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Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir

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20.Set.17

O melodrama de Carlota (2)

 

No dia em que se cruzou com Rafael, Carlota previu que ia morrer à frente do balcão da loja com um tiro e uma dor no coração, e isso nada teve de romântico. O mais estranho é que ele lhe pareceu uma pessoa normal.

Habituada a decifrar a vida dos outros, Carlota, impotente perante a fria exposição da sua fatalidade, voltou a interrogar-se sobre quem ou o que raio é que decide que se morra! Quem ou o que raio é que decreta que se adoeça? Quem ou o que raio é que havia resolvido que aquele rapaz lhe roubasse a vida? Sentiu uma imensa raiva e frustração.

Agora, quase dois anos depois de ter conhecido Rafael, ao abrir a porta do pequeno armário, não teve dúvidas de que o grande acontecimento da sua vida tinha chegado. Sentiu-o ao retirar a cafeteira elétrica! 

Sentou-se sobre o tampo da sanita e deixou cair a cabeça até tocar com o queixo no peito, depois fechou os olhos, a tremer. Aquele era o seu refúgio e já não encontraria outro. Sabia-o como sabia o que cada pessoa vinha procurar na sua loja antes mesmo de lho anunciar. Pouco percebia dos expedientes isotéricos que praticava e nunca conseguira encontrar qualquer relação entre a posição dos búzios, as sequências de cartas ou as linhas das mãos e a perceção que captava nos olhos dos seus clientes. Todo aquele folclore parecia-lhe tão estapafúrdio que por vezes nem olhava para os búzios e outras esquecia-se de baralhar as cartas ou lia a mão errada.

Quantas vezes avisara que havia um homem na vida de uma mulher? Ou que havia uma outra mulher na vida desse homem? Quantas vezes dissera a alguém que o dinheiro nunca seria a sua maior riqueza mas que ainda assim poderia ser muito feliz?

― Nunca serei rico? ― devolveu-lhe, certa vez, um homem na casa dos 40 anos, talvez menos.

Ela abanara a cabeça.

― Mesmo que acerte no euromilhões?

― Nunca acertará, mas mesmo que acertasse não enriqueceria.

― Isso não me parece justo... ― ouviu-o vociferar com uma irritação que a deixou arrepiada. Nunca antes tinha sentido tanto medo de alguém.

A atmosfera da exígua sala de lavabos encheu-se lentamente do aroma retemperador do café; só então Carlota levantou a cabeça. Odiava o cheiro dos incensos, haviam dias que provocavam-lhe náuseas, e, quando isso acontecia, encostava a porta da loja como que para realizar uma leitura a um cliente, refugiava-se ali e fazia um café. Por vezes, como hoje, demorava-se em pequenos goles, desejando que ninguém a procurasse para uma consulta de búzios, tarot, quiromancia, ou simplesmente para comprar a porcaria dos paus de incenso... Mas nunca, como hoje, a tremer.

O que lhe havia desencadeado o presságio com Rafael fora a combinação da T-shirt verde com os ténis da mesma cor, que ele trazia vestido. Nunca mais o voltou a ver assim!

Toda a gente tende a refugiar-se no futuro quando se sente frustrado e incapaz de alterar o curso da sua existência. Há quem se fique pela leitura das previsões astrológicas, mas há também quem acabe nas mãos de qualquer charlatão que lança búzios ou cartas ou lê as palmas das mãos. Carlota não "fazia" mapas astrológicos, mas encenava tudo o resto para apaziguar os clientes. Na maioria dos casos tratavam-se de mulheres jovens com problemas amorosos, embora houvesse de tudo, desde o vulgar desejo de enriquecer, até à instabilidade psiquiátrica, casos de violência doméstica ou de depressão comum. Carlota fazia tudo para os ajudar, escondendo-lhes sempre que o futuro, mudando incontrolavelmente a todo o instante, nunca alterava o seu desígnio final. O destino não se contraria, encurta-se, adia-se, mas não se altera. 

Tinha nascido com o dom da adivinhação, mas isso nunca lhe dera qualquer vantagem, não lhe servira sequer para evitar que a mãe morresse tão cedo, apesar de a ter arrastado para um especialista em diabetes muito antes de qualquer queixa, muito antes de qualquer alteração nas análises. Bastava-lhe olhar nos olhos de uma pessoa para conseguir ler a tendência primordial da sua vida, mas nada do que fizesse, ou melhor, tentasse fazer, a alteraria, podendo mesmo precipitar os acontecimentos; o destino sabe ser amargamente irónico.

