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Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir

Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir

07.Jan.17

Porra!

Tomo banho e olho-me no espelho. Esfrego o cabelo molhado com os dedos e admito que estou a ficar careca, mas hoje essa é a menor das minhas preocupações.

Coloco os meus documentos no bolso esquerdo do casaco, os falsos no bolso direito e saio para o encontro com o Rui à porta do cineteatro Joaquim d’Almeida, mesmo nas barbas da polícia. Ele sim, tem a coragem de pertencer à resistência, lutar e marcar encontros destes. Eu só colaboro. Sou um colaboracionista que apenas se esforça por permanecer no lado certo.

Está um dia de nevoeiro cerrado, nada agradável, que trespassa-me o casaco e toca-me na ponta dos ossos. E há demasiado movimento na rua; pessoas que caminham apressadas, passam por mim e olham para trás. Continuo. Passo a Praça da República, que um dia terá um nome alemão. Saúdo alguns amigos na esplanada do café Mimosa mas nenhum me responde. Há polícias a descer a rua. Estremeço mas prossigo. Agora não posso voltar atrás, seria demasiado suspeito. O nevoeiro tem um tom cinzento, igual ao medo que sinto e que me faz tremer mais do que o frio gélido desta manhã.

Aproximo-me do cineteatro e deparo-me com uma agitação policial incomum. Paro. Um polícia aproxima-se e pede-me a identificação. Tiro os documentos do bolso esquerdo, dou-lhos. O coração cresce-me no peito. O polícia pergunta-me para onde me dirijo. Não sei o que lhe responder, não pensei nesta possibilidade, afinal tão plausível. Olho em volta e não vejo o Rui. Ainda bem, não saberia como lhe entregar os documentos no meio deste aparato.

O meu pior pesadelo transforma-se em realidade e constato que é mais frio do que o nevoeiro que me enregela os ossos: Um oficial caminha na minha direção, com uma passada decidida e, por detrás do polícia, pergunta-lhe com um sotaque germânico se está tudo bem. O polícia responde que sim e devolve-me os documentos, mas o oficial detém-me com um gesto e observa-me. Se ele decidir revistar-me estou perdido. Manda-me levantar os braços mas eu finjo não o entender. O que farei se ele me palpar o bolso direito? Não posso denunciar o Rui nem o grupo de resistência…

Tomo consciência, demasiado tarde, de que sei demasiado para a escassa coragem que possuo. Levanto os braços e ele vai mesmo ao bolso direito. Quanto tempo vou resistir? Interrogo-me enquanto o oficial observa os documentos e sorri com cinismo. Depois tira a pistola do coldre e encosta o cano à minha face. Sinto-me humilhado com esse gesto.

― Onde está? ― pergunta.

Sei que se refere ao Rui, mas continuo a fingir que não o entendo. Não vai disparar porque quer mesmo saber onde ele está; não me sinto mais aliviado por isso.

Olho o polícia e este não esconde o incómodo por me ter deixado apanhar pelo oficial e ameaça-me com raiva. Está preparado para bater-me, mas sei que quando fizer será para tentar corrigir a sua falha perante o alemão e não para descarregar qualquer ódio que sinta por mim.

― Onde está? ― insiste o oficial.

Este é o instante em que, de toda a minha vida, mais lamento não ter nascido corajoso. Ainda assim não respondo. A pressão intensa do cano da pistola acaba por ferir-me a cara, porque sinto uma carícia quente e espessa escorrer-me até ao queixo.

À vista do sangue, o polícia apronta-se para me bater e o oficial para lhe ordenar que o faça. Depois será uma questão de tempo, de pouco tempo, receio, porque, infelizmente não nasci com fibra de herói.

Avalio, ali mesmo, todas as possibilidades: posso denunciar o Rui… mas isso não os satisfaria. Posso denunciar o Rui e toda a rede, mas nem isso os deixaria satisfeitos. Posso denunciar toda a gente que conheço, mesmo os mais inocentes, mas nem mesmo isso me livrará da prisão e da tortura…

― Onde está! ― grita o alemão.

Porra! Se os alemães tivessem ganho a guerra, poderia ser assim, agora, aqui no Montijo?