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Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir

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O melhor da vida é... fugir

01.Out.17

A vida dos outros (3)

― Metes-me nojo! ― murmurou Carlota ao passar.

Senti-me humilhado, evidentemente. Há murmúrios que soam mais alto do que gritos, há murmúrios que cospem raiva entre as palavras, como o dela. Levantei a cabeça, persegui-a até à porta da rua como um cão acossado, e lembrei-me do dia em que me olhou nos olhos e disse que a minha vida iria acabar mal. Só faltava ela, já todos os outros me odiavam.

Havia uns vinte minutos que vinha a observar os dois jovens sentados a uma das mesas, junto ao espelho que percorre a pastelaria. Pelo reflexo voltei a espiar o rosto da rapariga, não era parecida com Anabela, mas era lindíssima e não teria sequer 18 anos... Eu metia nojo? As palavras de Carlota ressoavam como espinhos nos meus ouvidos. Para todo o nosso grupo só eu possuía um dom estranho e uma ignóbil forma de vida, quiçá sobrevalorizados pelos meus 60 anos de idade ou simplesmente porque o meu modo de vida era diferente do deles e não se processava sobre a monotonia da normalidade. Eu vivia pela perseguição e captura de outras vidas.

Tem havido uma azáfama superficial, direi mesmo falsa, pelas ruas do Montijo. Bombos e cornetas, T-shirts e bandeiras, megafones e cartazes que prometem e anunciam vitórias eleitorais. Tudo isso me passa ao lado, faz parte daquela parte da vida dos outros que simplesmente não me interessa.

Olho para as pessoas que se agitam na rua, tocadas pela efémera energia da propaganda politica, e interrogo-me sobre em quantas das suas vidas já me intrometi, com quantas delas já me deitei. Quantas delas já persegui? São pessoas com vidas simples, pessoas com vidas complicadas, pessoas sem vida, pessoas com blogs, pessoas sem blogs, pessoas com e sem clubes na alma, pessoas sem alma... pessoas, simplesmente. Admito que, desde que Anabela desapareceu da minha existência, me tenha transformado num tipo esquisito. Admito isso, mas não que seja nojento.

Volto a mim e procuro o casal de jovens. A minha distração permitiu que o namorado da rapariga roçasse o joelho sem discrição, precipitado e com uma cómica falta de jeito, na sua coxa, fazendo-a retrair-se. Namoram há pouco tempo, é evidente. Ele mais velho do que ela (terá a idade que eu tinha quando conheci Anabela) e apresenta uma compleição física vulgar sem porte atlético, mas sem debilidades, porém, a personalidade é ainda frágil, exatamente como eu era. Está nervoso. Posso sentir o que ele sente. Posso perceber que a quer muito. Concentro-me, interiorizo-o e faço-o recolher a perna, puxo-lhe os cantos dos lábios para cima e componho-lhe um sorriso para escamotear da sua jovem companheira o que me parece demasiado evidente: ele é virgem e está em pânico!

A rapariga pergunta qualquer coisa, mas ele, idiota, de tão nervoso, inibe-se na resposta e bloqueia-me o sentido da audição, por isso, improviso uma piada vaga e ponho-lha na boca. Ela ri-se. Levanto o braço do apatetado pretendente e faço-o acariciar-lhe a mão: é macia, quente, mais jovem do que seria a de Anabela quando a conheci, mas hoje em dia... Subitamente, roda o punho num gesto quase maternal e oferece-lhe a palma da mão, correspondendo-me à carícia. Sorri. Fico satisfeito, afinal nada está perdido.
― Vamos? ― ouço-a pelos ouvidos dele.
Espero então que se levantem e preparo-me para os perseguir.

Já na rua, as pessoas olham-me sem prestarem atenção. Para eles sou apenas um tipo a andar, mas na verdade o que sou? Interrogo-me distraído com o olhar as pessoas que me olham distraídas sem me questionarem. Bom, pessoas que passam por mim, imaginem o mundo como uma selva (o que não é difícil, eu sei) agora imaginem o predador absoluto, o que pode perseguir-vos, o que vos pode tomar em qualquer espaço, o que se alimenta dos vossos erros, da vossa generosidade, da vossa dor, da vossa felicidade e da vossa intimidade... Esse predador sou eu. A minha vida são as vossas vidas, é nelas que me alimento, é nelas que vos salvo, que vos mato, que vos desprezo, que vos abraço. É nelas que sobrevivo. A vossa vida, quando e sempre que eu quiser, pertence-me! Agora ide, ide brincar às eleições!

