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Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir

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29.Out.17

A batata da verdade (O efeito das borboletas - parte II)

Aos sábados, no outono, gosto das manhãs cinzentas. Sempre que amanhece assim, levanto-me e espreito pela janela do quarto o manto esfarrapado da neblina sobre as copas das árvores, no parque, e vem-me à memória, sei lá de onde, um irrequieto aroma de café com croissant. Então, lavo-me à pressa e, mais do que me pentear com os dedos, sacudo o cabelo ainda húmido, coloco a trela na cadela e saímos para a rua, satisfeitos. Nestas manhãs deixo-a escolher o caminho, mesmo que me queira levar, como hoje, pela distante margem ribeirinha.
Depois de atravessarmos a ponte baixámos a cabeça e passámos pelo doutor Alvarez, vestido com um fato de jogging. Para nossa sorte, seguia distraído, absorto em cogitações.
Já recorri aos seus serviços por duas vezes, a primeira depois de um bloqueio criativo que me levou quase à depressão, depois de terminar o meu quarto romance; quando, ao arrumar a única cópia impressa, me questionei sobre a futilidade da escrita. O doutor Alvarez explicou-me depois, na primeira consulta, que podemos perguntar tudo o que nos passar pela cabeça a qualquer pessoa, mas que há questões que não devemos colocar a nós mesmos, sob pena de nos arrependermos amargamente. De facto, não me foi fácil voltar a escrever, e se o consegui devo-o a ele, por ter-me aconselhado a diversificar o formato dos meus textos e sugerido que criasse um blog, para experimentar.
Da segunda vez que o consultei, por alturas do seu divórcio e do meu despedimento, aprendi a escutá-lo atentamente, talvez mais do que ele a mim, e a aproveitar algumas das suas inconfidências, que se me revelaram muito úteis, muito inspiradoras.
Ele foi para o lado do clube naval e eu aproveitei para caminhar na direção do moinho, onde, nas manhãs cinzentas de outono, eu e a minha cadela, aproveitamos para sentir as invisíveis gotículas de neblina gelada, enquanto observamos a paisagem plana e distante sobre a água plúmbea do Tejo. Depois, na volta, como dois ingratos, regressámos à pressa com a ideia fixa na esplanada da pastelaria e acelerámos o passo por entre os indefetíveis clientes do mercado da "reforma agrária", rumo à Mimosa.
― Bom dia ― saudou-nos o doutor Alvarez!
Parecia ter terminado a sua marcha de manutenção, embora não mostrasse qualquer sinal de esforço no semblante. Cumprimentei-o e tentei esquivar-me de novo, agora em vão. Ele baixou-se, fez uma festa no lombo da Amália e perguntou-me se ia para casa.
Respondi que sim.
O doutor Alvarez é psiquiatra e o convívio com psiquiatras não traz boa fama a ninguém, embora a sua má imagem não se deva à profissão, mas sim ao divórcio, durante o qual a mulher o acusara de “agressão psicológica”.
Porque sou uma pessoa educada, senti um assomo de dignidade e reconsiderei:
― Mas primeiro irei tomar o pequeno almoço.
― Nesse caso, faz-me companhia ― anunciou-me ele em forma de falso convite.
Aceitei resignado, disposto a tudo menos a prescindir do abatanado e do croissant.
Caminhámos juntos, falando de trivialidades. Quando me sentei à sua frente, na esplanada, avisou-me:
― Tenho pouco tempo... Agendei para hoje uma consulta com um jovem que sofre, veja lá bem, de uma patologia tão delicada quanto estranha.
― Ai sim? ― incentivei-o com um falso desinteresse. A minha última postagem datava de há três semanas e não fazia ideia de quando escreveria a próxima.
― Sofre de stress pós-traumático ― atirou-me. ― De baixo grau, é certo, mas exatamente como o dos soldados que regressam de teatros de guerra.
― Como é que desenvolveu a patologia? ― perguntei sem me conter.
― É jogador. Um gamer, se usarmos o termo dele. Há cinco anos que disputa, online, jogos de guerra.
― Não sabia que isso era possível... ― balbuciei.