Abrira aquela loja de artefactos isotéricos na baixa do Montijo, quase em frente da sua pastelaria preferida e a pouco mais de 30 metros do banco que lhe financiou o empréstimo. Não se podia queixar, se ganhava pouco com a venda dos artefactos, compensava nas consultas dos búzios, das cartas, das linhas das mãos.

A sua bisavó tinha morrido diabética, a avó também morrera por causa da diabetes e a mãe adquirira-a na segunda metade da vida mas soçobrara pouco depois, cega e insuficiente renal. A probabilidade de ela mesma adquirir diabetes era por isso considerável, caso vivesse o suficiente. Nunca o soube porque não era capaz de se ler. Quando se tratava de si tudo lhe aparecia nebuloso, confuso e ironicamente contraditório no reflexo dos espelhos. Antes assim. A forte probabilidade da diabetes era tudo o que alguma vez previra do seu futuro, até sentir a premonição da morte, dois anos antes, à saída do barco.

― Podemos falar um pouco?

Rafael parou e fez aquela cara de parvo que repetiria todas as vezes que ela tentava sugerir-lhe que algo de mau entre os dois acabaria por suceder.

― Não me posso ajudar, mas talvez possa fazer alguma coisa por ti!

― Não necessito de ajuda... ― balbuciou ele numa atitude de defesa.

Carlota olhou-o com tristeza e Rafael condoeu-se: ― Como é que me podes ajudar?

― Oferece-me um café...

Ele volvera-lhe com um sorriso: ― És maluca? É que se fores maluca será melhor esqueceres o café!

― Não sou maluca.

Carlota sabia que morrer-se vítima de homicídio, tal como a predisposição genética para adquirir diabetes, podia ser determinante no destino de uma pessoa. Nasce-se com a sina de ser pobre, remediado, rico, infeliz, feliz ou doente; pode-se tentar contrariar essa determinação, mas será uma luta inglória. Talvez os búzios o admitissem, ou as cartas, ou as linhas das mãos; todas essas coisas que a ajudavam a sustentar-se e a esconder o dom de adivinhar o futuro nos olhos dos outros, mas nas quais Carlota nunca acreditara.

Os dois anos que se seguiram ao primeiro café com Rafael podiam ter sido melhores se não tentasse interrogá-lo ou investigá-lo, até porque não logrou decifrar o momento em que a bala dele lhe acertaria dolorosamente no coração. Apaixonou-se, por razões que só a psicologia humana poderia explicar, ou talvez não. Também por isso, não podendo salvar-se, queria salvá-lo de um ato cujas consequências o perseguiriam por toda a vida; mas Rafael manteve-se intrespassável, respondendo-lhe com cara de parvo sempre que lhe tentava captar qualquer revelação dos seus olhos. Quando chegava de Alcochete para se encontrar com ela, evitava entrar na loja, sorria constrangido, encolhia os ombros como se não se quisesse envolver naqueles assuntos e ficava à espera no lado de fora, na esplanada da pastelaria Mimosa, a brincar com o telemóvel sobre uma chávena de café e um copo de água.

Ouviu um estouro vindo do lado do banco!

Levantou a cabeça e apertou o copo de café na mão, atenta.

Um grito! Pareceu-lhe um grito, o som que lhe revelou a imagem do banco com imensas notas espalhadas no chão. Sentiu-se fechada, demasiado fechada nos lavabos, à espera de que as coisas acontecessem. As coisas iriam acontecer, seria inevitável! Ouviu uma pancada na porta e a voz de Rafael. Levantou-se e atirou com o copo para dentro do lavatório, estilhaçando-o ruidosamente. Correu dos lavabos. Não. Não ia ficar à espera que a morte a viesse buscar!

Ele tinha voltado a vestir a camisola verde e os ténis do primeiro encontro. Quando a viu, parou de bater no vidro e sorriu com cara de parvo. Carlota avançou trémula, interrogando-se como seria possível que ele lhe pudesse fazer mal com um sorriso daqueles?

Outro estouro! ...Um tiro, sim claramente um tiro! E Rafael a voltar-se para trás e um homem com cerca de 40 anos, talvez menos, a correr com uma arma na mão... e depois a parar, a voltar-se para ela... e de novo os olhos de Rafael!

Subitamente percebeu a ironia do destino: Rafael não tinha vindo para a matar, ela é que se demorava para que ele morresse ali! Precipitou-se para a porta e abriu-a.

Outro tiro... a dor no peito, o coração a contrair-se com uma dor aguda, finíssima, e ela a chorar, impotente, com o rosto de Rafael contorcendo-se à frente dos seus olhos… E os polícias a correr atrás do homem, o mesmo homem a quem, meses antes, havia garantido que nunca enriqueceria.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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