer de vertigens…
O médico levantou a mão para me interromper. Coisa que não me lembro de alguma vez antes ter feito.
― Não queria interrompê-lo, mas parece-me importante estabelecer a razão pela qual não se sente bem sem a medicação ― ouviu-o.
Olhei-o e percebi que me desafiava. Nunca fujo a um desafio a não ser que tome a medicação sem interrupções.
― Há qualquer coisa de humilhante nas minhas consultas ― avaliei-o para ver se aguentava e decidi continuar: ― Talvez porque nunca encontrei um único momento em que temesse sentir-me estúpido se mandasse tudo bardamerda, saísse e batesse com a porta! ― disse numa rajada de palavras.
Ele não se mexeu. Foi como se não lhe tivesse acertado. O meu patrão deveria saber reagir assim. Seria bom para todos, para si, para os meus colegas, para a empresa... e eu não nunca perderia o emprego.
― Já percebeu que me está a ser difícil ficar calado e não dizer o que penso… ― observei. ― Então, imagine o que acontecerá quando disser ao patrão que está a transformar-se num merdas.
― Já alguma vez antes se sentiu assim?
Sacudi a cabeça de imediato. Depois sorri. Estava a ficar demasiado temperamental, reativo. Olhei-o nos olhos e percebi que anotara igualmente aquele meu gesto impulsivo.
― Antes iniciar a medicação? ― tentou ele.
― Você não está a perceber! Dito assim, até parece mesquinho da minha parte não querer despejar o lixo...
― Por favor ― murmurou o psiquiatra. ― Continue.
Não lhe agradeci, mas aproveitei a disponibilidade para continuar, quando estava prestes a mandá-lo bardamerda, levantar-me e a bater com a porta.
― Depois de uma das últimas crises de vertigens da emprega da manhã, o patrão, farto das interrupções dela, decidiu começar a descontar-lhe os tempos de paragem em que se deitava a recuperar das vertigens… ― Olhámo-nos. A sua expressão de ausência parecia estar a favor do meu patrão. ― Porra, a mulher trabalha lá há 10 anos!
― Mas ele pode fazê-lo, sabia?
Abanei a cabeça de imediato. Frustrado.
― Sei que pode fazê-lo, mas que importa isso se ela nunca deixou de fazer o seu trabalho?!
― Disse-o ao seu patrão?
― Não.
― Por quê?
― Porque ainda estava sob o efeito do raio dos seus medicamentos!
― Acha então injusto que ele desconte os tempos de incapacidade da senhora da limpeza…
― A questão não é de justiça, muito embora pudesse ser. A questão é que a mulher decidiu que, se ele lhe descontava os tempos de paragem, então, já não estaria obrigada a recuperar o serviço em atraso, e começou a deixar mais trabalho para a colega do segundo turno.
Bastava olhar para ele para perceber que não ainda tinha alcançado o efeito da atitude imbecil do meu patrão.
― Ora, acontece que a funcionária da tarde interpretou as coisas de um modo muito pessoal... e sentiu-se no direito de cumprir apenas a sua parte. Resultado: começou a deixar trabalho por terminar. Uma bola de neve, entende agora? Quando a primeira lá chegava ainda havia limpeza do dia anterior por realizar… Gerou-se uma confusão tal que, quando as casas de banho começaram a andar sujas o patrão tomou a decisão de substituir as duas, pela incompatibilidade criada entre ambas, e substituí-las por uma só. Mas uma só não chega para tanto trabalho, e, por isso, todos nós temos agora que dar uma ajuda.
― E a si cabe-lhe despejar o seu lixo… ― observou friamente o psiquiatra.
― O que não teria importância de maior… ― ressalvei.
― Se… ― induziu o psiquiatra.
― Se eu pudesse dizer àquele merdas o que já disse a todos os outros: que a culpa é toda dele! Agora cada qual trabalha um pouco menos do que antes para compensar o facto de ainda ter que fazer a sua limpeza. Mea culpa!
― Talvez possa ― insinuou o médico. ― Talvez possa dizer-lhe, se não lhe chamar… merdas.
― Não consigo!
― Consegue…
― Não consigo!
― Consegue… se retomar a medicação consegue.
― Se retomar a medicação, nunca lho direi, manter-me-ei na minha secretária, e murmurarrei pelos cantos, como todos os outros, enquanto vemos a empresa ir pelo cano abaixo.
Olhámo-nos, conscientes de que aquela era a hora de todas as decisões.
― O pior é que ele nunca iria saber que é um merdas! ― sentenciei enquanto me levantava.
― Onde vai? ― ouviu-o perguntar.
― À Mimosa! ― respondi.
Abri a porta e bati-a, finalmente, com toda a força.