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Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir daqui

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O melhor da vida é... fugir daqui

21.Jan.18

A minha amiga Khudzi (4)

j.campião
Morreu a minha amiga Khudzi. Cai uma cacimba grossa quando passo a porta do cemitério, como se estivesse com pressa, e procuro a sua campa. Há um pequeno grupo de pessoas lá ao fundo, em semicírculo; percebo que é onde a vão enterrar. Aproximo-me. Para minha surpresa vejo um padre à cabeceira da campa. Não sei quem ele é (não sou devota) mas sei que não é o da nossa igreja, por isso, concluo que deve ter vindo em substituição. Depois do que Khudzi fez não me espanta que não (...)
01.Jan.18

O segredo do latte macchiato (A celebração de Markino - parte II)

j.campião
O segredo de um bom latte macchiato está na consistência que damos ao café e ao leite; claro que ambos têm que ser de boa qualidade. Aqui o café é bom, mas não posso beber um latte macchiato, não me atrevo a sugerir que me vaporizem o leite e lhe misturem o café segundo as minhas indicações, por isso limito-me a pedir: ― Meia-de-leite, se faz favor. ― Mais alguma coisa? ― Não. Estou à espera de duas pessoas... Espero o meu irmão e a minha amiga Adélia, mas receio que (...)
17.Dez.17

Viagem ao Arizona (O meu preço - parte III)

j.campião
Sinto-me estupidamente calmo depois de ter dormido mal e acordado demasiado cedo, sem ânimo para sair de casa. Decidi tomar o pequeno almoço na sala e ficar a olhar pela janela as pessoas a cruzarem-se na rua, sob a azáfama do Natal, segurando os chapéus de chuva. Rememoro a voz de João Domingos, as suas mãos esfaceladas: ― Quando lá cheguei dei por mim à procura dos Navajos, dos Apaches e dos Índios Pueblo. Tinha feito a viagem imaginando-os a caçar, a lutar, a matar, a morrer.
25.Nov.17

Parar o tempo numa esplanada egípcia

j.campião
Tinha os olhos fechados e a estranha sensação de que tudo se imobilizava à sua volta. Percebeu, sem saber porquê, que devia ter escolhido Paris, mas já era tarde, não podia voltar atrás, não era possível viver o mesmo tempo duas vezes, lamentou consciente da inutilidade do queixume. Se nunca antes o pretendera fazer, por ser infrutífero, seria escusado exigi-lo agora. Parar o tempo sim, já o ambicionara algumas vezes e o fracasso de todas elas nunca o impedira de tentar outra e (...)
20.Nov.17

A raposa do Ártico

j.campião
«Apetece-me um café na Mimosa.»Despi o roupão e atirei-o para cima do sofá. Coloquei um cachecol, vesti o casaco e abotoei-me até ao queixo. Caminhei até à pastelaria, onde me desabotoei com a mesma prontidão, desenrolei o cachecol, sentei-me e pedi dois cafés. A memória é um estranho processo de retenção, consigo recordar minuciosamente os dois acontecimentos mais dramáticos da minha vida, mas sobretudo os pormenores que não presenciei. Memorizei-os pelos olhos de Raquel, (...)
10.Nov.17

A minha primeira vez não correu bem...

j.campião
A minha primeira vez não correu bem... e acabei por interromper. Volto esta semana para uma segunda tentativa, até porque continuo a constatar que... para além dos blogs de opinião, poesia, free style, moda, leitura, culinária e uma imensidão de tantos outros, há também os blogs de escrita criativa, seja lá isso o que for. Curiosamente, estes blogs são realmente poucos e por isso realmente dificeis de encontrar... Não fará mal interrogarmo-nos por quê. O primeiro blog de (...)
08.Nov.17

Um execrável alarve! (O efeito das borboletas - parte III)

j.campião
Os personagens dos meus quatro primeiros romances eram todos muito bons e foi isso que lhes reduziu os enredos a merda!Na realidade talvez não fossem assim tão maus, mas é como agora me esforço por classificá-los, depois de iniciar a terapia e procurar desenvolver uma imperturbável agudeza de espírito e capacidade crítica, desprovidas de misericórdia.Foi-me necessário escrever mais de mil e quinhentas páginas para perceber que não era capaz de compor, convincentemente, um (...)
29.Out.17

A batata da verdade (O efeito das borboletas - parte II)

j.campião
Aos sábados, no outono, gosto das manhãs cinzentas. Sempre que amanhece assim, levanto-me e espreito pela janela do quarto o manto esfarrapado da neblina sobre as copas das árvores, no parque, e vem-me à memória, sei lá de onde, um irrequieto aroma de café com croissant. Então, lavo-me à pressa e, mais do que me pentear com os dedos, sacudo o cabelo ainda húmido, coloco a trela na cadela e saímos para a rua, satisfeitos. Nestas manhãs deixo-a escolher o caminho, mesmo que me (...)
22.Out.17

Leiopelma Pakeka (O meu preço - parte II)

j.campião
Quando me disseram que Cátia tinha-se separado do marido e deixado o país, não sei por quê, calculei de imediato que tivesse ido para Espanha. Garantiram-me que não, que tinha partido para a Nova Zelândia. Sempre soube que Nova Zelândia está nos antípodas de Portugal, mas nunca me tinha apercebido do quanto estava igualmente longe do meu imaginário, contudo e desde então, passou a fazer parte do meu dia-a-dia, ou melhor, das minhas angústias quotidianas. Foi por isso que numa (...)
13.Out.17

Vida selvagem

j.campião
Perseguir crocodilos no Nilo às duas da manhã é uma operação muito perigosa, e ainda mais a bordo de um pequeno bote apetrechado com um holofote suspenso de uma haste, à altura de um metro e oitenta, pensava Tomás. Ele mal sabia nadar, lembrou-se a propósito, enquanto se esforçava por manter-se atento aos mais pequenos movimentos da água, aos mais suaves balanços do barco. Não necessitava de olhar para o relógio para a imaginar no quarto, deitada sobre a cama, lendo uma (...)