Os dois jovens caminham de mão dada à minha frente, parecem-me pouco mais do que crianças, como já fui e quase não me lembro. Apercebo-me de que a mão dele aperta demasiado a dela. Concentro-me e relaxo-lhe os dedos, não quero correr o risco de ela se assustar, interrogar-se, hesitar e desistir de fazer amor com ele. Anabela não se assustou comigo.

Desde sempre que consigo interiorizar-me no corpo de qualquer pessoa e sentir o que ela sente, mas só depois de Anabela me abandonar me tornei dependente disso. Consigo inibir qualquer pessoa que interiorize; consigo libertá-la. Não posso negar que interfiro na vida dos que persigo, mas não os condiciono à minha vontade. Se Deus existe, reconheço-lhe como sua maior criação o livre arbítrio, respeito-o e faço dele a minha lei. Não deixei eu que Anabela se afastasse de mim, ainda que todos os dias sinta a sua falta? Dou um empurrãozinho, admito, aqui e ali, como o estou a fazer com o rapaz que tenta conquistar a amiga adolescente, mas não vou além disso, sei que ambos se desejam. E o meu desejo é que se desejem!

Serei nojento por isso? Quem se recusaria a saber o que sente um assassino quando mata? Eu sei, já os persegui, já os interiorizei e vivi os seus crimes. Ah, mas conheço também a dor das suas vítimas! Sei o que sente um pedófilo, mas também um político ou uma dona de casa, um refugiado ou um doente terminal. Sei o que sentem os ricos quando esbanjam dinheiro; sei o que é a fome dos que vasculham no lixo dos outros, mas nunca condicionei a existência de alguém! Eu vivo a vidas dos outros, não os forço a viverem a minha, que é demasiado sensaborona sem a deles. É assim, desde que Anabela se foi embora, não consigo deixar viver as vidas alheias, necessito dos seus dramas, dos seus sorrisos, de desejos que já não possuo, necessito de viver uma vida diferente todos os dias, sentir as pessoas no corpo delas, usufruir do seu desalento, da sua euforia, da sua dor e do seu prazer. Não me orgulho do meu dom, mas é o meu dom, vivo com ele, isso não faz de mim uma pessoa nojenta.

Os jovens param em frente a uma casa. Os pais dela não estão, ouço-a. Sinto o bater descompassado do coração dele. O meu coração também já bateu assim, há muitos anos, na primeira vez, por Anabela, por isso não o posso deixar dar um passo em falso. O turbilhão de sentimentos e a sua inquietude deixam-me atarantado, quase não o consigo dominar. Paro e escondo-me. Pelos olhos dele vejo os dela, não a posso perder. Sinto-o excitado; sinto-me excitado e poderoso.

Ela abre a porta, entram. Volta-se para ele e vejo-lhe o rosto em toda a plenitude da sua adolescência. É linda, quase tanto como Anabela. Abraça-o. Sinto-a calma, ao contrário dele que a olha sem a fixar, que a percorre com os olhos, com as mãos, numa ansia que só o medo pode explicar. Ela apercebe-se disso e encaminha-o para o quarto. Há uma boneca sobre a cama. Ela retira-a e coloca-a numa cadeira, com um gesto único, delicado, o mesmo gesto com que depois o substitui pela boneca, fazendo-o deitar-se. A cama é macia. Respiro fundo na rua.
Pelos olhos dele fixo os olhos dela e interiorizo-a! Quase não necessito de lhe conduzir os movimentos, a rapariga possui uma razoável intuição. No entanto ajudo-a a despi-lo. Ajudo-a a ajudá-la a despir-se. O contacto da boca do rapaz na minha é quente e sôfrego, as suas mãos trémulas no meu corpo (que agora é o dela) é-me estranho, mas não desagradável. Os pelos das suas pernas de homem sobre as minhas (que agora são as pernas lisas da rapariga) emitem qualquer coisa de confortável mas arrepiante, intrusivo. Ele tem uma pressa imensa e parece querer desembaraçar-se de si mesmo dentro de mim! E eu, estou finalmente prestes a sentir o que sentiu Anabela quando nos conhecemos. Será isto nojento?

 

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