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Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir

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25.Mai.17

A extinção dos dinossáurios

É o último sábado do mês e vagueio por entre as bancas da Feira de Antiguidades e Velharias. Olhos os relógios, moedas, pratos, eletrodomésticos e um sem número de outros artigos que não me prendem a atenção. Paro e refugiu-me no céu, sobre a copa das árvores salpicadas de folhas cor de violetas... De repente, dou pelo cheiro de um perfume arrastado pela brisa fresca da manhã e procuro instintivamente por Júlia. Não a encontro. Não distingo sequer a mulher que usa o seu perfume e que está, algures, próxima de mim.
Perturbado, afasto-me e sento-me num banco de madeira corrida, consciente de que já aqui estive sentado.
Júlia foi a mulher mais triste que alguma vez conheci; mas isso não a impedia de ter bom humor, ao contrário de mim. Chorava muitas vezes e despia-se com a mesma facilidade, ou melhor, com a mesma necessidade. Hoje, creio que usava o choro e a nudez como um modo de expressão e não como sintoma da sua arrastada depressão nervosa.
Quando aqui mesmo lhe falei na notícia do uso da base aérea do Montijo como apoio ao aeroporto de Lisboa, ela encolheu os seus ombros redondos.
― Pelo menos, a especulação imobiliária, obrigará a recuperar algumas casas abandonadas no centro… ― contrapus, mas não a demovi:
― E as pessoas? ― questionou-me.
― As pessoas?
― Sim. Nós, as pessoas. Como ficaremos quando não tivermos dinheiro para comprar uma casa na nossa cidade? Quando tivermos de nos calar para deixar passar o barulho de um avião?
Concluí que estava a exagerar mas decidi não a contrariar.
― Gosto de acreditar que o último dos dinossáurios se extinguiu aqui no Montijo. Gosto de imaginar que, por essa altura, há muitos milhões de anos, as águas do Tejo chegavam até onde estamos sentados, e que, aqui mesmo, o último dos dinossáurios deitou-se e, desiludido com o seu destino, contemplou as águas calmas e esperou pelo seu fim, depois de lhe ter sido tirado tudo o resto… Gosto de imaginar que foi assim que ele se entregou, pacificamente, e, no entanto, isso faz-me sentir tão mal!
Olhei-a. Ela respondeu-me ao fim de muito tempo e com os olhos ainda retidos na imagem agonizante do último dos dinossáurios. A emoção aflorou-lhe os lábios com um esgar e duas grossas lágrimas caíram-lhe dos olhos.
― Já imaginaste tamanha solidão?
Só Júlia seria capaz de chorar por uma… fantasia. Sim, porque aquela imagem era uma fantasia… não era? Ou pelo menos, na altura, acreditei que o seria. Hoje não estou tão certo.
― Devia sentir desesperadamente a falta de uma companheira!
Assenti, solidário com a sua dor.
― Quando me sinto só sinto uma necessidade enorme de fazer amor.
Sorri, tentando esconder a minha surpresa perante a sua frontalidade.
― Queres vir até à minha casa?
Foi a minha vez de deixar passar imenso tempo antes de responder. A ideia de me aproveitar da sua depressão deteve-se nos meus indecisos escrúpulos e ficou por lá.
― Não posso… ― titubeei.
Antes que conseguisse encontrar uma desculpa convincente já ela tinha tirado a primeira peça de roupa, senti-me desconfortável.
Já uma vez tinha assistido àquela situação, mas de longe, e por isso não a tinha entendido. Sabia inclusivamente que ela havia sido detida mas, pareceu-me ter havido algum exagero nessa atitude, e ela confirmou-me depois não ter sido levada a tribunal.
Pousou a camisola sobre o banco, entre nós e prosseguiu com o sutiã. Não consegui evitar um olhar, mas para minha desculpa posso garantir que Júlia era uma mulher muito bonita.
― O que é que estás a fazer? ― perguntei-lhe, tentando detê-la.
― A despir-me.
― Por quê?
― Porque me sinto só...
Em menos de nada um polícia acercou-se e veio ajudar-me a vesti-la. Parecia estar familiarizado com a sua manifestação emocional, de tal modo que insistiu em transportá-la ao hospital. Primeiro Júlia resistiu, depois acabou por consentir e seguiu com o polícia mas recusou a minha presença. Fiquei triste pela recusa. De pé, no meio da Praça da República, de costas para a igreja e com a sensação de que toda a gente me olhava com desagrado. Acabei por ir embora.
Durante algumas semanas não voltei a ver Júlia. Soube mais tarde, por acaso, que se tinha suicidado e isso deixou-me ainda mais triste.
De nada serve arrepender-me agora por não a ter acompanhado a casa.
O tempo passa, a vida continua e hoje é quase garantido que a base aérea do Montijo virá a ser um aeroporto civil. Há uma efervescência de recuperação de casas, compra e venda de terrenos, e ninguém parece preocupar-se com o que nos está a acontecer. O preço das habitações  duplicou e os mais jovens começam a abandonar a cidade.
Respiro fundo. O perfume de Júlia esvaneceu-se no ar. Sentado no mesmo banco que partilhei com ela, interrogo-me se não nos estaremos também nós, como os dinossáurios, a extinguir tristemente enquanto olhamos o que resta do rio, como se essa fosse a nossa melhor opção. Estarei apenas triste ou também me sinto só? Sinto-me apenas só ou já estarei deprimido?
Trago vestido uma camisa branca, calças cinzentas e uns ténis de pano. Não levaria mais de dois minutos para tirar tudo, nas calmas!!!

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