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Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir

Aqui no Montijo...

O melhor da vida é... fugir

25.Nov.17

Parar o tempo numa esplanada egípcia

j.campião
Tinha os olhos fechados e a estranha sensação de que tudo se imobilizava à sua volta. Percebeu, sem saber porquê, que devia ter escolhido Paris, mas já era tarde, não podia voltar atrás, não era possível viver o mesmo tempo duas vezes, lamentou consciente da inutilidade do queixume. Se nunca antes o pretendera fazer, por ser infrutífero, seria escusado exigi-lo agora. Parar o tempo sim, já o ambicionara algumas vezes e o fracasso de todas elas nunca o impedira de tentar outra e (...)
20.Nov.17

A raposa do Ártico

j.campião
«Apetece-me um café na Mimosa.»Despi o roupão e atirei-o para cima do sofá. Coloquei um cachecol, vesti o casaco e abotoei-me até ao queixo. Caminhei até à pastelaria, onde me desabotoei com a mesma prontidão, desenrolei o cachecol, sentei-me e pedi dois cafés. A memória é um estranho processo de retenção, consigo recordar minuciosamente os dois acontecimentos mais dramáticos da minha vida, mas sobretudo os pormenores que não presenciei. Memorizei-os pelos olhos de Raquel, (...)
10.Nov.17

A minha primeira vez não correu bem...

j.campião
A minha primeira vez não correu bem... e acabei por interromper. Volto esta semana para uma segunda tentativa, até porque continuo a constatar que... para além dos blogs de opinião, poesia, free style, moda, leitura, culinária e uma imensidão de tantos outros, há também os blogs de escrita criativa, seja lá isso o que for. Curiosamente, estes blogs são realmente poucos e por isso realmente dificeis de encontrar... Não fará mal interrogarmo-nos por quê. O primeiro blog de (...)
08.Nov.17

Um execrável alarve! (O efeito das borboletas - parte III)

j.campião
Os personagens dos meus quatro primeiros romances eram todos muito bons e foi isso que lhes reduziu os enredos a merda!Na realidade talvez não fossem assim tão maus, mas é como agora me esforço por classificá-los, depois de iniciar a terapia e procurar desenvolver uma imperturbável agudeza de espírito e capacidade crítica, desprovidas de misericórdia.Foi-me necessário escrever mais de mil e quinhentas páginas para perceber que não era capaz de compor, convincentemente, um (...)
29.Out.17

A batata da verdade (O efeito das borboletas - parte II)

j.campião
Aos sábados, no outono, gosto das manhãs cinzentas. Sempre que amanhece assim, levanto-me e espreito pela janela do quarto o manto esfarrapado da neblina sobre as copas das árvores, no parque, e vem-me à memória, sei lá de onde, um irrequieto aroma de café com croissant. Então, lavo-me à pressa e, mais do que me pentear com os dedos, sacudo o cabelo ainda húmido, coloco a trela na cadela e saímos para a rua, satisfeitos. Nestas manhãs deixo-a escolher o caminho, mesmo que me (...)
22.Out.17

Leiopelma Pakeka (O meu preço - parte II)

j.campião
Quando me disseram que Cátia tinha-se separado do marido e deixado o país, não sei por quê, calculei de imediato que tivesse ido para Espanha. Garantiram-me que não, que tinha partido para a Nova Zelândia. Sempre soube que Nova Zelândia está nos antípodas de Portugal, mas nunca me tinha apercebido do quanto estava igualmente longe do meu imaginário, contudo e desde então, passou a fazer parte do meu dia-a-dia, ou melhor, das minhas angústias quotidianas. Foi por isso que numa (...)
13.Out.17

Vida selvagem

j.campião
Perseguir crocodilos no Nilo às duas da manhã é uma operação muito perigosa, e ainda mais a bordo de um pequeno bote apetrechado com um holofote suspenso de uma haste, à altura de um metro e oitenta, pensava Tomás. Ele mal sabia nadar, lembrou-se a propósito, enquanto se esforçava por manter-se atento aos mais pequenos movimentos da água, aos mais suaves balanços do barco. Não necessitava de olhar para o relógio para a imaginar no quarto, deitada sobre a cama, lendo uma (...)
06.Out.17

A celebração de Markino

j.campião
Pequeníssimas pérolas de suor luziam sobre a pele fina e macia de Diara. Nos seus olhos Markino via o reflexo da lua e todo o imenso céu africano salpicado de estrelas. Eram mágicos aqueles momentos em que conseguia permanecer unido a uma mulher até escutar o riso da retirada das hienas, os derradeiros lamentos dos predadores famintos e a inquieta agitação dos sobreviventes. Para retardar o orgasmo imaginava a deambulação daqueles animais, procurando-se uns aos outros, numa (...)
01.Out.17

A vida dos outros (3)

j.campião
― Metes-me nojo! ― murmurou Carlota ao passar. Senti-me humilhado, evidentemente. Há murmúrios que soam mais alto do que gritos, há murmúrios que cospem raiva entre as palavras, como o dela. Levantei a cabeça, persegui-a até à porta da rua como um cão acossado, e lembrei-me do dia em que me olhou nos olhos e disse que a minha vida iria acabar mal. Só faltava ela, já todos os outros me odiavam. Havia uns vinte minutos que vinha a observar os dois jovens sentados a uma das (...)
20.Set.17

O melodrama de Carlota (2)

j.campião
  No dia em que se cruzou com Rafael, Carlota previu que ia morrer à frente do balcão da loja com um tiro e uma dor no coração, e isso nada teve de romântico. O mais estranho é que ele lhe pareceu uma pessoa normal. Habituada a decifrar a vida dos outros, Carlota, impotente perante a fria exposição da sua fatalidade, voltou a interrogar-se sobre quem ou o que raio é que decide que se morra! Quem ou o que raio é que decreta que se adoeça? Quem ou o que raio é que havia (...)