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Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir daqui

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21.Jan.18

A minha amiga Khudzi (4)

Morreu a minha amiga Khudzi.

Cai uma cacimba grossa quando passo a porta do cemitério, como se estivesse com pressa, e procuro a sua campa. Há um pequeno grupo de pessoas lá ao fundo, em semicírculo; percebo que é onde a vão enterrar. Aproximo-me.

Para minha surpresa vejo um padre à cabeceira da campa. Não sei quem ele é (não sou devota) mas sei que não é o da nossa igreja, por isso, concluo que deve ter vindo em substituição. Depois do que Khudzi fez não me espanta que não tivesse vindo mais gente para o seu enterro.

Conhecia-a numa perfumaria do centro e ficámos amigas. Era uma mulher alta, muito bonita, que se perfumava duas vezes por dia, uma a depois do banho matinal e outra depois do banho noturno. Sabia identificar todos os aromas e marcas de perfumes. Possuía frascos de sais, cremes hidratantes, esfoliantes e toda uma parafernália de cosméticos cujo uso (para não falar da utilidade) eu, que sou uma mulher vaidosa, sequer suspeitava. Apesar da sua beleza sedutora não era muito querida, não o podia ser, nem no estranho grupo a que estava obrigada a pertencer e do qual, hoje, apenas cinco pessoas compareceram. Ignoram-me. Não pelo facto de não ser um deles, mas porque se sentem pouco à vontade por ela os ter traído, depois de os seduzir com os seus cinco séculos de solidão e os levar a juntar esforços e qualidades para encontrar os descendentes de quem eles pensavam ser o seu pai.

Foi ela quem me falou da existência deste grupo, que a acolheu nos últimos anos, mas hoje, de todos os presentes, acredito que sou a única pessoa que ainda sente afeição, admiração e um verdadeiro espanto por ela.

Chego-me à campa e observo o féretro.

Quando regressou pela última vez ao Montijo, Khudzi aparentava pouco mais de trinta e cinco anos, mas a poucos dias da sua morte transformou-se numa velha decrépita, com uma idade tão avançada quando indefinível. Foi a segunda vez que regressou ao Montijo com esta idade, desde que aqui chegou no início do domínio filipino, quando a cidade era ainda uma aldeia e ela adolescente. Confessou-me que não gostou do que viu, mas que ainda assim ficou, por se sentir magoada e demasiado diferente para regressar a Moçambique, ela que nunca se sentiu igual a ninguém, nem mesmo em criança.

Nascera nos finais de mil e quinhentos, na Baía de Inhambane, filha de mãe local e pai galego. Terá sido uma menina normal, igual às outras, porém, de pele mais clara, demasiado branca para a etnia Vatonga da sua mãe, demasiado negra para origem ibérica do seu pai. Por saber que este era branco, que chegara e partira numa nau portuguesa, Khudzi Lucília de Aldegalega, nome que a mãe lhe dera em memória do progenitor, gostava de se aproximar dos navios do porto e dos homens que nele viajavam. E como todas as crianças da Baía de Inhambane, deixava de brincar para ir ver a chegada das naus e dos que se encaminhavam para a Índia. A última vez que o fez, lembrava-se bem, despontavam-lhe já os traços da formosa mulher que viria a ser, um nobre, contramestre da nau Santa Maria, olhou-a, seguiu-a e tentou comprar-lhe o dote. O que a principio lhe pareceu ser uma brincadeira disparatada acabou por ter a aceitação da mãe e, Khudzi, viu-se levada em segredo, no dia da partida, para um compartimento obscuro do navio, o qual, se por fora parecia um engelho portentoso, por dentro não passava de uma imensidão de cubículos minúsculos e malcheirosos, onde a luz do sol nunca chegava.

O seu casamento, sem qualquer cerimónia que o antecedesse, foi consumado sobre as ondas do mar índico, cheiros pestilentos, um assustador ranger do tabuado da nau e o corpo suado do contramestre. Khudzi nunca esqueceu a dor absurda de um dia andar a brincar com as outras meninas e nos seguintes ver-se fechada num cubículo esconso e asfixiante, satisfazendo a vontade e os prazeres do nobre que comprara o seu dote.

Por dívidas ou por ganância (nunca o soube) o contramestre começou por vendê-la primeiro aos outros tripulantes, depois aos marinheiros e por fim aos grumetes da nau, o que transformou a pestilência do cubículo numa atmosfera irrespirável, que a terá marcado até ao último dos seus dias. Não foi a humilhação, contou-me com lágrimas, mas a aviltante sujidade do corpo, as dores, as doenças ignominiosas e febres, que lhe definharam e adulteraram o corpo, que fizeram dela uma aberração.

