Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir

Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir

02.Abr.17

Troca de olhares

Havia apenas uma mesa livre junto da de duas mulheres, que pareciam reunidas com um semblante de seriedade. Olhei antes de sentar-me de costas para a que se mantinha de cabeça baixa, como se ouvisse contrariada mas obediente o que a outra lhe dizia.  

Pedi um abatanado e observei a entrada de uma mulher lindíssima que chegava com um sorriso nos lábios, avançando decidida na minha direção. Pensei que me pudesse ter confundido com alguém seu conhecido mas depressa percebi que não era para mim que sorria. Passou e sentou-se algures na mesa de trás. – Voltou a bater-te! – ouvi-a proferir com indignação. 

Mexi o café mas já não fui capaz de me abstrair da proximidade da outra mesa. 

– Não fales alto... – pediu a das minhas costas. Adivinhei a sua cabeça baixa mais baixa ainda. 

– Como é que foi? 

– Um croissant e meia-de-leite! – pediu a recém-chegada ao jovem empregado de mesa, com uma entoação algo descontrolada. 

– Vá, diz-lhe como foi – incentivou a outra. – E já agora, diz-lhe por que é que foi desta vez. 

Houve um momento de silêncio antes de que a de cabeça baixa se decidisse a falar: 

– Por causa do jantar… mas a culpa foi minha… 

– Por que é que a culpa foi tua? – perguntou a recém-chegada, aparentemente chocada. 

– Porque a culpa é sempre dela! – interveio outra. – Ele bate-lhe e a culpa é sempre dela! 

– Deixei queimar a carne no forno! 

– Deixaste queimar a carne!… Se fosse comigo ter-lhe-ia deixado queimar os cornos dentro do forno! 

– Tens que acabar com isso – observou a recém-chegada. – Não podes viver com uma pessoa que te agride só porque queimas o jantar. 

– Encontra um tipo que te leve para a cama e que a seguir lhe parta as trombas! – propôs a outra. 

– Sim… Se não queres apresentar queixa na polícia… – completou a recém chegada. 

– Já o fiz – disse a outra. 

O empregado aproximou-se, aplacando os ânimos momentaneamente. 

– Acho que este tipo gosta de ti... – observou a amiga. 

– É verdade que fizeste queixa na polícia? -- perguntou-lhe a recém-chegada. 

– É. 

– E então? 

– Disseram-me que terá que ser ela a fazê-lo. 

– Então tens que o fazer Micá! 

– E depois? 

– Depois? 

– Sim… e depois, volto para casa e faço-lhe o jantar? 

Ao fim de um pequeno silêncio tornei a ouvir a recém-chegada: 

– Podes ficar na minha casa. 

O empregado aproximou-se: 

– Necessita de alguma coisa? 

– Não obrigado – respondeu a vítima. 

Olhei o empregado a afastar-se. 

– Já reparaste que este empregado se preocupa mesmo com ela? – observou a outra mas não obteve resposta, em vez disso a recém chegada continuou: 

– Tens que ser mais exigente com a tua vida, mereces ser feliz!  

– E às vezes a felicidade não anda assim tão longe de nós… ques que chame o empregado?  

– Tens que ganhar coragem… – insistiu a recém-chegada. 

– E espetar-lhe um garfo na testa! 

– Não estás a a ajudar… – observou a recém chegada. 

– A ajuda está nas mãos dela! Eu já fiz o que podia e não lhe serviu de grande coisa. O mais que agora posso fazer é oferecer-lhe também a minha cama. A ela e ao empregado de mesa! 

Riram-se todas. Não sei porquê, mas senti algum alívio por as ouvir rir. 

– Onde é que ele está? 

– No hospital -- respondeu a vítima. 

– Está doente, de novo? – questionou a recém-chegada. 

– Está. 

– Graças a Deus! – interveio outra. – Pelo menos isso. A parvalhona vai vê-lo a seguir e ainda lhe leva um bolo! 

– Isso é verdade? – interveio a recém-chegada. 

– É. 

– Ela vai sempre vê-lo! 

