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Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir

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12.Mar.17

O meu preço (parte I)

Os funcionários da Pensão Havaneza foram simpáticos e solícitos. Não cheguei a perceber se algum deles me reconheceu como sendo dali, do Montijo, limitei-me a deixar-me guiar enquanto informavam, à distância incomensurável de um braço, qual a disponibilidade do serviço de quartos e o horário do pequeno almoço. O quarto tem vista para a Praça da República. Olho-a e admiro com desinteresse a estátua de bronze deitada sobre o pequeno lago com repuxo. A aragem da madrugada refresca-me os lábios congestionados mas, ainda assim, resolvo voltar para dentro. A inquietude fervilha-me no peito e impede-me de ficar parado, sequer sentar-me na borda da cama, por isso dou alguns passos pelo quarto. De repente, vejo-me agarrado ao lavatório, com os dedos ainda trémulos. O som metálico de uma bofetada assobia-me nos ouvidos. Fecho os olhos e revejo o rosto de Cátia no seu movimento instintivo; na sua expressão de medo, no seu esgar de pânico. Olhei-a e nada fiz. Por quê? – Sua puta! – ressoou-me à distância de um braço. Cátia recuara e gemera. Não de dor, tenho a certeza, mas de desespero. Com uma disciplinada impotência, esperei pela minha vez e vi a a mão dele, à distância de um braço, começar a crescer na minha direção. Não me encolhi. Não gemi. Limitei-me a esperar. Por quê? O soco acertou-me na boca e sacudiu-me o cérebro com um estampido seco, quente e áspero, explodindo como um trovão abafado. Lembro-me de ter visto uma luz branca, baça, e ter identificado perfeitamente os pelos duros dos seus dedos quando me esmagaram os lábios. Mais do que a própria pancada, fora o contacto com os pelos da sua mão que me fez sentir mais humilhado. Recuei e levantei os punhos para restabelecer o meu limite. Ficámos ambos à distância de um braço! Recusei-me a olhar para Cátia, pois nada podia fazer por ela. Abri a mão, de modo a manter a distância de segurança e passei pela porta, deixando-os a sós para resolverem as suas vidas, e vim para a pensão. O espelho sobre o lavatório do quarto encontra-se imaculadamente limpo mas, ainda assim, tenho alguma dificuldade em observar o meu rosto. Os meus olhos retêm-me no reflexo dos meus olhos enquanto rememorizo: Cátia fechara a porta e prendera a corrente de aço. Depois beijámo-nos, abraçámo-nos e rolámos sobre a cama. Despimo-nos, explorámo-nos e possuímo-nos um ao outro. Foi então que ele tentou abrir a porta com a chave. Imobilizámo-nos. Impedido de entrar na sua própria casa, chamou-a primeiro e só depois tocou à campainha. Não tínhamos modo de escapar. Ele voltou a chamá-la e eu abracei-a. Confortei-a e quase sem darmos por isso recomeçarmos a fazer amor. Nunca fui muito precipitado na partilha da minha intimidade e nem naquele momento vi razão para começar a sê-lo. Por isso, possuí-a como se tudo nos fosse permitido, enquanto ele esperava e batia na porta. No fim, levantámo-nos. Evitei olhar Cátia nos olhos para não lhe dar qualquer esperança enquanto nos vestíamos e, à pequena distância do meu do meu braço encorajei-a a abrir a porta. Por quê? Porque tinha que ser assim! Não sei se ela esperava mais de mim. Não sei se ainda espera ou se já compreendeu que esta era a sua, a nossa, melhor saída e que será inútil deixar o marido para ir procurar-me na minha casa. Pisco os olhos e abro a torneira. Baixo a cabeça, sorvo um pequeno gole de água fria e cuspo-a. Um bochecho de sangue vivo inunda o lavatório e escorre até ao ralo. Este é o preço que estou disposto a pagar, quanto ao resto, já decidi ficar até amanhã e tomar o pequeno almoço aqui, na Pensão Havaneza.

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