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Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir

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06.Out.17

A celebração de Markino

Pequeníssimas pérolas de suor luziam sobre a pele fina e macia de Diara. Nos seus olhos Markino via o reflexo da lua e todo o imenso céu africano salpicado de estrelas. Eram mágicos aqueles momentos em que conseguia permanecer unido a uma mulher até escutar o riso da retirada das hienas, os derradeiros lamentos dos predadores famintos e a inquieta agitação dos sobreviventes. Para retardar o orgasmo imaginava a deambulação daqueles animais, procurando-se uns aos outros, numa última oportunidade por alimento; lutando pela mais antiga lei do mundo, a da própria sobrevivência.

Os dentes brancos de Diara mordiam o grosso lábio inferior enquanto o corpo se contorcia de prazer e as pernas procuravam as suas para o pressionar. Markino saboreava-lhe os movimentos quase como caricias, sentindo-a debater-se debaixo do seu peito, e procurava moldar-se-lhe para melhor a dominar, consentindo que lhe cravasse as unhas nas costas e lhe aprisionasse as coxas.
A brisa fria da madrugada arrastava da savana uma amálgama de odores próprios, peculiares. Markino aspirava-os, respirava-os. Enquanto mantinha o ritmo lento das investidas sobre Diara procurava-lhe os lábios, percorria-lhe lentamente as ancas, os seios e o pescoço, na desesperada tentativa deter a progressão do tempo com a demora de cada gesto.
Mal viu a noite clarear nos olhos da amante, Markino abraçou-a com ambas as mãos, abriu os dedos longos e finos, rodou o corpo e posicionou-a sobre si, evitando olhar diretamente para o céu. Os seios de Diara cresceram na direção do seu rosto, escondendo-lhe o minúsculo pontinho do sol que começava a romper o manto negro da madrugada. Porém, nem os seus ombros, nem todo o seu corpo eram já suficientes para esconder-lhe o desvanecer das estrelas. Apressando-se, Markino segurou-a pela cintura estreita e forçou-a a intensificar os movimentos.

Antecipando-se à inevitável manifestação das aves e ao longínquo acordar dos leões, cerrou os olhos e procurou o clímax enquanto encarcerava Diara nos seus braços e se precipitava para libertar dentro de dela o silencioso grito do predador em que se transformara.
Arfando, num breve momento, os amantes observaram-se sob a luz frágil do nascer do sol e retiveram o que lhes era foi possível da inevitável separação dos corpos. Quando finalmente se apartaram Markino ergueu-se e vestiu as calças. À sua frente, um murmúrio de vozes humanas e choros de crianças começavam a alastrar com a luz do dia e abafar os sons que ficavam para lá do acampamento.
Dentro de pouco tempo chegaria o camião da O.N.U. para distribuir uma ração de farinha de mandioca e água potável. Markino procurou os olhos grandes de Diara mas esta, expedita, corria na direção das tendas, já para lá das retretes portáteis, onde a silhueta de uma outra mulher, com os seios vazios e as mãos agarradas ao cabelo desgrenhado, anunciava aos gritos a morte do seu último filho, contaminando as tendas vizinhas.
Markino enfiou-se na camisola esburacada e caminhou descalço sem saber se haveria de dirigir-se a norte, na direção da tenda que partilhava com dois velhos, ou se tomaria a direção contrária, para a zona de abastecimento.
Percorrendo o empoeirado caminho quase em zig-zag, deu-se conta de que o campo de refugiados despertava definitivamente sob os infetos cheiros da fome, da febre e da morte; e no derradeiro momento de se decidir, perdeu-se distraidamente em frente, absorto na preocupação de resistir até à madrugada seguinte, para tornar a vasculhar o acampamento e procurar uma outra mulher disposta a celebrar consigo mais um dia de sobrevivência.