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Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir

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28.Ago.17

A mulher das mamas grandes (1)

Escolhi a mesa enquanto passava os olhos pela clientela da pastelaria. Havia um casal de idosos; um sujeito de fato e gravata com um tablet ligado e um dossier aberto sobre a mesa, ao lado de uma chávena de café vazia; havia mulher de costas voltadas para mim e dois adolescentes a que não dei maior atenção. O resto eram os habituais daquela hora do dia, cujos pensamentos e raciocínios já estava farto de ouvir e nunca me haviam prometido qualquer evolução… De um modo geral, as pessoas pensam e falam as mesmas coisas todos os dias, exatamente, ou pelo menos sem grandes alterações…
«Que grande par de mamas!» ouvi mal me sentei e sorri cansado da sinceridade frontal de um dos adolescentes. Não me preocupei em saber de qual deles. Os adolescentes também são quase todos iguais e pensam de modo idêntico.
A maior ironia da natureza, considerei com cinismo, foi consentir a evolução das amibas até alguma vez se transformarem em pessoas, porque tudo o resto parece fazer sentido. Estão errados todos os que creem que a evolução humana atingiu o estadio final no homo sapiens; continuamos a evoluir e a transformarmo-nos, muito embora não me seja fácil prever em quê. A convicção de que somos hoje todos iguais e, simultaneamente, a meta evolutiva da nossa espécie faz-me sentir uma triste aberração; eu e todos os que optaram por se manter incógnitos, discretos e até mesmo omissos nas suas estranhas particularidades.
«Está doente e nem sequer consigo perguntar-lhe quanto grave é... Não sei se conseguirei sobreviver à sua morte» ouvi um dos idosos, provavelmente a mulher, já que as mulheres sobrevivem em média mais sete anos aos homens. Isso quer dizer que o seu companheiro está doente. «Tenho que falar alguma coisa ou ele vai ficar desconfiado. Ele sempre foi desconfiado» prosseguiu a mulher.
«Ela pensa que estou simplesmente doente. Bom, e não serei eu a dizer-lhe que vou morrer… Que belo par de mamas!... Ela também já teve umas mamas assim… lembro-me bem!» Ouvi o velho. Sim era ele. Ao contrário do que seria de esperar, ouvir os pensamentos dos outros é uma grande merda!
A “voz mental” de cada pessoa expressa-se com um tipo e grau de emoção que determinam a velocidade e as características do raciocínio. Daí que nem sempre seja fácil distinguir, sobretudo sem estabelecer contacto visual, a autoria das mesmas.
«O Matos foi sempre um cheira-cus do pior e está convencido de que lhe vão oferecer o cargo de vice-presidente da concelhia…». Olhei desnecessariamente para o tipo com o fato e gravata, sem qualquer dificuldade em identificá-lo. Não necessitaria sequer de observar a sua linguagem corporal, ainda rígida, consistente com o tom irado dos seus pensamentos. «Ora bem, há de haver qualquer coisa mal resolvida deixada para atrás, algo de que alguém que o deteste ainda se lembre; os engraxadores despertam sempre pequenos e grandes ódios: não é possível acariciar deus e o diabo, simultaneamente, com a mesma mão». 

A frase fez-me sorrir. Pedi um café e uma água sem gás. O gás faz-me azia. Depois tornei às minhas cogitações: 

Desde cedo aprendi a conviver com a diferença, em segredo, sem alarde. Primeiro porque pensei que fosse igual a todos os outros, depois porque percebi que o não era, e por fim, quando soube da existência dos que, não sendo como eu, também não eram como os demais.
― Viste as mamas desta?
― Claro! ― mentiu o outro adolescente. «Porra, seriam grandes?».
Também não era necessário observá-lo para saber que, nesse instante, rodava o pescoço como um pequeno lagarto que se apercebe de que já não vai a tempo de alcançar a mosca que passou à frente do seu nariz. Os adolescentes são engraçados.
O instinto fez-me esconder os murmúrios que ouvia em criança e que, com os anos, evoluíram para vozes, quase sempre indistintas, para agora me serem perfeitamente percetíveis, mesmo em algaraviada. O mesmo instinto que me ensinou a suportar essas vozes nunca, infelizmente, me ensinou a ignorá-las.
«Tenho que falar, tenho que ser capaz de lhe dizer alguma coisa ou ele vai perceber que falei com a enfermeira» instigou-se a velhota.
― Estás estranha ― ouvimos, eu e ela, o marido de viva voz.
― É impressão tua! ― garantiu a mulher. «Agora!» ― Olha, lembras-te do Borges… da farmácia? ― perguntou com um tom claro de precipitação.
― Lembro ― respondeu-lhe o marido distraidamente.
― Morreu... «Meu Deus sou tão estúpida!!»
Lamentei tanto o meu dom quanto o ato falhado da senhora.
«O Matos nem sequer comprou casa nos últimos anos… mas fez obras... depois do presidente terminar as dele... O presidente? Quem teria sido o empreiteiro?» Sorri às interrogações do jovem político. Os políticos pensam como os adolescentes, mas sem sexo. «Lusiobra… Lusiobra? Que raio de nome! Deixa cá ver o que o google diz sobre a Lusiobra… pequena empreiteira do grupo Goncalves Castro… Porra, a Gonçalves Castro é a empresa que mais trabalho recebe da Câmara! Será que paga esse favor através da Lusiobra?» Encolhi os ombros e sacudi a cabeça como se quisesse afastar a voz do homem. Em vão.
Não há bons ouvintes. A experiência garante-me que nunca ninguém está disponível para tudo o que outra pessoa fala. Ouvimos apenas o que se queremos ouvir, depois interrompemos, tentamos desviar o rumo da conversa ou, senão o conseguimos, desviamos a nossa própria atenção. Agora imagine-se o que é alguém ter que ouvir os outros à sua volta e nunca poder interrompê-los, mudar-lhes o rumo das conversas ou simplesmente direcionar a atenção para, por exemplo, o volumoso peito de uma mulher, sem nunca os deixar de ouvir!

Esse alguém sou eu.
«Que pena, vai-se embora» lamentou o adolescente distraído. A mulher passou por mim e, tal como ele, não consegui levantar os olhos a tempo, mas o mais estranho é que não a ouvi!
O meu maior desejo, desde a adolescência nunca foi o de querer namorar com uma mulher de mamas grandes mas simplesmente com alguém cujos pensamentos eu não conseguisse ouvir…
«Estou doente» ensaiou o velho antes de abrir a boca.
― E também tem um grande cu! ― tentou compensar o adolescente mais distraído.
«Apanhei-te Matos. Só não sei ainda como é que vou fazer para que o presidente te envie à puta que te pariu!».
― Estou doente! ― ouvi o velho numa voz arrastada, dorida…
E eu estou farto, pensei, mas ninguém ouviu. Estou farto do meu dom. Farto de ouvir as pessoas. Não quero saber se as vozes que latejam nos meus ouvidos é um sinal de que a evolução humana não se fixou no homo sapiens; não quero saber se os dons dos que, como eu, têm particularidades evolutivas é a prova de que a espécie humana está prestes a atingir um novo estadio!
Voltei a cabeça e segui a mulher das mamas grandes. Imaginei-a de frente. Depois levantei-me e corri atrás dela.