― Oh, sim, é possível. Tudo é possível. Já pensei desenvolver um trabalho sobre estes casos...
«E eu também o estou a pensar» considerei para mim.
― A competição intensifica a vivência destes jogos, e alguns dos participantes, como o nosso jovem, absorvem quantidades tóxicas de stress.
― Vai ser difícil afastá-lo desse mundo virtual e trazê-lo de volta, suponho ― observei, enquanto decidia cinicamente o meu post.
― Oh, ele não é mais infeliz do que nós, não pretendo afastá-lo dos jogos. Dar-lhe-ei algumas ferramentas para se defender do stress, apenas.
― Mas... vai deixá-lo continuar a viver na fantasia?
O doutor Alvarez olhou-me nos olhos, como costumava fazer durante as nossas consultas. Depois sorriu:
― Talvez as fantasias não sejam apenas o que você imagina ― insinuou. ― Ninguém vive permanentemente na realidade, felizmente, direi eu. A realidade é uma experiência mínima do nosso dia a dia, e muitas vezes desagradável.
Fiz uma cara de espanto.
― Pensava não ser saudável alhearmo-nos da realidade ― contrapus. ― Afastarmo-nos das pessoas, dos acontecimentos do mundo, das notícias, da verdade!
― As pessoas? Os acontecimentos? As notícias? A verdade? ― repetiu-me o doutor Alvarez.
Dei um fiapo de croissant à Amália, deitada no meu colo, antes de voltar a enfrentá-lo:
― Sim… a realidade, as pessoas… como eu e o doutor.
― Será você exatamente quem se me dá a conhecer?
Olhei-o em silêncio e senti-me mal. Saberia do plágio das nossas conversas?
― E eu, serei exatamente quem você pensa?
― Não o estou a entender...
― Se não nos dermos a imagem real do que somos, induzir-nos-emos numa fantasia, percebe? E é o que toda a gente faz, a fantasia é a nossa vida! Repare ― pediu-me. ― Você ouve uma, digamos… notícia, e interpreta-a à sua maneira. Eu ouço a mesma notícia e faço outra interpretação. Qual de nós se aproximou mais da realidade, ou se quiser (o que é a mesma coisa) da verdade?
Mantive-me calado e confuso.
― Na realidade, somos peritos em construir múltiplas versões de uma só verdade, todas elas falsas.
― Isso quer dizer...
― Que a verdade é uma batata! No caso do meu paciente, parece-me mais importante que seja feliz, agora, aqui no Montijo, do que mudar o seu estilo de vida e sentir-se deprimido!
― Não consigo argumentar consigo, mas também não concordo... ― avisei-o.
― Pensa que se dissesse a uma pessoa para se afastar das suas fantasias e focar-se apenas nas pessoas, nos acontecimentos, nas notícias (como sugere) ela seria mais feliz? Pensa que alguém sentir-se-á bem perante o cenário proposto por Kim Jong-un, quando ameaça lançar uma bomba atómica e dar cabo de parte do planeta? Ou de Trump, quando ameaça antecipar-se e dar cabo da outra metade? Sentir-se-á melhor alguém que adquira a consciência de que, de um momento para o outro, pode, digamos… no decurso de um passeio, transformar-se, sem saber porquê, numa de mais de cem vítimas de incêndios florestais?
As suas perguntas pareceram-me algo inusitadas para um psiquiatra, mas apenas para um psiquiatra. Instintivamente, e não por cortesia, continuei a confrontá-lo:
― Mas as pessoas… As pessoas que nós somos e as que nos rodeiam? Elas são o mais importante... O rapaz devia estar mais preocupado em encontrar namorada e explorar, como nós já fizemos, uma vida de verdade, do que participar em jogos de guerra!
― Ah! ― ouvi-o vociferar. ― Agora propõe que ele também se apaixone por uma jovem, digamos… bonita. Que case, que tenha filhos e um dia volte do trabalho para a descobrir na cama com um dos seus pacientes?!
Lentamente, com o polegar e o indicador, pincei com delicadeza um grande pedaço do que me restava do croissant e ofereci-o à cadela. O doutor Alvarez não disse mais, levantou-se e abandonou-me em silêncio, deixando-me o seu café para pagar.
― Acho que vou voltar às consultas… ― murmurei com a velha crueldade dos dias de escritor, enquanto Amália me lambia os dedos, grata pela minha generosidade ou simplesmente feliz por o dia ter amanhecido cinzento.