– Quantas vezes já esteve internado? 

– ...Três – respondeu a vítima com uma alguma dificuldade. – A primeira foi num domingo à tarde, em janeiro, logo a seguir aniversário dele... Tive que chamar uma ambulância.  Depois foi numa quinta-feira, adoeceu a meio da tarde, no trabalho. Desta vez nem chegou ao escritório. Adoeceu no carro… Tinha colocado estofos em pele há três dias. 

– Mas que doença tem? – lembrou-se uma delas. 

– … É dos intestinos. Surge-lhe umas diarreias que quase o derretem! 

Ouvi de novo gargalhadas e, por entre elas, o riso contido da vítima. 

– Não vás vê-lo! – pediu a recém chegada. 

– Tenho que ir. Tenho mesmo que ir! 

Desiludido, levantei-me. Tirei dinheiro do bolso, deixei-o sobre a mesa e observei, uma por uma, as mulheres. Olharam-me sem atenção; pareciam ter mais em que pensar. Por isso não lhes deixei qualquer palavra de conforto, sequer de incentivo à vítima. Porém, esta adivinhou-me intento e fez-me entender que não haveria necessidade de me intrometer. Algo no seu olhar me garantira isso, que não seria necessário. Por quê? Por que é que não seria necessário? 

Saí da pastelaria Mimosa e esforcei-me por decifrar aquele olhar tranquilo, firme e seguro da mulher que, ainda assim, apresentava uma equimose no rosto. 

Ela ia vê-lo ao hospital; ele já adoecera três vezes, enumerei: Uma a seguir ao seu aniversário, outra durante a tarde, no emprego, e outra em viagem, no carro com estofos novos, de pele. A mulher tinha o rosto amassado mas um olhar firme. Talvez por isso, imaginei-a a chegar ao hospital e a depositar o bolo sobre a mesa de cabeceira do agressor, acamado, com um balão de soro sobre a cabeça. Cumprimenta-o. Beija-o no rosto sobre a barba de dois dias. 

– O que é que me trouxeste? – pergunta ele. 

– Um bolo de arroz – responde ela.  

– O arroz é bom para a diarreia… – observa ele com um sorriso fraco. 

Ela também sorri. 

– O mesmo bolo que te fiz quando adoeceste a primeira vez, depois de te colocar óleo de rícino na baba de camelo que tu gostaste tanto... 

Os olhos dele fixam-se no rosto dela, mas não vêm a nódoa negra. É como se tivesse dificuldade em assimilar as palavras da mulher. Tenta compor uma expressão de intimidatória, mas a mulher prossegue, alheia: 

– Da segunda vez experimentei folhas de um chá que comprei na ervanária. Hoje penso que podia ter usado uma quantidade maior, mas tive receio que prejudicasse o sabor dos biscoitos que ias levar para o emprego.  

– Que raio estás a dizer?! – grita ele com raiva. 

– Desta vez usei as duas coisas e consegui que não chegasses inteiro ao escritório. 

– Isso foi um crime! – vocifera ele. 

– Crime foi o estado como deixaste os estofos novos do carro… – observa a mulher e olha-o nos olhos com o mesmo olhar sereno e firme com que olhou para mim. – Assim que abri a porta, depois que o reboque o trouxe de volta, percebi que não conseguiria lavar aquela merda toda. Lamento. 

– Vou fazer queixa à polícia! 

– Tem piada – observa ela, levantando-se da cadeira com graciosidade. – É o que toda a gente me diz para fazer. 

– Cabra! – chama ele tentando erguer-se na cama. – Vou fazer-te pagar por tudo! 

– Acalma-te – serena-o ela. – Estás muito combalido… 

Ele percebe pela primeira vez que a sua expressão, por si só, já não é suficiente para a intimidar e isso perturba-o. 

A mulher dá a volta à cama e debruça-se sobre o embrulho do bolo, abrindo-o. 

– Queres uma fatia? 

Respiro fundo e sorrio, satisfeito por finalmente ter decifrado o olhar dela.  

1 comentário

Comentar post