Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir

Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir

22.Out.17

Leiopelma Pakeka (O meu preço - parte II)

Quando me disseram que Cátia tinha-se separado do marido e deixado o país, não sei por quê, calculei de imediato que tivesse ido para Espanha. Garantiram-me que não, que tinha partido para a Nova Zelândia. Sempre soube que Nova Zelândia está nos antípodas de Portugal, mas nunca me tinha apercebido do quanto estava igualmente longe do meu imaginário, contudo e desde então, passou a fazer parte do meu dia-a-dia, ou melhor, das minhas angústias quotidianas. Foi por isso que numa manhã, ao passar por um quiosque de Lisboa e deparar-me com o último número da revista National Geographic, fiquei especado a olhá-lo sem que me apercebesse do incómodo que a minha imobilidade causava aos clientes do quiosque.

Tinha deixado cessar a assinatura daquela revista havia uns dois anos, mas naquela manhã, indiferente ao desagrado das pessoas que se moviam roçando em mim, percebi que teria de comprar aquele número. A capa anunciava o destaque de três artigos, o primeiro sobre uma expedição aos gorilas da montanha. Os gorilas sempre foram o meu animal preferido até àquele dia. Nos últimos anos, sempre que visitava o Jardim Zoológico, costumava ficar a observá-los demoradamente, agarrado às proteções de ferro ou com as mãos em forma de concha sobre os vidros para espreitar, fascinado não só pela perturbadora familiaridade que nos une àqueles primatas, mas sobretudo pelo modo como me olhavam e de seguida me ignoravam, demonstrando um desprezo maior do que a minha frágil estrutura física poderia justificar. Era como se me avaliassem com um rápido olhar e concluíssem que não lhes merecia mais do que isso, deixando-me a pensar em alguns momentos menos dignos da minha existência.
O segundo artigo incidia sobre os corais do estuário do Sado, mas confesso que só dei por este no dia seguinte, porque também não foi o artigo do estuário do Sado que me obrigou a comprar aquela edição da revista, mas sim o terceiro título: “Pequenos sapos ameaçados de extinção acasalam nas ilhas de Maud”.
A partida de Cátia para a Nova Zelândia fizera-me interessar por aquele vasto país, perseguindo-a estupidamente em mapas, sítios de internet, referências desportivas e até em alguns filmes difíceis de adquirir. Não a descobri, não aprendi sequer muita coisa sobre a Nova Zelândia, mas sem que desse por isso tinha assimilado um nome: Ilhas de Maud. Sabia que se situavam no sul daquele país, embora sobre os ditos sapinhos confesso que desconhecia a sua existência e, como tal, o perigo da sua extinção.
Não me posso orgulhar do nosso começo, quando há vinte anos atrás Cátia era casada e tinha um filho, eu estava separado e nós ficámos amantes. Para uma situação que nada tinha de simples, exprimi-la assim numa só frase faz-me sentir ainda mais cínico, mas a verdade é que ultimamente tenho necessidade de repudiar todo e qualquer tipo de eufemismos. Sempre me conheci agnóstico, mas crente de que não existem crimes perfeitos, e a prova disso, obtive-a no dia em que a minha ousadia com Cátia terminara com o marido dela a bater à porta e nós a quereremos prolongar a nossa entrega por mais um pouco. Achei arriscado fugir pela janela, demasiado alta. Quando abrimos a porta ele cortou-me um lábio com um soco e a ela chamou-lhe puta.
Com a razoável desculpa de que nessa altura não tínhamos meios para nos sustentarmos e a consciência de que havia uma criança inocente, compreendi que estava a mais; resolvi morder o lábio, estancar a hemorragia e afastar-me para que se entendessem.
Lembro-me de ter passado por uma igreja e pedido a Deus que fosse Ele a resolver a trapalhada em que nos havíamos metido. Pedi-Lhe que a ajudasse a ficar junto do marido e do filho, porque embora na verdade eu a amasse muito, acreditava que essa seria a solução mais fácil e razoável para ambos, sobretudo para ela que, apesar de manter comigo uma relação extraconjugal, sempre demonstrara ser uma mãe extremosa. E Deus parece ter concordado.
Gostava de poder recordar o nosso amor somente como um intenso perfume de rosas; gostava de conseguir evocar o toque dos seus lábios apenas como uma suave carícia de pétalas vermelhas, mas a verdade é que o nosso amor nada teve a ver com isso, nem com chilrear de pássaros na primavera, nem sequer com o romper do sol sobre o oceano. O nosso amor doía. Ainda me dói.
É, portanto, natural que passados todos estes anos ainda sinta por Cátia uma dívida e um respeito inversamente proporcional ao que sinto por mim e não resista a procurá-la por entre os pequenos sapos das ilhas de Maud. Estes sapos são uma das quatro espécies nativas de Nova Zelândia, não coaxam, não vivem na água e, ao contrário do que é comum noutras raças da mesma espécie, nascem já com o seu habitual aspeto de batráquio completamente desenvolvido aquando da eclosão dos ovos, sem passarem pela fase girino. Uma outra característica é a inexistência de membranas interdigitais, que setenta milhões de anos de pouca necessidade de evolução se encarregaram de manter até hoje, fiquei ainda a saber pela National Geographic.
