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Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir

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26.Fev.17

A morte do candidato

A primeira vez que matámos o provável candidato à presidência da câmara do Montijo foi numa quinta-feira à noite. Ele chegara à nossa cidade ninguém sabia de onde nem exatamente quando, mas de repente passou a ser visto ao lado do presidente municipal e nas margens das fotografias ministeriais de Lisboa, como uma daquelas figuras em que poucos reparam e menos se interrogam. Instalou-se na cidade e era apontado, “à boca pequena”, como o mais provável candidato independente à câmara municipal, embora não se soubesse o fundamento de tal boato. Tudo começou no dia em que sofreu um acidente de viação, ou pelo menos era o que jurava Carlos, um competente mecânico com oficina no Samouco, que, ao percorrer os “ferro-velhos” da região à procura de um retrovisor para um cliente de poucas posses, identificou o que restava do automóvel de alta cilindrada do suposto candidato. – Ninguém poderia sobreviver a um acidente daqueles! – garantiu. Porém não houve qualquer notícia do acidente, o que, ao contrário do que seria de esperar, não convenceu Carlos, antes lhe despertou mais a atenção. E de repente o candidato mudou de carro! Carlos chamou-nos a atenção para isso, mas ninguém lhe deu grande importância. Nas semanas que se seguiram, e até à noite em que matámos o candidato pela primeira vez, Carlos foi insistindo de que alguma coisa não fazia sentido. Começou a vigiar, e muitas vezes a perseguir, o futuro presidente da câmara, descobrindo onde e quando ia. Por sua insistência, encontrámo-nos certa noite, para que o mecânico nos guiasse na peugada do candidato. Chovia, mas se isso nos fez hesitar, a insistência de Carlos tratou de nos fazer vestir um impermeável e levar um guarda-chuva sobre a cabeça. Eram 23 e 45 horas dessa fatídica quinta-feira, quando nos agachámos no trajeto emblemático da zona ribeirinha, junto ao Moinho de Maré, entre os caniços, à espera. Era ali, insistia Carlos, que o candidato ia todas as quintas-feiras. Chovia e trovejava. Trovejava, chovia e soprava vento em todas as direções. Esperámos uns bons 30 minutos até aparecer o novo carro do candidato, apenas com os mínimos ligados. Para nossa surpresa vimo-lo sair com uma mala na mão, correr para o moinho, abrir a porta e desaparecer. Ficámos a olhar uns para os outros e procurámos os olhos de Carlos, mas ele não nos soube elucidar. Pouco depois, sobre o moinho, alguns relâmpagos sem trovão riscaram o céu negro, faiscaram nos traços de chuva que ia caindo sem piedade e perfuraram as nuvens. Apesar dos impermeáveis e dos chapéus, àquela altura estávamos completamente encharcados. Quando os relâmpagos se extinguiram, o candidato saiu para regressar ao carro. Foi nesse instante que, sem que o pudéssemos prever, Carlos correu e precipitou-se sobre o candidato projetando-o para lá da margem, para o abismo negro do rio! Ficámos estupefactos. Saímos na sua direção, mas demasiado tarde para evitar o sucedido. – O que é que se passa contigo? – gritámos. O nosso amigo foi o primeiro a ligar a luz do telemóvel e apontar para o rio. Fizemos o mesmo. Nada. Nenhum resultado. A chuva e o vento fustigavam a superfície da água junto às pás do moinho, sem qualquer sinal do candidato, sequer da sua mala. Desistimos ao fim de algum tempo. Separámo-nos e cada um seguiu o caminho de casa, levando o pesado fardo na consciência: Tínhamos matado o candidato! Para surpresa de todos, na manhã seguinte não ouvimos qualquer notícia sobre o desaparecimento do homem nem sobre a sua morte, e à noite, Carlos telefonou-nos para irmos espreitar ao restaurante O Catraio, junto à Câmara Municipal, quem estava ao lado do presidente, a festejar com ele a provável escolha do Montijo como local de construção do aeroporto de apoio ao de Lisboa: O nosso futuro candidato. Vivo! Desde então voltámos a matá-lo 14 vezes, experimentando os métodos mais clássicos de homicídio até ao mais requintados e extravagantes, mas sempre com o mesmo resultado. Alguns de nós acreditaram que se tratasse de um alienígena. Outros não tinham melhor teoria e os restantes não queriam saber, desde que o pudessem matar uma vez mais. Entretanto o grupo crescera e a sensação de má consciência, bem como de medo, extinguiu-se. Já muita gente sabia o que se passava às quintas-feiras à noite e alguns até deixaram de participar na morte do candidato por esta ser inconsequente, pois no dia seguinte ele levantava-se da cama, vestia-se e passeava de novo pelas ruas do Montijo. Até que, de repente, assim como apareceu, deixou de ser visto; no dia do anúncio oficial do aeroporto da base aérea do Montijo ir ser usado como aeroporto de apoio ao de Lisboa. Nunca percebemos muito bem o que se passou entre nós, mas Carlos ainda nos relembra os relâmpagos faiscantes sobre o moinho, a cruzar o incomensurável breu do céu, como prova de uma possível comunicação. Seja como for, não perdemos muito tempo a falar sobre isso. Para nós é indiferente especular quem tem mais interesse no aeroporto do Montijo, se os políticos se os aliens. Ainda nos reunimos, agora reduzidos ao grupo inicial, quase apenas para constatarmos, frustrados, que matar o candidato sempre foi o melhor programa das nossas quintas-feiras à noite.