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Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir

Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir

25.Nov.17

Parar o tempo numa esplanada egípcia

Tinha os olhos fechados e a estranha sensação de que tudo se imobilizava à sua volta.

Percebeu, sem saber porquê, que devia ter escolhido Paris, mas já era tarde, não podia voltar atrás, não era possível viver o mesmo tempo duas vezes, lamentou consciente da inutilidade do queixume. Se nunca antes o pretendera fazer, por ser infrutífero, seria escusado exigi-lo agora. Parar o tempo sim, já o ambicionara algumas vezes e o fracasso de todas elas nunca o impedira de tentar outra e mais uma vez, como naquele instante, a milhares de quilómetros de casa, na esplanada de um café árabe, com os olhos fechados e um largo silêncio à sua volta.

O que o atraíra naquele café fora a disposição das cadeiras, que não se encontravam viradas umas para as outras, mas de frente para o passeio público, como se se tratasse de uma plateia aberta para um palco onde os atores eram as próprias pessoas que passavam. Cada mesa, cada tampo puído, redondo e ornamentado com os característicos arabescos, emparelhava com duas cadeiras cujas costas, igualmente trabalhadas por mãos hábeis e delicados formões, apresentavam já o desgaste do uso e da passagem do… tempo.

Havia muita gente quando chegaram, embora as arcadas do café não protegessem senão algumas mesas do sol oblíquo do fim de tarde, razão pela qual, Teresa, depois de se sentar, colocara os óculos de sol e o procurara com um sorriso de lábios torcidos, em dissimulada contrariedade.

― Um pouco de sol é um preço muito baixo a pagar por esta mesa quase partilhada pelos transeuntes e os escapes dos automóveis ― volveu-lhe ele, irónico, mas firme. ― Em Paris não terias isto.

― Se não te conhecesse poderia pensar que estás a escarnecer de mim ― retorquiu Teresa. ― Mas já te conheço o suficiente para saber que falas a sério.

Observaram demoradamente o céu, a marcha das pessoas, o trânsito caótico e as mesas em volta, antes de se voltarem a encontrar nos próprios olhos.

― Como é que viemos aqui parar e não a Paris? ― ouviu-a questionar maldosamente, antes de acrescentar num tom de desculpa: ― Não é que não esteja a adorar o Egipto... E, tens razão, esta esplanada tem qualquer coisa de intenso!

No momento de escolherem as férias, Teresa tinha insistido em Paris, argumentando entre outras razões que «O Médio Oriente, neste momento, parece-me um lugar perigoso...». Fê-lo num murmúrio, conhecedora do poder dissuasor da sua voz sobre a insistência dele.

― Mas querida ― argumentara-lhe. ― Tenho a certeza de que a estrada do Montijo à Reta do Cabo, que todos os dias percorro, regista mais mortes por acidente num só ano do que esta cidade em cinco por atentado.

O argumento não a convencera, mas dissuadira-a de o contrariar.

― E depois, Paris está apenas a duas horas da porta da nossa casa, podemos lá ir em qualquer outra altura; esta oportunidade é que dificilmente voltaríamos a encontrar, o tempo não se repete!

Por vezes, quando se sentia particularmente feliz, cedia à tentação de tentar segurar o instante e não deixar o tempo fugir. Não tinha dúvidas de que cada momento variava não só dependente das circunstâncias, mas também de quem o vivia. Assim, para algumas pessoas, o tempo podia ser insuportável e imenso, enquanto que, para outras, o mesmo tempo seria um doce e fugaz bater de pálpebras. O encantamento do tempo resulta de se fazer sentir como uma matéria maleável, que tanto pode alongar-se quanto encurtar de modo drástico. Infelizmente, não só nunca havia conseguido submeter o tempo à sua vontade como tinha adquirido que, fosse qual fosse a sua qualidade e quantidade, o tempo nunca se repete.

Se fosse possível viver o mesmo momento duas vezes, teriam ido a Paris enquanto visitavam também o Médio Oriente, garantiu a si mesmo, tentando não se interrogar sobre a persistente ausência de som e a interrupção da marcha das pessoas. De qualquer modo, Teresa deixara-se envolver pela magia do Egipto no momento em que o avião pousara no Cairo. Ainda há pouco, no mercado, tinha-la visto regatear duas pulseiras de latão com um prazer que lhe transbordava das palavras, dos gestos, da voz.

― Levá-las-ei para Paris ― acirrara-o guardando cuidadosamente as pulseiras na mala.

Sentiu vontade de quebrar o silêncio com um gole de água, mas não procurou o copo. Abriu os olhos e verificou que se aproximava o final da tarde. O sol esvaía-se no filtro da densa película de pó que pairava agora na atmosfera, dourando as casas e as ruas, criando um ambiente algo fantástico, quase feérico, que mais do que o instar, convencia-o de que podia realmente parar o tempo. Piscou os olhos, depois cerrou-os e concentrou-se.

Quando se sentaram, Teresa havia pedido um sumo de frutos vermelhos e ele um café e uma garrafa de água para ambos, que o empregado, vestido de branco dos pés à cabeça, lhes trouxe prontamente. Provaram as bebidas e acariciaram as mãos um do outro antes de ela se levantar e lhe beijar levemente os lábios, enquanto compunha uma pequena frase com um esforçado, mas errado francês:

J’ai va aux toillette.

Ele riu-se. Sentia-se especialmente bem por estarem numa cidade longínqua, cheia de cores, sons, texturas e cheiros novos. Sentia-se tão bem que quase cedeu, nesse instante, ao exercício de tentar deter o tempo, mas ficou-se pela tentação, bem mais fácil, de bisbilhotar os transeuntes. Assim, procurou adivinhar as feições das mulheres sob as burkas, a ocupação dos homens pela desenvoltura dos seus passos e divertiu-se com o desprezo com que os condutores ignoravam as luzes e os sinais de trânsito, até ao inusitado estrondo de uma gigantesca porta bater e a respetiva deslocação do ar varrer a esplanada. Lembrou-se imediatamente de Teresa. Ter-se-ia afastado o suficiente? Manteve os olhos fechados e tentou, uma vez mais, deter o tempo, agora com desespero, e quando percebeu que não havia qualquer movimento à sua volta, por um instante, acreditou que o tempo tinha finalmente parado. 

Abriu os olhos. Nada se movia. Não viu ninguém de pé e os próprios automóveis encontravam-se parados no meio da estrada. O ar estava impregnado de pequenas partículas que o sol doirava e fazia faiscar por cima da sua cabeça. A única coisa audível no vazio sonoro dos seus ouvidos, era a voz longínqua de Teresa. Uma voz sem palavras nem qualquer necessidade delas, que lhe expressava uma intensa emoção, um sentimento profundo. Uma voz que até a gritar lhe chegava exata, envolvente, macia.

Piscou os olhos sujos de pó e deixou pender a cabeça lentamente, como se tivesse todo o tempo do mundo. Então, ergueu o braço com uma imensa dificuldade e olhou o mostrador do relógio: estático. Esboçou um sorriso por ter conseguido parar o tempo!

A polpa de um dedo quente pressionou-lhe o ouvido esquerdo e afagou-lhe lentamente a face até cair, em grossas gotas de sangue, sobre o mostrador sem vidro do seu relógio de pulso.

 

Livre dos braços rígidos do empregado da esplanada (agora com as calças sujas e a camisa rasgada) Teresa susteve repentinamente os gritos na garganta, para ouvir, tão desnecessária quanto absurda, a primeira sirene do alarme.