A evolução das espécies é a resposta biológica ao modo como elas se têm que adaptar às mudanças do meio, às circunstâncias que, quando demasiado bruscas, podem levá-las à extinção. Foi por isso um risco acrescido voltarmos a fazer amor depois de o marido ter descoberto o nosso relacionamento. Três pontos no interior do lábio inferior não eram suficientes para me afastarem da mulher que adorava. Os meus sentimentos pouco haviam mudado depois da agressão, mas, a partir daí, sempre que nos amávamos eu acrescentava ao imenso prazer que Cátia me proporcionava uma raiva que só não extravasava porque o seu contacto era maior que tudo, maior que a minha enorme e pesada consciência.
Se não há crimes perfeitos, a verdade é que a recorrência de um crime torna a sua imperfeição mais visível e deixa os seus autores mais expostos. Não levou muito tempo até que Cátia me abalasse com a notícia da sua segunda gravidez e me pusesse a fazer contas que não me excluíam da paternidade. Tinha feito um exame ecográfico e trazia dentro de si um embrião com pouco mais de um centímetro, anunciou-me a sorrir antes de chorar em seguida. Quanto a mim, o que um rasgão no lábio inferior não conseguira antes, a fotografia de uma pequena bolsa escura com um minúsculo pontinho branco no seu interior fizera depois. Falámos e concordámos que não podíamos continuar, que teríamos de mudar o curso das nossas vidas de uma vez por todas. Optei uma vez mais pela solução mais fácil, mas também mais difícil de concretizar: afastei-me dela e da sua gravidez com pouco mais de um centímetro. Por isso, não me posso orgulhar também da nossa separação.
Curiosamente, li, com pouco mais de um centímetro de comprimento na idade adulta, a espécie leiopelma pakeka, mais comummente conhecida pelos sapinhos das ilhas de Maud, encontra-se ameaçada de extinção, apesar de poder atingir os trinta anos de idade, e isto porque foram deixando de acasalar até que o seu número os inscreveu na lista de espécies mais ameaçadas da Nova Zelândia. Vinte anos depois do meu afastamento de Cátia, isto fazia-me constatar que também eu tinha deixado de acasalar, aos poucos, desde que nos havíamos separado, e agora encontrava-me só.
Contudo, continuava o artigo, em 2008 a estudante Kerri Lukis, da Victoria University, conduzira uma experiência recorrendo a 60 pequenos sapos que dividiu em dois grupos, colocando um em ambiente selvagem e o outro em clausura. No final da experiência a estudante constatou que a população em clausura assinalava um aumento de mais 13 indivíduos, conseguindo, inclusivamente, observar alguns em plena cópula. A comunidade de cientistas, biólogos e veterinários ligados ao estudo da espécie em questão, bem como alguns amantes da natureza, rejubilaram com o facto: o número de pequenos batráquios aumentara de 30 para 43!
Talvez pareça não fazer sentido, mas a experiência dos pequenos sapos deixou-me imensamente satisfeito. De repente, ali estava eu com os olhos postos numa revista, consciente da minha empatia para com um dos animais mais pequenos, desconhecidos e ameaçados do mundo, uma espécie noturna que vivia em tocas no solo húmido da Nova Zelândia, possuía músculos glúteos, mas não tinha ouvido externo. Uma espécie cujo macho tinha a particularidade de transportar a cria sobre as costas, cuidando delas. Mais simples e honestos, os pequenos sapos da espécie leiopelma pakeka, não podiam ser. Simples e honestos, mesmo aos olhos de um …gorila.
Cátia foi viver para a terra dos pequenos sapos das ilhas de Maud, está separada do marido e do casamento resultou a divisão da custódia dos filhos, ficando o mais velho com o pai, ela com o mais novo e eu com uma angústia que me levava a abrir mapas, seguir eventos desportivos e assistir a filmes feitos no outro lado do mundo. Agora que nada nos impedia de ficarmos juntos, que já nos poderíamos sustentar um ao outro, ela partia para os antípodas da minha imaginação levando um filho que parecia ser só seu e deixando-me preso à consequência das minhas decisões, sempre tomadas do modo mais fácil, mas tão difíceis de suportar que nem a memória de um soco no lábio inferior e um palavrão junto do meu ouvido externo, eram já suficientes para me apaziguar.
Invejo os pequenos sapos leiopelma pakeka, que recomeçaram a copular. Olho-os e volto a observá-los nas páginas da revista; as suas insignificantes figuras merecem-me um imenso respeito, especialmente os machos, que transportam os filhos às costas.

 

2 comentários

Comentar post