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Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir

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O melhor da vida é... fugir

14.Ago.17

A minha fuga

Está um calor insuportável!
Podia voltar para o escritório e refugiar-me sob o aparelho de ar condicionado até à hora de expediente, há colegas que o fazem. Há até quem traga de casa capsulas de café e use a máquina da copa para não sair. Mas eu não.
― Preferes ir lá para fora apanhar este calor? ― pergunta o Marques, que me leva mais cinco anos de serviço.
Fujo. Tenho que fugir mesmo num dia assim, abrasador, disposto a reduzir o meu almoço a uma simples sandes de pasta de delicias do mar, porque agora há sandes de pasta de delicias do mar, o que, não sendo a melhor coisa para comer é o mais rápido que consigo encontrar.
Como não comi fruta, para sair à pressa do snack e vir procurar um lugar vago, à sombra, na esplanada da Mimosa, sento-me e peço um sumo de laranja natural com duas pedras de gelo. Encolho os ombros. Está de facto um calor infernal e sou a única pessoa na esplanada.
Provo o sumo de laranja, que me parece demasiado doce, e peço desculpa à empregada antes de suplicar-lhe mais duas pedras de gelo.
«É isto ou voltar já para o escritório» digo a mim mesmo e convenço-me a aceitar com estoicismo o impacto devastador dos 38º que engrossam o ar à minha volta.
Faço por aproveitar o tempo que me resta, o meu pedaço de liberdade. Detesto o meu trabalho e nunca invejei o de ninguém. Talvez por isso seja o único nesta esplanada fustigada por um calor digno dos trópicos. Bebo o sumo e penso nos trópicos. Sorrio. Sorrio porque me lembro de Papillon, de Henri Charrière, o livro nunca esquecido do início da minha adolescência.
Costumava imaginar-me na ilha do Diabo, Île du Diable, em dias de calor assim, como o de hoje. Tantas vezes o fiz que as fantasiosas imagens se transformaram em memórias reais, que guardo juntamente com os acontecimentos mais marcantes da minha vida.
Tal como a de um tio meu, que em criança me parecia um homem muito alto, e que hoje, constato sempre que o vejo, nunca passou da estatura mediana, essas memórias, bem como as outras, pouco terão já a ver com a realidade que as criou, mas continuam a conviver umas com as outras e a subsistir em mim. Não me é difícil reusá-las e voltar lá, para a ilha do Diabo, sobretudo quando o simples ato de respirar se transforma num exercício de esforço colossal.
Bebo o sumo, semicerro os olhos e calculo que me restem 25 minutos até voltar ao escritório. O calor amolece-me os músculos e entorpece-me o entendimento numa espécie de sono quente que me arrasta para longe… até onde se ouve o murmúrio do mar cor de esmeralda infestado de tubarões.
Olho o buraco na parede (que duvido que estivesse no romance de Charrière) feito com a ajuda do meu camarada de cela, que agora se recusa a fugir comigo.
― Será mais uma fuga inglória ― diz-me.
Não o contrario. Sei que tem razão. Será mais uma fuga inglória, que não me oferecerá sobrevivência numa praia com cheiro a frutos e uma mulher seminua. Ao contrário da de Papillon, a minha será apenas mais uma fuga na ilha do Diabo!
Ainda assim, o buraco na parede é uma tentação a que não consigo resistir. Agacho-me, rastejo para a saída e, sem pensar duas vezes, corro, arrancando quase de imediato os cães à modorra da tarde.
Corro. E enquanto corro o ar bate-me na cara, sopra-me pelo nariz e enche-me os pulmões com um aroma de ervas secas, maresia e óleo de coco, que me tonifica os músculos e impele para diante.
Oiço a inquietação dos cães e as vozes dos guardas mas continuo a correr. Corro porque sei que enquanto correr levarei a minha fuga até mais longe e alongarei os minutos desta liberdade que só a mim pertence. Corro e corro até as pernas cederem, até os pulmões não conseguirem absorver mais oxigénio da mancha de calor em que a atmosfera da ilha se transformou. Sempre que caio, torno a levantar-me e corro.
O latido dos cães aumenta e com ele a aproximação dos guardas.
Volto-me para trás e vejo-os cada vez mais perto. Calculo as minhas inexistentes possibilidades e decido continuar a corrida. Num ápice chego ao fim da ilha sem conseguir respirar e esforçando-me por manter os joelhos firmes, apesar do tremor das pernas. Dobro-me e seguro as coxas com os dedos para conseguir manter-me de pé. Depois olho para baixo dos penhascos, onde o mar se enrola espumoso sobre as rochas. O vento fresco do oceano dá-me de frente e enfuna a minha velha camisola de algodão. Sinto-me agradecido e encho o peito.
A tentação do mergulho é grande mas inversamente proporcional ao prognóstico do salto. Mesmo que soubesse nadar bem não seria possível resistir aos tubarões... Ainda me resta algum tempo. Equaciono: «Se saltar morro, se ficar serei capturado e levado de volta».

Resta-me pouco tempo, mas o pouco tempo que me resta é o meu tempo de liberdade. Por isso preparo-me para os dentes dos cães nos meus calcanhares, para as mãos dos guardas nos meus ombros e deixo-me cair sem forças.
― Eu avisei-te! ― murmura-me mais tarde, através das paredes da masmorra, a voz do meu companheiro, prisioneiro como eu, mas com mais cinco anos de cativeiro.
― Terias gostado de ver o mar ― replico omitindo-lhe as feridas dos pés, os hematomas do corpo e da face.
― O mar... ― ouço-o murmurar. E é a ultima coisa que o cansaço me permite escutar.
Pisco os olhos com dificuldade. Doe-me o corpo todo. Como posso, faço um sinal à empregada e espero. Quando ela chega perto de mim, murmuro-lhe numa voz rouca, enfraquecida:
― Preciso de um café!
Ela sorri e eu devolvo-lhe o sorriso ao constatar, nesse instante, que é a única das empregadas da pastelaria que se dispõe a vir servir-me à esplanada sem me fazer perder o precioso tempo que me resta, como se só ela soubesse que a minha necessidade de fugir é mais importante do que o inglório desfecho da própria fuga; mesmo nos dias de maior calor, como o de hoje.