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Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir

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28.Jun.17

Brandão

Parece ser ponto assente que Brandão está internado no hospital do Barreiro, quanto ao resto é tudo demasiado dúbio para ser levado a sério. Uns dizem que fraturou o colo de fémur, outros dizem que lho fraturaram. Há quem avente que o problema é a fibrose pulmonar contraída na fábrica da cortiça, embora os mais maldosos jurem ser venéreo.
Não sei se alguma vez houve homem tão secretamente odiado no Montijo quanto Brandão. Tão odiado que, na realidade, poucos há que consintam tê-lo conhecido. Mas Brandão não nasceu proscrito.
Terá sido um menino pobre, filho primogénito de uma família de cinco irmãos e um enteado (órfão), dos quais três raparigas, é importante que se diga e que se acrescente que já nos tempos da escola primária Brandão tinha a fama de namoradeiro, que escrevia versos toscos, oferecia flores silvestres e segredava piropos aos ouvidos das meninas; isto para os que tendem a considerá-lo, absurdamente, misógino.
O pai morreu precocemente, da queda de um sobreiro, em plena época de descortiçamento, deixando uma viúva frágil e seis crianças desamparadas.
Brandão, ainda menino, teve que abandonar a escola e empregar-se, ironicamente, que o destino tem destas coisas, como aprendiz de numa fábrica de tratamento de cortiça, dividindo a guarda, educação e alimentação dos irmãos com a sua mãe.
Se sonhos alguma vez teve, terá sido forçado a adiá-los, tal como adiou, até onde pode, a contribuição dos irmãos para o sustento da casa, obrigando-os a estudar o que ele não pode e a evitar qualquer emprego no setor corticeiro, coisa que ele também não conseguiu.
De todos, foi o enteado dos seus pais, filho dos seus tios paternos (que emigraram para frança e nunca ninguém soube deles) quem mais progrediu nos estudos, logrando formar-se engenheiro civil e justificar os seus sacrifícios.
Quando a fábrica de tratamento de cortiça faliu, pouco depois da morte da mãe, Brandão, já sem o ónus do amparo da maioria dos irmãos, empregou-se no matadouro de uma fábrica de transformação de carne, que também não haveria de durar muito.
Ultimamente vivia de biscates, muito embora o primo o tenha tentado levar para perto de si. Tarde demais, ao que parece, porque quando Brandão se viu sem os irmãos para cuidar, talvez confrontado consigo mesmo e com os seus sonhos desfeitos ter-lhe-á pesado a solidão, ou a falta de um rumo, de uma mulher, ou simplesmente a frustração de todos os anos que sacrificou pelo sustento da família. E foi, quando muitos começam a desejar o descanso da reforma, que Brandão ressuscitou o seu íntimo e ensarilhou a pacata cidade do Montijo de um modo que, hoje, não há muitos homens que queiram admitir tê-lo conhecido. Embora, creio, de todas as mulheres montijenses com mais de cinquenta anos, poucas haverão que não tenham privado com ele.
Cinquenta anos é uma idade de desilusão na vida das pessoas. O fim dos sonhos pessoais e a consciência disso mesmo; é não haver dúvidas de que a vida nunca foi, não é e nunca será uma aventura de dias extraordinários, e que o amor, se alguma vez existiu, não passou de breve ilusão. Aos cinquenta anos, tudo o que se tem é o que se viveu e o que se vive. E esse terá sido o argumento a que Brandão mais vezes recorreu para seduzir as desencantadas mulheres da sua lista de colegas da escola primária, com versos demasiado toscos para um adulto, flores silvestres arrancadas dos canteiros e piropos segredados aos ouvidos. E chega isso para perturbar uma mulher de cinquenta anos? Parece que sim.
O que à primeira vista me suscita um sorriso de surpresa e ternura causou uma terrível onda de indignação no seio de muitas famílias do Montijo. Foram pais, foram maridos, foram filhos que sofreram os efeitos dessa sua sedução tardia. Mas talvez não seja justo culpar Brandão por todo o desassossego feminino desses anos; Brandão não pode ser culpado pela inevitável insatisfação humana, ele apenas se aproveitou dela e mitigou a sua parte.
Fosse como fosse, acabou por ser hostilizado pela população e teve que abandonar a cidade.
Não terá ido muito longe. Pelo que agora se sabe, está hospitalizado no Barreiro com um fratura da anca, segundo uns, ou com fibrose pulmonar, segundo outros, provavelmente causada pelo pó da cortiça. Doença venérea não, pelo menos é o que desejam quase todos os velhos que são pais, quase todas as filhas com mais de cinquenta anos, quase todos os filhos da mesma idade e os netos com mais de 30 anos, que, dizem, por não o conhecerem não o visitarão.

 

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