Acredita que engravidou e abortou durante a viagem, mas para além das hemorragias, não tem a certeza de mais. Certo é que adoeceu várias vezes até dois soldados a virem buscar ao cubículo para a levarem à presença do capitão e do contramestre. Habituada à escuridão, mal conseguiu abrir os olhos à luz para assistir ao que lhe pareceu ser a condenação do seu pretenso marido. Não soube o que lhe aconteceu, porque foi afastada dele e aprisionada num outro cubículo, que, não sendo maior do que o primeiro, tinha pelo menos o conforto de não ter que servir homem algum. Ao fim de algumas semanas, quando a nau Santa Maria aportou em Calecute, Khudzi foi expulsa e devolvida à liberdade, esfomeada, mas inexplicavelmente saudável.

Recusou-se a regressar a Inhambane e encarar a mãe, preferindo deambular pela rota da carreira da Índia apenas com um pequeno punhal como sua proteção e companhia, umas vezes roubando, outras trabalhando, enquanto se aproximava pouco a pouco de Portugal. Contou a sua história inúmeras vezes e outras tantas pediu ajuda na pretensão de encontrar o pai.

Embora tivesse passado alguns anos nesta triste aventura, quando chegou a Aldegalega continuava uma menina, a quem despontavam já os traços da mulher formosa que viria a ser, mas que, ao contrário das outras crianças que fora conhecendo pelo caminho, tardava em amadurecer. Aprendeu a esperar e a salvaguardar esse segredo durante séculos, e começou a esquadrinhar nomes e genealogias de tripulações das naus da carreira da Índia, enquanto disfarçava o asco pelos maus cheiros com os perfumes das várias épocas em que ia vivendo.

Quinhentos anos depois, quando se deparou com o singular grupo de pessoas que, como ela, também eram diferentes dos demais, ainda perseguia pistas e nomes de famílias. Foram essas as últimas pessoas a ouvirem a sua história e a compadecerem-se com a persistente demanda pelo pai, que se dispuseram a ajudá-la a encontrar os descendentes que tanto procurava. Depois de localizada a família, Khudzi deslocou-se a Santarém e observou os seus membros de perto. Aproximou-se dos homens e escolheu, pelo cheiro (sim pelo cheiro!) aquele que lhe pareceu ter maior afinidade com o antepassado. Um homem mais alto do que ela, mais forte e mais ágil. Seduziu-o e deixou-se levar para a cama dele.

Descreveu-me o quarto, que me pareceu e igual a tantos outros, como uma extensão do seu cubículo na nau Santa Maria. Descreveu-me o homem, que me pareceu igual a todos os outros, como o descendente do contramestre que lhe tinha adquirido o dote, e falou-me do seu cheiro com um pormenor que me incomodou. Depois mostrou-me o modo como o apunhalou, como ele resistiu e devolveu-lhe a punhalada antes de soçobrar sobre o sangue desvaído. Por fim despiu-se, mostrou-me as feridas e os primeiros sinais das suas múltiplas doenças.

Pela primeira vez desde que partira de Calecute Khudzi adoeceu. Estava convencida de que o contacto com o sangue do homem que matara em Santarém lhe tinha destruído as defesas que adquirira na inúmera combinação de doenças dentro da nau Santa Maria. A verdade é que de uma só vez pareceu contrair todas as maleitas com as quais se cruzara durante a sua longa vida, desde herpes a malária, passando pela gripe e sarampo, que a desfiguravam a cada hora e a levaram à morte em poucos dias.

A notícia do homicídio de Santarém, cuja arma encontrada parecia tratar-se de um punhal quinhentista, despertou a desconfiança do grupo que a acolheu e do qual apenas cinco pessoas estão agora presentes, ao meu lado, apesar de se sentirem enganadas por ela, que as levou não a procurarem os descendentes do seu pai mas do contramestre da Santa Maria, fazendo-os participar num crime que silenciosamente andava a perpetrar havia várias gerações.

Não me espanta, portanto, que todos os outros a tenham abandonado; mas ainda que eu fosse a única, não deixaria de vir ao seu enterro, até porque a minha alma de escritora sempre absolveu os melhores personagens das minhas histórias: os verdadeiros. E por isso aqui estou, sob a cacimba cada vez mais grossa que cai na despedida da minha amiga Khudzi.

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